A inteligência artificial deixou de ser apenas uma disputa entre empresas de tecnologia. Para a Anthropic, criadora do Claude, seus modelos já estão sendo usados em operações que envolvem governos, vigilância de dissidentes, influência política e desenvolvimento de outras IAs.
Em um relatório divulgado em setembro de 2026, a empresa detalhou casos envolvendo atores ligados a países como Irã, China, Malásia e Mali. As revelações aparecem em um momento delicado para a companhia, que também enfrenta questionamentos sobre os riscos associados ao desenvolvimento de sistemas de IA cada vez mais avançados.
Anthropic diz ter bloqueado operações de vigilância

Segundo a Anthropic, seus sistemas identificaram e bloquearam diferentes tentativas de utilizar o Claude em operações de vigilância.
Algumas delas teriam como alvo comunidades historicamente perseguidas por determinados governos. A lista inclui ativistas pró-democracia de Hong Kong, comunidades tibetanas, praticantes do Falun Gong e opositores iranianos que vivem no exterior.
Em um dos casos descritos pela empresa, atores iranianos teriam desenvolvido um método para identificar pessoas por meio de suas contas em redes sociais.
Outro episódio envolveu um prestador de serviços que trabalhava para autoridades de segurança nacional do Mali. De acordo com a Anthropic, o Claude teria sido utilizado para auxiliar no desenvolvimento do software necessário para coletar informações de inteligência.
A companhia afirma ainda ter impedido tentativas de usar seus modelos para projetar armas, realizar pesquisas biológicas consideradas preocupantes e desenvolver golpes por meio de aplicativos de relacionamento.
Claude também entrou na disputa entre empresas de IA
As acusações não ficaram restritas a operações de vigilância.
A Anthropic também acusou desenvolvedores chineses de utilizar o Claude de maneira enganosa para gerar respostas e aproveitar essas informações no treinamento de seus próprios modelos.
A técnica é conhecida como destilação. De maneira simplificada, o processo permite que um modelo mais avançado ajude a treinar outro sistema, transferindo parte de seu conhecimento e comportamento.
A empresa citou especificamente as chinesas Moonshot AI e DeepSeek, alegando que seus modelos teriam utilizado secretamente respostas produzidas pelo Claude.
O episódio mostra como a competição pela inteligência artificial está ultrapassando a simples corrida por usuários. Dados de treinamento, capacidade computacional e conhecimento produzido por modelos avançados se transformaram em ativos estratégicos.
Malásia aparece em caso de possível manipulação eleitoral
Outro caso apresentado pela Anthropic envolve a Malásia.
O relatório de inteligência de ameaças da companhia mostrou uma captura de tela de um site chamado Malaysia Pulse, que, segundo a empresa, teria sido criado como parte de uma operação de influência eleitoral.
A plataforma supostamente se apresentava como fornecedora de ferramentas defensivas de inteligência cibernética e combate à desinformação.
As acusações reforçam uma preocupação crescente entre especialistas: ferramentas de IA generativa podem reduzir drasticamente o custo necessário para produzir grandes quantidades de conteúdo político, propaganda ou material destinado a influenciar a opinião pública.
Ex-funcionário alerta para riscos extremos da inteligência artificial
As denúncias aparecem poucos dias depois de Jacob Coxon, ex-pesquisador da Anthropic, deixar a empresa e publicar um alerta sobre os riscos do avanço da inteligência artificial.
Coxon afirmou temer que sistemas extremamente avançados possam representar uma ameaça para a humanidade. Ele também mencionou a OpenAI, criadora do ChatGPT, ao argumentar que a competição entre os principais laboratórios poderia incentivar decisões arriscadas na corrida por modelos mais poderosos.
As declarações rapidamente provocaram reações.
Parker Thayer, pesquisador do think tank conservador Capital Research Center, classificou a publicação como parte de uma campanha de grupos que exagerariam os riscos existenciais da IA para defender uma regulamentação mais rígida.
Elon Musk também demonstrou ceticismo em relação às afirmações do ex-funcionário.
IA está se transformando em uma questão geopolítica

Os episódios descritos pela Anthropic mostram como a inteligência artificial está adquirindo uma dimensão que vai muito além dos chatbots usados no cotidiano.
Modelos como Claude podem auxiliar na programação, análise de informações e produção de conteúdo. As mesmas capacidades, porém, também podem ser exploradas para vigilância, propaganda, espionagem ou desenvolvimento de ferramentas ofensivas.
Isso coloca empresas privadas de tecnologia em uma posição incomum. Além de desenvolver os modelos, elas precisam decidir quem pode utilizá-los, quais atividades devem ser bloqueadas e como responder quando governos ou organizações tentam contornar essas restrições.
A corrida pela IA, portanto, começa a se misturar cada vez mais com disputas entre países. E a questão deixa de ser apenas quem terá o modelo mais avançado: passa também por quem conseguirá controlar como essa tecnologia será utilizada.
[ Fonte: MDZ Online ]