Durante quase um século, arqueólogos examinaram um dos lugares mais misteriosos do planeta, utilizando fotografias aéreas, expedições e equipamentos cada vez mais modernos. Mesmo assim, uma parte importante de sua história continuava escondida à vista de todos. Agora, a inteligência artificial está ajudando a revelar desenhos que permaneceram desconhecidos por aproximadamente dois mil anos. E algumas das figuras encontradas podem transformar nossa compreensão sobre os povos que habitaram aquela região.
Inteligência artificial encontra centenas de figuras desconhecidas nas Linhas de Nazca
As famosas Linhas de Nazca, localizadas no deserto do Peru, são conhecidas por seus enormes desenhos feitos diretamente sobre o solo.
Criadas há aproximadamente 2.000 anos, essas representações incluem animais, figuras humanas e formas geométricas que continuam despertando perguntas sobre seu significado.
Apesar de décadas de investigações, muitos geoglifos permaneceram desconhecidos devido ao tamanho reduzido, à erosão e à dificuldade de identificar seus contornos.
Foi nesse cenário que pesquisadores da Universidade de Yamagata, no Japão, começaram a utilizar inteligência artificial para analisar imagens de alta resolução.
O projeto, desenvolvido em colaboração com a IBM, empregou algoritmos de aprendizado profundo capazes de reconhecer pequenas diferenças na superfície do terreno.
Essas variações podem indicar desenhos antigos parcialmente apagados pela passagem do tempo.
Em uma pesquisa publicada em 2024 na revista científica PNAS, os especialistas confirmaram 303 novos geoglifos figurativos em apenas seis meses de trabalho de campo.
Segundo a equipe, a tecnologia acelerou em aproximadamente 16 vezes o ritmo das descobertas em comparação com investigações anteriores.
Uma orca com uma faca e figuras humanas revelam novos detalhes dos antigos rituais
Os resultados não chamaram atenção apenas pela quantidade de desenhos encontrados.
As novas figuras também ampliaram o conhecimento sobre os temas representados pelos antigos habitantes de Nazca.
Entre os geoglifos identificados aparecem aves, felinos, camelídeos e personagens humanoides.
Um dos exemplos mais impressionantes representa uma orca de aproximadamente 22 metros segurando uma faca.
Imagens semelhantes já haviam sido encontradas em objetos de cerâmica associados à cultura Nazca.
Essa correspondência sugere uma possível relação entre os desenhos espalhados pelo deserto e as práticas religiosas da população.
Outras representações mostram personagens carregando cabeças humanas, possivelmente relacionadas a cerimônias rituais e práticas de sacrifício.
Embora essas interpretações dependam do contexto arqueológico, os achados reforçam a ideia de que as imagens possuíam significados culturais muito mais complexos do que simples manifestações artísticas.
Os desenhos podem ter desempenhado funções diferentes no deserto
A ampliação do catálogo também permitiu aos pesquisadores identificar padrões na distribuição dos geoglifos.
As figuras maiores, frequentemente criadas com linhas extensas e representações de animais selvagens, podem ter participado de cerimônias coletivas.
Já os desenhos menores, produzidos pela retirada de pedras da superfície, aparecem frequentemente próximos a antigos caminhos.
Essa localização sugere que poderiam ser observados por viajantes ou pequenos grupos durante seus deslocamentos.
Em outras palavras, o deserto talvez funcionasse como uma espécie de paisagem ritual, na qual diferentes imagens eram utilizadas conforme o lugar e a atividade realizada.
A hipótese ajuda a explicar por que alguns geoglifos são gigantescos, enquanto outros possuem dimensões muito mais discretas.
Novas descobertas mostram que o mistério de Nazca está longe de terminar
Em julho de 2025, durante a Exposição Universal de Osaka, os pesquisadores anunciaram outros 248 geoglifos, elevando para 893 o total de figuras reconhecíveis confirmadas na região, segundo a contagem apresentada pela equipe.
O potencial de novas descobertas continua significativo.
Na pesquisa de 2024, a inteligência artificial havia identificado 1.309 locais promissores.
Os arqueólogos inspecionaram 341 deles naquela etapa, deixando outros 968 candidatos para avaliações posteriores.
Com base nos resultados, estimaram que ainda poderiam existir pelo menos 248 figuras desconhecidas, previsão acompanhada pelos novos achados anunciados em 2025.
Entretanto, a tecnologia não consegue confirmar sozinha a existência de um geoglifo.
Cada indicação precisa passar por análise especializada e verificação presencial para descartar formações naturais ou interpretações equivocadas.
A grande descoberta é que centenas de desenhos permaneceram ocultos mesmo após quase um século de estudos, e a inteligência artificial conseguiu indicar onde procurá-los.
O caso demonstra como ferramentas modernas podem ampliar o trabalho dos arqueólogos e revelar informações inesperadas sobre civilizações antigas.