Durante muito tempo, Plutão foi visto como um mundo gelado e relativamente estático, distante demais para esconder grandes surpresas geológicas. Mas uma nova análise das imagens enviadas pela sonda New Horizons mudou essa percepção. Pesquisadores identificaram estruturas gigantescas que indicam um comportamento inesperado da superfície do planeta anão, revelando processos capazes de desafiar o que se conhecia até agora sobre a dinâmica desses ambientes extremos.
Um planeta gelado revela sinais de uma atividade surpreendente

Deslizamentos de terra são fenômenos comuns em diversos corpos do Sistema Solar. Eles já foram observados em planetas rochosos, asteroides e até em luas como Fobos. Em Plutão, porém, esse tipo de evidência permanecia praticamente ausente desde a histórica passagem da sonda New Horizons, em 2015.
Agora, uma nova investigação das imagens coletadas durante a missão mudou esse cenário. Publicado em 13 de junho na revista científica Icarus, o estudo identificou seis grandes deslizamentos de terra distribuídos pela superfície do planeta anão, revelando que sua paisagem continua muito mais dinâmica do que se imaginava.
A descoberta chama atenção não apenas pelo número de formações encontradas, mas também pelas características incomuns desses movimentos. Os deslizamentos aparecem próximos à vasta planície Sputnik Planitia, uma das regiões mais famosas de Plutão, localizada no interior de uma gigantesca bacia de impacto.
As estruturas foram identificadas principalmente nas bordas internas de crateras, onde as encostas apresentam inclinações acentuadas. Segundo os pesquisadores, esses processos desempenham papel fundamental na transformação do relevo, transportando grandes quantidades de material ao longo do tempo e remodelando lentamente a paisagem.
Entre todas as formações analisadas, uma delas impressiona pelas dimensões. A área afetada ocupa cerca de 130 quilômetros quadrados, equivalente a aproximadamente duas vezes o tamanho da ilha de Manhattan. Embora existam deslizamentos ainda maiores na Terra, esse valor coloca a estrutura entre as maiores já identificadas em um ambiente planetário desse tipo.
Além da extensa área ocupada, as formações apresentam alturas variando entre 1.500 e 2.200 metros. Em comparação com montanhas e cânions de outros corpos do Sistema Solar, esses valores não são extremos. Ainda assim, a maneira como o material se deslocou chamou a atenção dos cientistas.
O comportamento dos materiais desafia as explicações tradicionais
O aspecto mais intrigante da pesquisa está na distância percorrida pelos materiais durante os deslizamentos.
Ao comparar Plutão com outros planetas, luas e asteroides que possuem encostas semelhantes, os pesquisadores perceberam que os blocos deslizaram muito mais longe do que seria esperado. Em outras palavras, eles perderam menos energia durante o percurso.
Essa conclusão indica que o atrito enfrentado pelos materiais durante a descida parece ser significativamente menor do que o observado em outros corpos celestes.
Ainda não existe uma explicação definitiva para esse comportamento. A composição da superfície, formada principalmente por diferentes tipos de gelo misturados a materiais rochosos e compostos orgânicos, pode influenciar diretamente a forma como essas massas se movimentam. No entanto, os cientistas afirmam que serão necessários estudos adicionais para compreender exatamente quais mecanismos físicos estão por trás desse fenômeno.
Segundo Maria Teresa Brunetti, pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália e uma das autoras do estudo, os deslizamentos de terra exercem papel importante na evolução do relevo e ajudam a compreender como a superfície de Plutão continua sendo modificada ao longo do tempo.
As imagens da New Horizons ainda podem esconder novas descobertas
Para os pesquisadores, os seis deslizamentos identificados provavelmente representam apenas parte da história geológica de Plutão.
A equipe acredita que outras formações semelhantes podem permanecer ocultas nas milhares de imagens registradas pela sonda New Horizons. Uma análise mais detalhada desse enorme conjunto de dados poderá revelar novos exemplos e ampliar o conhecimento sobre os processos que moldam a superfície do planeta anão.
Além disso, os cientistas defendem que futuras missões espaciais dedicadas a Plutão serão fundamentais para esclarecer por que esses movimentos ocorrem com tão pouca resistência e quais propriedades físicas tornam esse ambiente tão diferente do restante do Sistema Solar.
Mesmo mais de uma década após o histórico sobrevoo da New Horizons, os dados da missão continuam produzindo descobertas importantes. O novo estudo demonstra que Plutão ainda guarda muitos mistérios e que sua geologia pode oferecer pistas valiosas sobre a evolução dos mundos gelados que habitam as regiões mais distantes do Sistema Solar.
[Fonte: La razón]