Quando pensamos em uma era do gelo, imaginamos um planeta coberto por geleiras gigantescas, temperaturas extremas e paisagens completamente congeladas. Mas essas transformações não acontecem de uma hora para outra. Elas podem começar discretamente, com pequenas expansões de gelo que se acumulam durante milhares de anos. Agora, pesquisadores descobriram indícios de que um desses processos já estava em andamento no Ártico canadense, até que uma mudança climática alterou sua trajetória.
Uma geleira no Canadá guarda pistas sobre o futuro climático da Terra
A descoberta foi apresentada em um estudo liderado por cientistas da Universidade Columbia, publicado na revista científica Science.
Os pesquisadores investigaram a evolução da calota de gelo de Barnes, localizada na ilha de Baffin, no Ártico canadense.
Essa enorme formação representa um dos últimos fragmentos da antiga camada de gelo Laurentide, que cobriu extensas regiões da América do Norte durante a última glaciação.
Há aproximadamente 20 mil anos, aquela gigantesca massa congelada alcançava mais de três quilômetros de espessura em determinadas áreas.
Com o aquecimento que marcou o fim do último período glacial, a maior parte desse gelo desapareceu.
Barnes, entretanto, resistiu.
Sua permanência permitiu que os cientistas investigassem como o gelo respondeu às mudanças naturais do clima durante os últimos quatro milênios.
E os resultados revelaram uma história inesperada.
O gelo começou a crescer novamente há cerca de 2 mil anos
Para reconstruir o passado da região, os pesquisadores analisaram restos de vegetação preservados sob o gelo durante seus períodos de expansão.
Utilizando técnicas de datação por carbono-14 e medições de berílio-10 em rochas, conseguiram identificar quando determinadas superfícies foram cobertas ou expostas pela geleira.
Os resultados indicaram que Barnes atingiu uma de suas menores extensões há aproximadamente 3 mil anos.
Entretanto, cerca de mil anos depois, começou a crescer novamente.
Esse avanço coincidiu com mudanças naturais na órbita terrestre, que contribuíram para reduzir a intensidade do aquecimento durante os verões do Hemisfério Norte.
O mecanismo é relativamente simples.
Quando as temperaturas estivais são suficientemente baixas, parte da neve acumulada durante o inverno consegue sobreviver ao derretimento.
Com o passar dos anos, essa neve se compacta e se transforma em gelo, permitindo que as geleiras aumentem gradualmente de tamanho.
Segundo a interpretação dos pesquisadores, a expansão de Barnes poderia representar um estágio inicial de um processo de glaciação mais amplo, que levaria milhares de anos para se desenvolver.
Mas esse crescimento não continuou indefinidamente.
Has global warming stopped/halted the next ice age? Columbia U: "Two thousand years ago, the Arctic remnants of a once-vast ice sheet started to grow again. It was the beginning of a new glacial period, more conversationally known as the next ice age—but by the 1960s, summer… pic.twitter.com/9LcqtEzRQZ
— Wrath Of Gnon (@wrathofgnon) October 23, 2026
O aquecimento global interrompeu um processo que avançava havia séculos
Durante aproximadamente dois milênios, a calota de Barnes apresentou uma tendência de expansão.
A situação começou a mudar por volta de 1960.
A partir desse período, o derretimento durante os meses mais quentes passou a superar a quantidade de gelo acumulada no inverno.
Os pesquisadores relacionam essa inversão ao aumento das temperaturas provocado pelas emissões humanas de gases de efeito estufa.
Na prática, um processo natural que avançava lentamente durante séculos começou a retroceder em poucas décadas.
A interpretação dos autores é que o aquecimento contemporâneo interrompeu uma possível etapa inicial de expansão glacial antes que ela pudesse evoluir para mudanças de escala continental.
Isso não significa que a Terra estivesse prestes a entrar imediatamente em uma nova era do gelo.
O crescimento de uma calota regional não equivale, por si só, ao início confirmado de uma glaciação global.
Entretanto, o resultado mostra como a atividade humana pode interferir em processos climáticos que normalmente evoluem durante milhares de anos.
Afinal, quando a próxima era do gelo deveria começar?
A Terra passou por diferentes períodos glaciais ao longo de sua história, influenciados por fatores como as variações de sua órbita, a inclinação do eixo terrestre e as concentrações de gases de efeito estufa.
Essas mudanças alteram a distribuição da energia solar recebida pelo planeta e podem favorecer a expansão ou o recuo das grandes massas de gelo.
Entretanto, não existe consenso científico sobre a data exata do próximo período glacial.
Alguns modelos indicam que, em condições naturais, ele poderia começar dentro de dezenas de milhares de anos.
As concentrações de dióxido de carbono produzidas pelas atividades humanas, porém, podem atrasar significativamente esse processo.
Enquanto isso, a própria calota de Barnes enfrenta um futuro incerto.
Se as condições atuais de aquecimento persistirem, ela poderá desaparecer ao longo dos próximos séculos.
O estudo não demonstra que uma nova era do gelo já estivesse inevitavelmente estabelecida. Ele apresenta evidências de que uma expansão glacial regional, compatível com uma possível fase inicial desse processo, foi interrompida pelo aquecimento recente.
A descoberta revela algo ainda mais impressionante: a influência humana sobre o clima já é suficientemente intensa para alterar tendências naturais que se desenvolvem ao longo de milênios.