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Tecnologia

Brasil aposta em tecnologia forense para rastrear ouro ilegal e proteger a Amazônia

Um laboratório da Polícia Federal brasileira está usando técnicas avançadas de ciência forense para descobrir a origem do ouro e combater a mineração ilegal que ameaça a Amazônia.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A mineração ilegal continua sendo uma das maiores ameaças à Amazônia, impulsionando o desmatamento, contaminando rios com mercúrio e invadindo terras indígenas. Para enfrentar esse problema, o Brasil passou a recorrer a uma ferramenta pouco conhecida, mas extremamente sofisticada: a ciência forense. Um laboratório especializado consegue identificar a origem do ouro apreendido com uma precisão comparável à análise de DNA, fortalecendo investigações criminais e dificultando a lavagem de minério extraído ilegalmente.

Cada fragmento de ouro guarda uma assinatura única

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© Unsplash

No Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, funciona o chamado “laboratório do ouro”, criado pela Polícia Federal para identificar a procedência de amostras do metal precioso.

Embora pequenos flocos de ouro pareçam idênticos a olho nu, eles carregam uma espécie de impressão digital química.

Durante sua formação natural, o ouro incorpora traços de minerais presentes no ambiente ao redor, como prata, cobre e outros elementos químicos.

Essa combinação torna cada depósito praticamente único.

Ao comparar uma amostra apreendida com o banco de dados do laboratório, os peritos conseguem verificar se ela realmente veio da área declarada por seu proprietário ou se foi retirada ilegalmente de unidades de conservação ou terras indígenas.

Segundo Gustavo Geiser, perito criminal da Polícia Federal, o método começou a ser desenvolvido em 2019 em parceria com universidades brasileiras.

Equipamentos de alta precisão revelam a origem do metal

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© Unsplash

Para descobrir a procedência do ouro, os pesquisadores utilizam equipamentos normalmente encontrados em laboratórios científicos de ponta.

Entre eles estão espectrometria de fluorescência por raios X, microscopia eletrônica de varredura e espectrometria de massas com ablação a laser.

Essas tecnologias permitem analisar a composição química das amostras em detalhes extremamente precisos.

Segundo Geiser, à medida que as investigações evoluíram, os exames também se tornaram mais sofisticados.

No entanto, a pergunta permaneceu sempre a mesma: de onde veio esse ouro?

Quando os resultados indicam que o metal foi retirado ilegalmente de uma área protegida, a perícia fornece evidências que ajudam a Polícia Federal a fortalecer investigações e subsidiar processos criminais.

A fraude transforma ouro ilegal em produto aparentemente regular

O desafio vai muito além da extração clandestina.

Organizações criminosas utilizam diferentes esquemas para inserir ouro ilegal no mercado formal.

Um dos mecanismos identificados consiste no uso de permissões minerárias legítimas para dar aparência legal a ouro retirado de áreas onde a mineração é proibida.

Segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), há indícios de que algumas autorizações concedidas a pequenos mineradores estejam sendo utilizadas justamente para esse tipo de fraude.

Em relatório divulgado em maio, o Greenpeace descreveu um esquema conhecido como “mina fantasma”.

No papel, toneladas de ouro seriam extraídas de minas legalizadas.

Entretanto, imagens de satélite mostram que esses locais permanecem praticamente sem atividade.

Ao mesmo tempo, áreas indígenas vizinhas apresentam intensa movimentação de máquinas e garimpos ilegais.

Esse mecanismo permite “lavar” ouro extraído ilegalmente antes que ele chegue ao mercado.

Diante desse cenário, um tribunal federal no estado do Pará determinou que órgãos como o Banco Central e a Agência Nacional de Mineração implementem sistemas eficazes de rastreabilidade para acompanhar todo o percurso do ouro, desde a extração até sua comercialização.

A mineração ilegal deixa marcas profundas na Amazônia

Além dos impactos econômicos, o garimpo ilegal produz danos ambientais considerados extremamente difíceis de reverter.

Segundo dados da plataforma Amazon Mining Watch, aproximadamente 496 mil hectares de floresta foram desmatados para atividades de mineração desde 2023, dos quais cerca de 223 mil hectares ficam na Amazônia brasileira.

Levantamentos do MapBiomas indicam que mais de 90% da mineração brasileira ocorre na Amazônia e que quase 40% dessa atividade acontece em áreas protegidas, caracterizando exploração ilegal.

Um dos maiores problemas é o uso do mercúrio para separar o ouro dos sedimentos.

Depois do processo de extração, o metal tóxico contamina rios, peixes e toda a cadeia alimentar das populações locais.

Estudo realizado em 2023 pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostrou que 21,3% dos peixes comercializados em mercados amazônicos apresentavam concentrações de mercúrio acima dos limites considerados seguros pela Organização Mundial da Saúde.

Em algumas comunidades, crianças entre dois e quatro anos chegaram a consumir mercúrio em níveis até 31 vezes superiores ao máximo recomendado.

Cooperação internacional amplia o combate ao garimpo ilegal

As investigações também revelaram que grupos criminosos passaram a utilizar países vizinhos, como Venezuela, Suriname e Guiana Francesa, para lavar ouro extraído ilegalmente.

Por isso, o banco de dados do laboratório brasileiro já começou a incorporar amostras provenientes de outros países da Amazônia.

Esse avanço fortalece a cooperação internacional promovida pelo Centro Internacional de Cooperação Policial Amazônica, sediado em Manaus.

Paralelamente, o governo brasileiro colocou em consulta pública um plano para eliminar gradualmente o uso de mercúrio na mineração de ouro, em cumprimento aos compromissos assumidos pelo país no âmbito da Convenção de Minamata das Nações Unidas.

Especialistas acreditam que a redução do uso desse metal tóxico não apenas diminuirá a contaminação ambiental, como também facilitará o trabalho dos peritos.

Segundo Gustavo Geiser, a tecnologia desenvolvida no laboratório representa uma peça fundamental para enfraquecer organizações criminosas, proteger a Amazônia e oferecer maior segurança às cadeias internacionais de comercialização do ouro, garantindo que o metal negociado tenha origem comprovadamente legal.

[Fonte: Audacy]

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