A Europa enfrenta uma das mais intensas ondas de calor já registradas, e seus efeitos vão muito além dos recordes de temperatura. O aumento das mortes relacionadas ao calor reacendeu uma discussão que, até pouco tempo atrás, ocupava um espaço secundário nas políticas públicas do continente: a necessidade de ampliar o acesso ao ar-condicionado. Em um continente onde grande parte das moradias foi projetada para enfrentar invernos rigorosos, o calor extremo passou a expor limitações estruturais e colocou em lados opostos preocupações com saúde pública e impactos ambientais.
Mais de 1.300 mortes colocam o calor no centro das atenções

Segundo o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, mais de 1.300 mortes adicionais relacionadas ao calor foram registradas na Europa desde 21 de junho. Estima-se que cerca de 150 milhões de pessoas estejam vivendo sob condições de calor extremo em diferentes regiões do continente.
A situação foi especialmente grave na França. Desde 24 de junho, autoridades sanitárias francesas contabilizaram aproximadamente mil mortes acima do esperado, principalmente entre pessoas com mais de 65 anos.
Os números reforçaram o entendimento de que ondas de calor deixaram de ser eventos excepcionais para se tornarem um importante desafio de saúde pública, exigindo respostas que vão além dos tradicionais planos de emergência.
A Europa ainda utiliza pouco ar-condicionado
Enquanto países como Estados Unidos e Japão possuem ar-condicionado em cerca de 90% das residências, a realidade europeia é bastante diferente.
Dados da Agência Internacional de Energia indicam que apenas entre 19% e 20% dos lares europeus contam com esse tipo de sistema de climatização.
A Espanha aparece entre os países mais preparados para enfrentar altas temperaturas, mas grande parte da Europa ainda possui baixa cobertura.
Esse cenário fez com que uma discussão antes vista como técnica passasse a ocupar espaço no debate político. Afinal, ampliar o uso do ar-condicionado pode salvar vidas durante eventos extremos, mas também aumenta o consumo de energia e pode contribuir para as emissões de gases de efeito estufa caso a eletricidade utilizada não venha de fontes limpas.
Casas foram projetadas para enfrentar o frio, não o calor

A baixa presença de aparelhos de ar-condicionado também está ligada às características do parque imobiliário europeu.
Durante décadas, edifícios foram construídos para conservar calor durante o inverno, quando as temperaturas frequentemente ficam abaixo de zero em várias regiões do continente.
Hoje, essa mesma arquitetura dificulta a dissipação do calor durante o verão.
Segundo um relatório publicado em 2020 com apoio do Ministério da Transição Ecológica da França, apenas um quarto das residências francesas possui ar-condicionado.
No Reino Unido, a situação é ainda mais limitada, com cerca de 14% das moradias equipadas com sistemas de climatização.
Especialistas do Centro Científico e Técnico da Construção da França estimam que aproximadamente metade das residências do país não está preparada para enfrentar temperaturas tão elevadas quanto as registradas neste ano.
Essa mudança de cenário também ficou evidente no comportamento da população. Dados do Google Trends mostram que as buscas por instalação de ar-condicionado aumentaram cerca de 130% na França desde o início da onda de calor, tendência observada, em maior ou menor intensidade, em outros países europeus.
Projeções do Boston Consulting Group indicam que o número de aparelhos instalados na União Europeia poderá ultrapassar 275 milhões até 2050, mais que o dobro do registrado em 2019.
O tema entrou definitivamente na disputa política
Na França, onde a eleição presidencial está prevista para 2027, o ar-condicionado passou a simbolizar diferentes visões sobre como enfrentar as mudanças climáticas.
A líder da direita Marine Le Pen voltou a defender um amplo plano nacional para expandir a climatização no país.
Já o líder da esquerda Jean-Luc Mélenchon classificou o ar-condicionado como uma “falsa solução”, argumentando que a prioridade deveria ser investir no isolamento térmico das construções para reduzir naturalmente o aquecimento interno.
O debate também começou a dividir setores ambientalistas.
Marine Tondelier, uma das lideranças do movimento ecologista francês, reconheceu recentemente a necessidade de climatizar escolas, hospitais e outros espaços públicos diante da frequência cada vez maior das ondas de calor.
Posição semelhante foi manifestada pela deputada Sandrine Rousseau, indicando uma mudança de postura dentro de grupos tradicionalmente contrários à expansão do ar-condicionado.
Enquanto isso, a Comissão Europeia evita adotar uma posição oficial sobre o tema. A porta-voz Paula Pinho afirmou que a atual onda de calor é sem precedentes, mas ressaltou que decisões sobre instalação de sistemas de climatização continuam sendo responsabilidade de cada Estado-membro e dos próprios consumidores.
Um debate que tende a se repetir

As sucessivas ondas de calor registradas nos últimos verões indicam que a Europa precisará adaptar não apenas suas cidades, mas também suas políticas públicas.
A discussão deixou de ser simplesmente sobre instalar mais aparelhos de ar-condicionado. Ela envolve o redesenho de edifícios, investimentos em eficiência energética, ampliação de áreas verdes, modernização das redes elétricas e estratégias capazes de proteger a população sem ampliar os impactos ambientais.
Com novas ondas de calor extremo previstas para diferentes regiões do continente, especialistas acreditam que a climatização deverá permanecer no centro das discussões sobre adaptação às mudanças climáticas. O desafio será encontrar um equilíbrio entre proteger vidas, reduzir o consumo de energia e preparar as cidades europeias para um clima que já não se comporta como no passado.
[ Fonte: Meteored ]