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Ciência

A NASA quer entender um fenômeno que pode mudar o comportamento dos grandes incêndios

Alguns incêndios atingem um nível tão extremo que conseguem formar um fenômeno raro capaz de alterar o clima ao redor e produzir efeitos que vão muito além das chamas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos em um grande incêndio florestal, normalmente imaginamos fogo, fumaça e destruição. Mas, em situações extremas, esses eventos podem desencadear um fenômeno muito mais complexo. O calor intenso é capaz de criar enormes tempestades que passam a influenciar o próprio comportamento do incêndio e até a atmosfera em grandes altitudes. Cientistas estudam essas formações há anos porque elas podem transformar um desastre local em um evento com impactos muito mais amplos.

A tempestade que nasce das próprias chamas pode tornar um incêndio ainda mais perigoso

Em incêndios florestais de grande intensidade, o fogo pode deixar de ser apenas influenciado pelas condições meteorológicas e começar a modificá-las. O calor extremo gera poderosas correntes ascendentes que transportam fumaça, cinzas e vapor d’água para grandes altitudes, criando uma estrutura conhecida como pirocumulonimbo, ou simplesmente pyroCb.

Esse fenômeno ganhou destaque novamente em julho de 2026, quando um incêndio próximo à cidade de Saumos, no sudoeste da França, originou o primeiro pirocumulonimbo oficialmente registrado no país. A formação provocou descargas elétricas que iniciaram novos focos de incêndio e alterou rapidamente a direção e a intensidade dos ventos ao redor das chamas.

Embora tempestades desse tipo já tenham sido observadas anteriormente em regiões como Austrália, Canadá e oeste dos Estados Unidos, o episódio demonstrou que incêndios europeus também podem atingir níveis extremos de comportamento.

O processo começa quando a intensa coluna de ar aquecido sobe rapidamente carregando partículas de fumaça e vapor. Se encontrar uma atmosfera suficientemente instável e úmida, o vapor se condensa, liberando calor adicional que impulsiona ainda mais o crescimento da nuvem.

Nem toda coluna branca observada sobre um incêndio corresponde a um pirocumulonimbo. Inicialmente podem surgir formações menores chamadas de pirocúmulos. Apenas quando a nuvem alcança grandes altitudes, forma cristais de gelo e adquire características típicas de tempestades é que recebe a classificação de pyroCb.

Dentro dessas gigantescas nuvens podem ocorrer fortes correntes ascendentes, violentas rajadas descendentes e intensa atividade elétrica. Os ventos descendentes podem modificar rapidamente o avanço das chamas, dificultando o trabalho das equipes de combate e tornando o comportamento do incêndio praticamente imprevisível.

Além disso, as tempestades conseguem transportar brasas para áreas distantes e produzir raios fora do perímetro original. Em muitos casos, parte da chuva evapora antes de atingir o solo, deixando apenas as descargas elétricas responsáveis por iniciar novos incêndios sem fornecer água suficiente para extinguir o fogo.

O impacto dessas nuvens pode ultrapassar continentes e durar vários meses

A maior parte da fumaça produzida por incêndios permanece na troposfera, a camada mais baixa da atmosfera. Porém, os pirocumulonimbos mais intensos funcionam como enormes chaminés naturais capazes de transportar partículas diretamente para a estratosfera.

Nessa região, quase não existem chuvas capazes de remover os aerossóis. Como consequência, a fumaça pode permanecer suspensa durante meses, percorrer milhares de quilômetros e alterar temporariamente a quantidade de radiação solar que atravessa a atmosfera. Essas partículas também podem influenciar processos químicos relacionados à camada de ozônio e modificar a circulação atmosférica em grandes altitudes.

Por esse motivo, os cientistas frequentemente comparam esses eventos aos efeitos produzidos por algumas erupções vulcânicas. Apesar da semelhança, existem diferenças importantes. A composição química da fumaça gerada pela queima de vegetação não é igual aos aerossóis ricos em enxofre lançados pelos vulcões, fazendo com que seus impactos climáticos não sejam exatamente os mesmos.

Um dos episódios mais marcantes ocorreu em 2017, durante os grandes incêndios no noroeste do Pacífico, quando uma sequência de pirocumulonimbos lançou entre 0,1 e 0,3 teragrama de partículas na estratosfera. Na época, tratou-se da maior intrusão de fumaça já registrada nesse tipo de evento.

Poucos anos depois, entre o fim de 2019 e o início de 2020, os incêndios do chamado “Verão Negro” na Austrália produziram um fenômeno ainda mais impressionante. Treze grandes incêndios geraram 38 pulsos de pirocumulonimbos, muitos deles lançando fumaça diretamente na estratosfera. Parte desse material formou gigantescos vórtices atmosféricos que deram várias voltas ao redor do planeta antes de se dissiparem.

Mesmo assim, especialistas ressaltam que uma única nuvem não altera sozinha o clima de um país. Seus efeitos dependem da quantidade de fumaça emitida, da altitude alcançada, da composição das partículas e do tempo em que permanecem na atmosfera.

Compreender exatamente como esses fenômenos se formam continua sendo um grande desafio científico. Não basta que o incêndio seja intenso. Também entram em jogo fatores como umidade, estabilidade atmosférica, velocidade do vento, quantidade de vegetação disponível para queimar e a interação entre o fogo e as correntes de ar.

Para responder essas questões, pesquisadores do Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos, com participação da NASA, iniciaram em 2026 a campanha INSPYRE, que seguirá em 2027 utilizando aviões de grande altitude, satélites, sensores terrestres e modelos atmosféricos para estudar incêndios no oeste dos Estados Unidos e do Canadá.

O objetivo é descobrir quais incêndios conseguem formar essas tempestades, por que apenas alguns lançam fumaça até a estratosfera e como essas partículas influenciam o equilíbrio energético da atmosfera. Enquanto isso, uma conclusão já parece clara: quando um incêndio consegue criar sua própria tempestade, ele deixa de ser apenas um desastre florestal e passa a se tornar um fenômeno capaz de produzir consequências muito além das áreas atingidas pelas chamas.

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