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Ciência

A origem do sistema solar pode ter sido mais complexa do que aprendemos na escola

Um dos materiais mais antigos já encontrados na Terra preservou uma informação surpreendente sobre os primeiros momentos do sistema solar — e ela aponta para um protagonista que quase sempre fica em segundo plano.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Há cerca de 4,6 bilhões de anos, o sistema solar era apenas uma gigantesca nuvem de gás e poeira em transformação. A gravidade começou a concentrar esse material até formar o Sol e o disco onde surgiriam os planetas. Mas uma pequena peça encontrada dentro de um meteorito pode indicar que havia outra força participando ativamente desse processo desde os primeiros instantes.

Uma cápsula do tempo encontrada no gelo

Para investigar essa história, pesquisadores analisaram o meteorito DOM 08006, encontrado em 2008 na região de Dominion Range, na Antártida Oriental. A rocha é especialmente interessante porque sofreu poucas alterações desde sua formação, preservando materiais extremamente antigos.

Dentro dela estavam inclusões ricas em cálcio e alumínio, conhecidas pela sigla CAIs. Elas estão entre os primeiros sólidos formados no sistema solar e surgiram durante os primeiros 20 mil a 200 mil anos de sua existência.

Algumas dessas partículas contêm minerais capazes de registrar a presença de campos magnéticos. É como se pequenos grãos minerais tivessem funcionado como uma espécie de memória física das condições existentes quando o sistema solar ainda estava nascendo.

Os pesquisadores, liderados por Cauê Borlina, analisaram cuidadosamente esses grãos para verificar se a magnetização realmente correspondia ao campo existente naquela época. O resultado revelou uma pista muito mais poderosa do que se imaginava.

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© Magnific

Uma força muito mais intensa do que a atual

As medições indicaram que o campo magnético presente na região onde o sistema solar estava se formando tinha entre 150 e 600 microteslas.

A comparação ajuda a dimensionar o resultado. O campo magnético da Terra atualmente é de aproximadamente 50 microteslas. Isso significa que o ambiente do sistema solar recém-formado poderia apresentar campos entre três e até 12 vezes mais intensos do que o campo magnético terrestre atual.

A descoberta não elimina a gravidade como principal força responsável pelo colapso da nuvem primordial. Pelo contrário: ela acrescenta uma peça importante a uma história que já era conhecida, mas talvez estivesse incompleta.

À medida que a nuvem de gás e poeira entrava em colapso, parte desse material estava ionizada e continha partículas eletricamente carregadas. Nessas condições, os campos magnéticos podem interagir com o gás e influenciar a maneira como a matéria se movimenta.

O magnetismo pode ter ajudado a formar o Sol

É justamente aí que a descoberta ganha importância. Os campos magnéticos podem ter contribuído para transportar gás através do disco protoplanetário, direcionando parte desse material para o centro, onde o jovem Sol estava se formando.

Em outras palavras, a gravidade pode ter iniciado o processo de concentração da matéria, enquanto o magnetismo ajudava a organizar e movimentar parte desse material.

Estudos anteriores já haviam encontrado evidências de magnetismo em períodos posteriores da formação da nebulosa solar. O novo trabalho, porém, recua para uma fase muito mais antiga e apresenta o que os pesquisadores consideram a evidência paleomagnética mais antiga conhecida do sistema solar.

O resultado é importante porque oferece algo raro: uma medição física preservada durante bilhões de anos. Em vez de depender apenas de simulações, os cientistas agora podem comparar modelos sobre a formação do sistema solar com uma espécie de registro fóssil do ambiente magnético que existia naquela época.

A imagem que surge é mais complexa do que a tradicional. O nascimento do nosso sistema solar pode ter sido resultado da atuação conjunta de diferentes forças, com a gravidade reunindo a matéria e os campos magnéticos ajudando a conduzi-la.

Publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, o estudo transforma um pequeno fragmento de meteorito em uma janela para os primeiros capítulos da história do Sol e dos planetas — e mostra que ainda existem pistas fundamentais sobre nossa origem escondidas em rochas que chegaram à Terra há muito tempo.

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