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Ciência

Cientistas recuperam na Antártida um arquivo geológico de 23 milhões de anos escondido sob mais de 500 metros de gelo

Após duas tentativas frustradas, uma equipe internacional conseguiu perfurar mais de 523 metros de gelo na Antártida Ocidental e recuperar um núcleo sedimentar sem precedentes. O material pode revelar como uma das regiões mais vulneráveis do planeta reagiu a antigos períodos de aquecimento global e ajudar a prever a elevação do nível do mar nas próximas décadas.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Em uma das áreas mais isoladas da Antártida Ocidental, a mais de 700 quilômetros de qualquer base permanente, pesquisadores concluíram uma das perfurações científicas mais desafiadoras já realizadas no continente gelado. A missão atravessou mais de meio quilômetro de gelo até alcançar sedimentos preservados sob a camada glaciar, recuperando um registro geológico que pode guardar cerca de 23 milhões de anos da história climática da Terra.

Uma perfuração histórica sob o gelo da Antártida

Uma Perfuração Histórica Sob O Gelo Da Antártida
© Ana Tovey / SWAIS2C

A expedição faz parte do projeto internacional SWAIS2C (Sensitivity of the West Antarctic Ice Sheet to 2°C), criado para investigar como a camada de gelo da Antártida Ocidental respondeu a episódios passados de aquecimento global.

Para alcançar os sedimentos, a equipe utilizou um sistema de perfuração com água quente que abriu um canal através de 523 metros de gelo.

Depois de atingir a base da geleira, os cientistas instalaram mais de um quilômetro de tubos até alcançar o solo localizado sob a camada congelada.

Foi ali que começou a etapa mais importante da missão.

Os pesquisadores conseguiram extrair um núcleo sedimentar com 228 metros de comprimento, composto por camadas de sedimentos e fragmentos rochosos acumulados ao longo de milhões de anos.

Segundo o projeto, trata-se do maior registro geológico já recuperado diretamente de um ambiente subglacial.

O núcleo pode preservar até 23 milhões de anos da história da Terra

Logo após a extração, cada segmento do núcleo foi fotografado, descrito e submetido às primeiras análises ainda no acampamento científico.

Em seguida, as amostras foram enviadas para laboratórios especializados, onde passarão por estudos detalhados durante os próximos anos.

As análises preliminares identificaram microfósseis marinhos em diversas camadas do sedimento.

Esses organismos sugerem que o registro pode abranger aproximadamente 23 milhões de anos.

Se essa estimativa for confirmada, os cientistas terão acesso a um dos arquivos naturais mais completos já obtidos sobre a evolução da Antártida Ocidental.

Evidências mostram que a região já foi um ambiente marinho

As primeiras observações revelaram mudanças marcantes entre as diferentes camadas do núcleo.

Algumas apresentam características típicas de depósitos formados sob uma espessa camada de gelo apoiada sobre o continente.

Outras, porém, contam uma história completamente diferente.

Os pesquisadores encontraram conchas e microfósseis de organismos que vivem apenas em mares abertos, onde a luz solar consegue atingir o fundo.

Essas evidências indicam que a área hoje coberta por centenas de metros de gelo esteve livre da cobertura glaciar em determinados momentos do passado.

Até agora, hipóteses sobre esses períodos de retração eram baseadas principalmente em sedimentos coletados no Oceano Austral e no Mar de Ross.

Pela primeira vez, os cientistas contam com um registro obtido diretamente na borda da própria camada de gelo.

O estudo pode ajudar a prever o futuro da Antártida

A pequena criatura escondida sob o gelo da Antártida que pode mudar a luta contra um dos cânceres mais agressivos
© Unsplash

A Antártida Ocidental é considerada uma das regiões mais vulneráveis do sistema climático global.

Grande parte de sua base está localizada abaixo do nível do mar, tornando a camada de gelo especialmente sensível à entrada de águas oceânicas mais quentes.

Observações por satélite mostram que essa região vem perdendo massa de forma acelerada nas últimas décadas.

Caso toda a camada de gelo da Antártida Ocidental derreta, o nível médio dos oceanos poderá subir entre quatro e cinco metros.

No entanto, a principal dúvida dos pesquisadores não é apenas quanto gelo poderá desaparecer, mas em que momento esse processo se torna irreversível.

Um arquivo que pode mudar os modelos climáticos

O projeto SWAIS2C foi concebido justamente para responder a essa questão.

Seu objetivo é compreender como a camada de gelo reagiu quando a temperatura média global ficou cerca de 2 °C acima dos níveis pré-industriais — limite que também orienta as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.

Nos próximos anos, especialistas de diversos países irão analisar cada centímetro do núcleo sedimentar para determinar sua idade, identificar organismos microscópicos preservados e reconstruir as condições climáticas e oceânicas existentes durante sua formação.

Se os resultados confirmarem que a Antártida Ocidental sofreu grandes recuos sob condições semelhantes às previstas para este século, os cientistas terão, pela primeira vez, uma referência obtida diretamente na borda da própria camada de gelo.

Mais do que estabelecer um recorde técnico de perfuração, a descoberta pode fornecer uma das evidências mais importantes já encontradas para compreender o futuro do continente antártico e melhorar as projeções sobre a elevação do nível do mar em um planeta cada vez mais quente.

 

[ Fonte: Muy Interesante ]

 

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