Com a eleição presidencial de 4 de outubro se aproximando, a circulação de informações falsas volta a ocupar o centro das preocupações no Brasil. Para descobrir se as ferramentas criadas pelas plataformas realmente conseguem impedir que conteúdos enganosos sejam impulsionados mediante pagamento, a Amnistia Internacional decidiu realizar um teste controlado no Facebook. Os resultados mostram que algumas barreiras podem ser muito mais fáceis de atravessar do que parecem.
Quinze anúncios foram suficientes para colocar o sistema à prova

A experiência foi organizada pela Amnistia Internacional para avaliar especificamente o sistema utilizado pela Meta na moderação de publicidade eleitoral no Facebook.
A organização preparou 15 anúncios em português do Brasil, todos direcionados exclusivamente a brasileiros em idade eleitoral. Quatorze continham algum tipo de desinformação relacionada às eleições, enquanto apenas um apresentava conteúdo neutro.
Não eram mensagens aleatórias inventadas simplesmente para enganar o algoritmo. Para elaborar o material, pesquisadores analisaram conversas online, opiniões publicadas nas redes sociais e conteúdos que circularam no Facebook e no X entre janeiro e maio de 2026.
A intenção era reproduzir narrativas semelhantes àquelas que efetivamente aparecem no debate político brasileiro.
Os temas escolhidos incluíam alegações falsas sobre fraude eleitoral e mensagens que utilizavam desinformação para promover uma ruptura militar. Alguns conteúdos também questionavam a legitimidade do processo democrático.
Depois veio a etapa decisiva: submeter cada anúncio ao sistema publicitário do Facebook e observar quais barreiras seriam acionadas.
Nenhum dos anúncios chegou efetivamente ao público. A própria Amnistia impediu sua publicação, pois o objetivo era exclusivamente testar o processo de aprovação da plataforma.
Foi justamente nesse momento que apareceu o resultado mais preocupante.
Mais da metade passou pelo primeiro grande filtro
Dos 15 anúncios apresentados, oito foram aceitos pelo Facebook. Os outros sete receberam uma solicitação para verificar a identidade do anunciante porque foram classificados como relacionados a temas sociais, eleições ou política.
Há, porém, uma diferença importante.
Segundo a Amnistia Internacional, esses sete anúncios não foram rejeitados especificamente por conterem desinformação eleitoral. O sistema identificou sua natureza política e exigiu verificação, mas não necessariamente detectou o problema existente no conteúdo.
Para a organização, isso expõe uma vulnerabilidade significativa às vésperas de uma eleição presidencial.
A preocupação aumenta porque publicidade paga funciona de maneira diferente de uma publicação comum. Um anunciante pode definir características do público que deseja alcançar e investir dinheiro para ampliar rapidamente o alcance de determinada mensagem.
Isso transforma os mecanismos de revisão de anúncios em uma das principais barreiras contra campanhas organizadas de manipulação.
Jurema Werneck, diretora executiva da Amnistia Internacional Brasil, classificou como alarmante que o sistema não tenha identificado mais da metade dos anúncios eleitorais contendo desinformação. Para a entidade, os resultados indicam que a Meta precisa fazer mais para impedir que sua infraestrutura publicitária seja utilizada como vetor desse tipo de conteúdo.
Algumas mensagens testavam limites ainda mais sensíveis

O experimento não ficou restrito a informações eleitorais incorretas relativamente simples.
Entre os materiais submetidos estavam narrativas que alegavam fraude eleitoral e conteúdos que recorriam à desinformação para defender um golpe de Estado militar.
Isso torna o teste particularmente relevante no contexto brasileiro.
A desinformação eleitoral já desempenhou papel importante no debate político do país nos últimos anos, especialmente em torno da confiabilidade das urnas eletrônicas, da legitimidade das instituições e dos resultados das eleições.
A Amnistia afirma que parte dos anúncios também poderia entrar em conflito com as próprias políticas da Meta relacionadas à interferência eleitoral ou censitária. Ainda assim, oito conseguiram superar a análise inicial.
A organização ressalta que a experiência utilizou o conceito de desinformação de acordo com sua própria terminologia, enquanto a elaboração e avaliação do material levaram em consideração a definição utilizada pela Meta para informações incorretas.
O objetivo, portanto, não era apenas produzir conteúdos evidentemente absurdos para desafiar artificialmente o sistema. A experiência procurou verificar como os mecanismos responderiam a narrativas semelhantes às que já circulam entre usuários brasileiros.
O calendário eleitoral deixa pouco espaço para correções
O momento da divulgação também aumenta a pressão sobre a Meta. A primeira rodada das eleições presidenciais brasileiras está prevista para 4 de outubro de 2026, deixando poucas semanas para eventuais ajustes significativos nos sistemas de moderação.
A experiência não demonstra que todo anúncio contendo desinformação será automaticamente aprovado pelo Facebook. Tampouco significa que os conteúdos testados tenham sido efetivamente exibidos aos usuários.
O que ela revela é uma possível fragilidade na primeira linha de defesa de um sistema publicitário capaz de alcançar milhões de pessoas.
E existe outro detalhe importante: os anúncios testados foram escritos especificamente em português brasileiro e direcionados ao eleitorado do país. Portanto, o experimento buscava reproduzir as condições locais, e não apenas extrapolar resultados obtidos em outro mercado.
A questão passa agora a ser o que a Meta fará com esse alerta.
Em períodos eleitorais, alguns minutos podem ser suficientes para que uma informação falsa alcance milhares de pessoas e seja reproduzida fora da plataforma original. Quando dinheiro e ferramentas de segmentação entram nessa equação, a escala potencial aumenta ainda mais.
Faltando pouco para os brasileiros voltarem às urnas, a experiência deixa uma pergunta desconfortável: se anúncios criados deliberadamente para testar o sistema conseguiram atravessar suas barreiras, quantos conteúdos reais podem estar tentando fazer exatamente o mesmo?
[Fonte: amnistia]