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Ciência

Arqueólogos encontram uma cidade da Rota da Seda submersa sob um lago no Quirguistão — e as descobertas são impressionantes

Uma expedição arqueológica subaquática revelou os restos de uma antiga cidade da Rota da Seda no fundo do lago Issyk-Kul, no Quirguistão. Entre as descobertas estão edifícios medievais, cerâmicas, estruturas religiosas e até um cemitério islâmico. O assentamento teria sido engolido pelas águas após um poderoso terremoto no século XV.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Sob as águas geladas do lago Issyk-Kul, no nordeste do Quirguistão, repousam os vestígios de uma cidade que prosperou durante a era da Rota da Seda. Uma recente investigação subaquática confirmou que o local preserva construções, artefatos e tumbas medievais que contam a história de um importante centro comercial destruído por um terremoto há mais de 600 anos. As descobertas estão ajudando pesquisadores a reconstruir a vida cultural e religiosa da Ásia Central medieval.

Uma cidade engolida pelo lago após um terremoto

O sítio arqueológico corresponde a uma antiga cidade ou um grande centro comercial situado em um dos trechos mais movimentados da Rota da Seda. De acordo com Valery Kolchenko, pesquisador do Instituto de História, Arqueologia e Etnologia da Academia Nacional de Ciências do Quirguistão, o assentamento foi submerso no início do século XV, quando um terremoto devastador fez toda a área afundar sob as águas do lago Issyk-Kul.

Kolchenko compara o evento à tragédia de Pompeia — ainda que, no caso quirguiz, o local já estivesse parcialmente abandonado. O impacto, porém, transformou a dinâmica demográfica da região, que acabou ocupada por populações nômades.

As primeiras descobertas subaquáticas

A equipe investigou quatro áreas distintas do lago. No primeiro ponto, encontrou edifícios de tijolos, incluindo uma pedra de moinho que fazia parte de um par usado para triturar grãos. Também foram identificados ornamentos arquitetônicos que podem indicar um edifício social ou religioso, possivelmente uma mesquita, um banho público ou uma madrasa.

Em uma segunda área, os arqueólogos localizaram um cemitério islâmico dos séculos XIII e XIV. Os esqueletos estavam posicionados voltados para o norte, direção de Meca — prática comum nas tradições funerárias muçulmanas.

A chegada e a expansão do Islã na região

Os pesquisadores destacaram que, no século X, a região pertencia ao Estado Kara-Khanid, uma dinastia túrquica que governou partes da Rota da Seda e abrigava uma diversidade religiosa que incluía o tengrianismo, o budismo e o cristianismo nestoriano.

Segundo Maksim Menshikov, da Academia Russa de Ciências, o Islã era adotado principalmente pela elite e por comerciantes até o século XIII, quando finalmente se tornou generalizado entre a população. O cemitério encontrado provavelmente remonta a essa fase de expansão islâmica.

Cerâmicas, túmulos antigos e um misterioso vaso profundo

Em um terceiro ponto da expedição, foram encontrados três sepultamentos mais antigos, além de cerâmicas medievais e um grande vaso enterrado profundamente no leito do lago. A equipe não conseguiu removê-lo desta vez e pretende tentar novamente na próxima temporada de pesquisas.

Na última área investigada, os arqueólogos identificaram os restos de outras estruturas e realizaram perfurações subaquáticas para coletar amostras geológicas que ajudarão a reconstruir as diferentes fases de ocupação e transformação do assentamento.

O “Pompeia” ou a “Atlântida” da Ásia Central

Embora Kolchenko compare o episódio à destruição de Pompeia, as características do sítio — submerso, silencioso e preservado — evocam também a ideia de uma “Atlântida da Ásia Central”.

As escavações ainda estão no início, mas já revelam a dimensão cultural, religiosa e comercial desse antigo centro medieval. Cada nova descoberta amplia o entendimento sobre como viviam os povos da Rota da Seda e sobre como eventos geológicos extremos moldaram a história da região.

Nas profundezas do Issyk-Kul, a arqueologia acaba de abrir uma janela para um passado que, até recentemente, parecia perdido para sempre.

 

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