Celulares proibidos, menos telas e distância da inteligência artificial parecem ter se transformado em receitas quase automáticas para melhorar a educação. Mas os novos dados do PISA 2025 tornam essa discussão bem mais complicada. Alguns dos sistemas educacionais com melhores resultados do mundo também estão entre aqueles que utilizam tecnologia e IA com frequência. O segredo, aparentemente, não está simplesmente em usar ou evitar essas ferramentas, mas no que os estudantes aprendem a fazer com elas.
Os melhores resultados escondem uma surpresa
O PISA 2025 trouxe notícias preocupantes. Nos países da OCDE, o desempenho médio em leitura e matemática caiu aos níveis mais baixos já registrados pela avaliação. Um em cada cinco jovens de 15 anos apresenta baixo desempenho simultaneamente em ciências, matemática e leitura.
Diante desse cenário, as telas rapidamente aparecem entre os suspeitos.
Mas observar os países que estão no topo do ranking produz uma conclusão menos óbvia.
Singapura, Nova Zelândia e Taiwan, por exemplo, apresentam um tempo de utilização de dispositivos digitais pelos estudantes superior à média da OCDE, de aproximadamente 1,7 hora. O Japão fica próximo dessa média.
A inteligência artificial apresenta um padrão igualmente interessante.
Em Singapura, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Macau e Estônia, a proporção de estudantes que utilizam IA semanalmente para aprender supera a média internacional analisada, de aproximadamente 46%.
Isso não significa que colocar mais computadores dentro das escolas automaticamente produza estudantes melhores.
Na realidade, os dados apontam para algo bem mais interessante.
Singapura mostra por que simplesmente contar horas de tela pode ser um erro

Singapura é um dos exemplos mais reveladores.
O país aparece novamente entre os sistemas educacionais de maior desempenho e possui escolas altamente digitalizadas. Segundo os dados do PISA citados pela Cadena SER, cerca de 66% dos estudantes usam inteligência artificial para aprender.
O número realmente importante, porém, pode ser outro.
Aproximadamente 81% dos alunos de Singapura aprendem na escola a avaliar as informações produzidas pela IA. Os dados oficiais da OCDE apontam 81% para esse indicador, enquanto a média da organização fica em 62,6%.
Em outras palavras, os estudantes não estão simplesmente recebendo uma ferramenta capaz de entregar respostas instantâneas.
Eles também aprendem a desconfiar dela.
Precisam avaliar resultados, identificar informações problemáticas e compreender que uma resposta convincente não necessariamente é correta.
Essa diferença ajuda a entender uma aparente contradição encontrada pelo próprio PISA.
Os estudantes que disseram não utilizar IA para tarefas de redação apresentaram, em média, desempenho superior aos que recorriam à tecnologia. Entretanto, entre os usuários frequentes, aqueles ensinados a avaliar criticamente as respostas da IA tiveram resultados melhores do que os estudantes que utilizavam essas ferramentas sem essa orientação.
A Estônia decidiu que ignorar a IA não é mais uma opção
Na Europa, um dos exemplos mais interessantes vem da Estônia.
O país aparece entre os sistemas de melhor desempenho do continente e há anos aposta fortemente na digitalização da educação.
Stefano Braghiroli, professor da Universidade de Tartu ouvido pela Cadena SER, explica que a educação ocupou um papel estratégico na reconstrução da identidade estoniana depois da independência da União Soviética.
Agora, o país tenta dar aquilo que chama de um novo “salto da IA”.
A lógica é relativamente simples: afastar completamente os estudantes da inteligência artificial poderia deixá-los despreparados para uma tecnologia que provavelmente encontrarão no mercado de trabalho e na vida cotidiana.
Mas isso não significa entregar todas as tarefas às máquinas.
A ideia é ensinar o estudante a utilizar IA como instrumento para atingir objetivos, e não como substituta do próprio raciocínio.
Essa distinção também aparece nas recomendações recentes da OCDE.
Seu Digital Education Outlook 2026 alerta que ferramentas generativas podem melhorar imediatamente a qualidade de uma tarefa sem necessariamente produzir aprendizado real. Quando a IA simplesmente assume o esforço cognitivo, o aluno pode entregar algo melhor sem realmente desenvolver novas habilidades.
Então as telas fazem bem ou mal para os estudantes?

A resposta desconfortável é: depende.
O próprio PISA mostra que o uso excessivo de dispositivos está relacionado a resultados piores, especialmente quando eles são utilizados para entretenimento durante as aulas.
Mais de um em cada quatro estudantes afirmou que colegas se distraem com dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de ciências. Essas distrações estão associadas a menor desempenho e menor envolvimento com a escola.
Por outro lado, a OCDE também observa que o uso moderado de tecnologia para aprender pode estar associado a resultados melhores do que tanto o uso excessivo quanto a ausência completa dessas ferramentas.
É justamente aí que os países de melhor desempenho tornam o debate interessante.
Eles sugerem que perguntar apenas “quantas horas de tela?” talvez seja insuficiente.
É preciso perguntar o que o estudante está fazendo durante essas horas.
A habilidade mais importante da era da IA pode ser justamente duvidar dela
Existe ainda uma ironia nessa história.
Quanto mais poderosa fica a inteligência artificial, mais importantes parecem se tornar habilidades extremamente humanas e tradicionais: ler textos longos, interpretar argumentos, comparar fontes, identificar evidências e distinguir fatos de opiniões.
Andreas Schleicher, diretor de Educação e Competências da OCDE, destaca que o declínio da leitura ocorre justamente em capacidades críticas para um mundo repleto de conteúdos produzidos por IA.
Por isso, a conclusão dos novos dados do PISA está longe de ser “mais tecnologia é melhor”.
Também não é simplesmente “telas fazem mal”.
Os países que conseguem combinar bons resultados com forte digitalização indicam uma terceira possibilidade: tecnologia acompanhada de propósito pedagógico, limites e pensamento crítico.
Talvez a discussão sobre IA nas escolas esteja começando pelo lugar errado.
O grande desafio pode não ser decidir se os estudantes terão acesso à inteligência artificial.
Eles provavelmente terão.
A questão realmente importante será descobrir se saberão o que fazer quando ela lhes entregar uma resposta aparentemente perfeita.
[Fonte: ser]