A Terra está girando mais rápido do que o habitual — e isso, embora quase imperceptível para o dia a dia, pode ter implicações importantes para os sistemas que dependem de extrema precisão, como redes de telecomunicações, sistemas bancários e GPS. O fenômeno reacendeu o debate entre cientistas sobre a possível adoção de um “segundo bissexto negativo”, algo que nunca aconteceu antes.
Dias cada vez mais curtos
Segundo o site especializado timeanddate.com, em 4 de julho do ano passado, a Terra completou uma rotação 1,66 milissegundos mais rápida do que o normal. Em 10 de julho de 2025, esse encurtamento foi de 1,36 milissegundos. Dias ligeiramente mais curtos também ocorreram nos dias 9 e 22 de julho, embora os valores exatos ainda estejam sendo confirmados.
Para a maioria das pessoas, perder frações de segundo pode parecer irrelevante. Mas para a comunidade científica e tecnológica, essa diferença é suficiente para gerar erros em sistemas altamente sincronizados.
Por que isso afeta o tempo oficial?
O tempo global é medido por meio do Tempo Universal Coordenado (UTC), que se baseia em relógios atômicos de altíssima precisão. No entanto, esse sistema precisa se alinhar ao tempo astronômico, que depende da rotação da Terra.
Como o planeta não gira sempre à mesma velocidade — influências do Sol, da Lua e do campo gravitacional alteram esse ritmo — é necessário, de tempos em tempos, adicionar um segundo extra: o chamado segundo bissexto positivo. A proposta atual seria fazer o contrário: subtrair um segundo para corrigir o avanço da Terra.
A polêmica do segundo bissexto negativo
Apesar de parecer uma simples correção, a inclusão de segundos bissextos tem causado dores de cabeça. Em 2020, um grupo internacional de especialistas decidiu que a prática será aposentada até 2035 devido aos problemas causados por essas inserções em sistemas globais.
De acordo com Patrizia Tavella, diretora do Departamento de Tempo do Bureau Internacional de Pesos e Medidas, essas alterações provocam falhas em redes de computadores e interferem em programações complexas, como horários de voos internacionais. E, como cada país lida com os segundos extras de maneira diferente, o problema se intensifica.
Agora, diante da possibilidade de um segundo bissexto negativo, as preocupações são semelhantes — ou até maiores.
Chance de acontecer e os próximos passos
Até o momento, nenhuma entidade oficial defende ativamente a implementação dessa medida. Especialistas como Judah Levine, físico da Universidade do Colorado, afirmam que as dificuldades técnicas persistem mesmo após 50 anos de uso do segundo bissexto positivo, o que aumenta as dúvidas sobre os riscos de se adotar um ajuste negativo.
Ainda assim, com a Terra girando mais rápido, é possível que o tempo astronômico comece a ficar atrás do UTC — o que forçaria uma intervenção. Duncan Carr Agnew, oceanógrafo da Instituição Scripps de Oceanografia, estima que isso pode acontecer já em 2029. Judah Levine, por sua vez, acredita que a chance disso ocorrer na próxima década é de cerca de 30%.
Outros cientistas, como o especialista em redes Darryl Veitch, ponderam que a rotação da Terra pode desacelerar novamente, o que tornaria o ajuste desnecessário.
Quando será o próximo “dia curto”?
De acordo com os cálculos mais recentes, o próximo dia com rotação acelerada deverá ocorrer em 5 de agosto. Se o ritmo continuar, ajustes no tempo global — incluindo a adoção de um segundo bissexto negativo — poderão voltar com mais força à pauta internacional.