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Ciência

Astrônomos encontraram 84 objetos escondidos em galáxias próximas e algo neles não faz sentido

Eles estavam registrados em observações astronômicas há anos, mas passaram despercebidos. Agora, 84 fontes misteriosas revelam um comportamento que os cientistas ainda tentam explicar.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O Universo pode esconder objetos extremamente energéticos bem diante dos nossos telescópios. Astrônomos descobriram isso ao revisitar observações feitas pelo Chandra, da NASA, e encontrar dezenas de fontes que praticamente desapareciam quando analisadas de determinada maneira. Elas estavam espalhadas por galáxias relativamente próximas e apresentavam uma combinação de radiação tão incomum que os pesquisadores acabaram criando uma nova categoria para descrevê-las. E ainda não existe uma explicação definitiva sobre sua verdadeira natureza.

O Chandra encontrou algo que não se comportava como deveria

A descoberta começou quando pesquisadores analisaram dados disponíveis no arquivo do Observatório de Raios X Chandra, da NASA. Em seis galáxias, apareceram 84 fontes com características surpreendentemente semelhantes.

Elas foram identificadas na galáxia de Andrômeda, também chamada M31, na galáxia espiral M101 e em outras quatro galáxias elípticas. Entre sete e 21 fontes foram encontradas em cada uma delas.

O comportamento desses objetos chamou atenção principalmente pela energia que emitem.

Eles aparecem nas imagens obtidas pelo Chandra nas menores energias de raios X, mas praticamente desaparecem quando os astrônomos procuram emissões mais energéticas. Por isso, os pesquisadores passaram a chamá-los de fontes hipermacias de raios X, ou hypersoft X-ray sources.

O termo “macio”, nesse contexto, refere-se justamente aos raios X de menor energia.

A surpresa aumenta porque aquilo que o Chandra consegue detectar provavelmente representa apenas uma pequena parte da energia emitida. As características observadas indicam que essas fontes também produzem enormes quantidades de radiação ultravioleta extrema.

E é justamente aí que começa o mistério.

Eles podem ser muito mais brilhantes do que parecem

Astrônomos encontraram 84 objetos escondidos em galáxias próximas e algo neles não faz sentido
© Discover Galactic – YouTube

A radiação ultravioleta extrema é particularmente difícil de observar porque o gás existente entre as estrelas consegue absorvê-la. Isso significa que boa parte da energia produzida por essas fontes simplesmente não chega aos instrumentos.

O Chandra acaba registrando apenas uma espécie de assinatura restante: os raios X de baixa energia que conseguem escapar.

Apesar disso, alguns desses objetos podem produzir centenas de milhares ou até milhões de vezes mais energia que o Sol. O fato de fontes tão poderosas terem permanecido escondidas durante tanto tempo surpreendeu os próprios pesquisadores.

Mas havia uma pergunta inevitável: poderiam ser apenas erros nos detectores?

As evidências indicam que não.

Algumas fontes reapareceram exatamente nas mesmas posições em observações realizadas em momentos diferentes. Além disso, parte delas também foi registrada pelo observatório espacial XMM-Newton, reforçando a hipótese de que representam fenômenos astronômicos reais.

A localização também oferece pistas intrigantes.

Na M101, algumas fontes acompanham regiões associadas aos braços espirais e à formação de estrelas. Porém, objetos semelhantes também foram encontrados em galáxias elípticas dominadas por populações estelares mais antigas.

Isso sugere que talvez não exista uma única explicação para todos os 84 casos.

Buracos negros, estrelas de nêutrons ou algo diferente?

Astrônomos encontraram 84 objetos escondidos em galáxias próximas e algo neles não faz sentido
© NASA

Uma possibilidade é que algumas dessas fontes estejam relacionadas a sistemas binários envolvendo objetos compactos.

Buracos negros, estrelas de nêutrons e anãs brancas podem formar sistemas com estrelas companheiras. Graças à intensa gravidade, esses objetos conseguem retirar matéria da estrela próxima, criando ambientes extremamente energéticos.

Normalmente, sistemas desse tipo produzem raios X relativamente energéticos. As novas fontes, entretanto, apresentam justamente o comportamento contrário: predominam emissões de baixíssima energia acompanhadas por intensa radiação ultravioleta.

É uma combinação incomum.

Por isso, os pesquisadores ainda investigam se todos pertencem ao mesmo tipo de sistema ou se diferentes fenômenos astronômicos estão escondidos dentro da nova categoria.

Resolver essa questão pode ter consequências que vão muito além da classificação de 84 pontos luminosos.

Alguns deles podem estar ligados a um dos eventos mais importantes utilizados pela astronomia para compreender o Universo.

O mistério pode ajudar a explicar explosões cósmicas gigantescas

Uma das possibilidades mais interessantes envolve as supernovas do tipo Ia.

Essas explosões são fundamentais para a astronomia porque sua luminosidade permite estimar enormes distâncias cósmicas. Elas tiveram inclusive papel importante nas observações que levaram à descoberta da expansão acelerada do Universo.

Uma das explicações para sua origem envolve anãs brancas que acumulam matéria de estrelas companheiras até atingir condições capazes de desencadear uma explosão.

Algumas das novas fontes hipermacias podem representar sistemas relacionados a esse processo, oferecendo aos astrônomos uma oportunidade de estudar fases anteriores à explosão.

Há ainda outra possibilidade.

A intensa emissão ultravioleta desses objetos poderia contribuir para explicar como determinados gases existentes entre as estrelas permanecem ionizados. Assim, uma população astronômica que praticamente não aparecia nos levantamentos tradicionais poderia desempenhar um papel significativo na evolução das próprias galáxias.

Por enquanto, porém, permanecem mais perguntas do que respostas.

Os 84 objetos mostram que até galáxias relativamente próximas ainda podem esconder populações inteiras de fontes energéticas simplesmente porque nossos instrumentos não estão olhando para a região certa do espectro.

E talvez essa seja a parte mais intrigante da descoberta: se dezenas desses objetos permaneceram escondidos durante anos em dados que os astrônomos já possuíam, ainda não sabemos quantos outros continuam invisíveis esperando apenas a maneira certa de serem procurados.

[Fonte: Perfil]

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