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Ciência

Calor extremo já está invadindo a primavera e o outono em metade do planeta

Um estudo baseado em 45 anos de dados climáticos mostra que temperaturas perigosamente altas estão deixando de ser exclusividade do verão e avançando sobre outras estações.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O verão continua sendo sinônimo de calor, mas os limites tradicionais das estações estão começando a mudar. Uma nova pesquisa mostra que episódios de temperaturas extremas estão se tornando mais frequentes também nos meses anteriores e posteriores ao período mais quente do ano.

Pesquisadores analisaram 45 anos de dados climáticos globais e descobriram que, desde a década de 1980, a temporada de calor extremo avançou sobre a primavera e o outono em aproximadamente metade das áreas terrestres do planeta.

Publicado na revista AGU Advances, o estudo sugere que o problema não está apenas no aumento das temperaturas. O calendário do calor também está mudando.

O verão está ficando mais longo?

Para investigar essa transformação, os cientistas decidiram olhar além das temperaturas médias.

Primeiro, eles identificaram episódios de calor extremo registrados ao redor do mundo entre 1980 e 1989. Esse período serviu como referência.

Depois, os resultados foram comparados com a década de 2015 a 2024.

A diferença foi significativa.

A temporada de calor extremo se expandiu em pouco mais da metade das áreas terrestres do planeta quando os pesquisadores consideraram o calor seco. Para o calor úmido, a expansão ocorreu em pouco menos da metade.

Isso significa que temperaturas potencialmente perigosas estão aparecendo com maior frequência fora do período no qual normalmente seriam esperadas.

Mas existe outro detalhe curioso: essa expansão não acontece da mesma maneira em todos os lugares.

Em alguns países, o calor invade o outono

Os pesquisadores encontraram diferenças claras entre as regiões.

No oeste dos Estados Unidos, leste da China, norte da África e leste da Europa, episódios de calor extremo passaram a ocorrer com maior frequência nos dois meses posteriores ao verão.

Nessas regiões, portanto, o problema aparece principalmente como um prolongamento da temporada quente em direção ao outono.

Em outras partes do planeta acontece praticamente o contrário.

Europa Ocidental, sul da África e noroeste da Índia registraram uma expansão mais pronunciada nos dois meses anteriores ao verão.

Nesses locais, o calor extremo está chegando mais cedo, avançando sobre a primavera.

Para Catherine Ivanovich, cientista climática do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA e principal autora do estudo, essas diferenças mostram que a temporada de calor extremo está assumindo características distintas dependendo da região.

Cientistas ainda tentam entender essa diferença

O estudo não conseguiu determinar exatamente por que o calor extremo está avançando mais sobre a primavera em algumas regiões e sobre o outono em outras.

Eventos excepcionalmente quentes fora da estação tradicional ainda são relativamente raros, o que dificulta identificar estatisticamente os mecanismos responsáveis por essas diferenças.

Os pesquisadores também utilizaram simulações climáticas para verificar se o aquecimento geral do planeta seria suficiente para reproduzir o fenômeno.

Os modelos conseguiram explicar mudanças durante o período central da temporada de calor, mas não reproduziram completamente a assimetria observada nas extremidades.

Isso indica que outros processos climáticos regionais podem estar influenciando quando esses eventos aparecem.

Ivanovich ressalta que as observações, sozinhas, não permitem determinar exatamente qual parcela do fenômeno é provocada pelas mudanças climáticas. Ainda assim, a pesquisadora afirma que elas são certamente o principal componente da história.

Calor fora de época pode ser ainda mais perigoso

A mudança no calendário não é apenas uma curiosidade climática.

Temperaturas extremas podem ser particularmente perigosas quando aparecem antes que o corpo tenha tido tempo para se adaptar ao calor.

Uma onda de calor intensa no começo da primavera, por exemplo, pode atingir uma população ainda pouco aclimatada às altas temperaturas.

No fim do verão, ocorre outro problema.

Depois de meses enfrentando calor intenso, temperaturas extremas prolongadas durante o outono podem aumentar ainda mais o desgaste físico, principalmente entre idosos, crianças e pessoas com determinadas condições de saúde.

As cidades também podem ser pegas desprevenidas

Grande parte da infraestrutura de proteção contra o calor ainda funciona seguindo um calendário tradicional.

Centros de resfriamento, campanhas de prevenção, sistemas de alerta e planos emergenciais normalmente são preparados para os meses de verão.

Se ondas de calor começarem a ocorrer regularmente antes ou depois desse período, cidades podem ser surpreendidas justamente quando seus sistemas de proteção ainda não estão totalmente preparados.

Agricultura, consumo de energia e ecossistemas também podem sentir os efeitos de uma temporada quente mais extensa.

A pesquisa mostra que o aquecimento global não está apenas elevando os termômetros.

Ele também pode estar modificando quando o calor perigoso começa e termina.

Se essa tendência continuar, falar em “temporada de calor” poderá fazer cada vez menos sentido. Em muitas regiões, as temperaturas extremas já começaram a ultrapassar as fronteiras do verão.

 

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