O Grande Colisor de Hádrons (LHC), maior acelerador de partículas do planeta, ficará desligado até 2030. A pausa, anunciada pelo CERN, faz parte de um amplo programa de manutenção e modernização que dará origem ao High-Luminosity LHC (HL-LHC), uma versão muito mais potente da máquina responsável por algumas das descobertas mais importantes da física moderna.
Embora a interrupção seja totalmente planejada e faça parte do cronograma do laboratório europeu, o anúncio foi suficiente para reacender antigas teorias da conspiração nas redes sociais. Entre elas estão alegações de que o acelerador seria capaz de criar buracos negros capazes de destruir a Terra, abrir portais para outras dimensões ou até provocar catástrofes naturais.
Especialistas e o próprio CERN afirmam, porém, que nenhuma dessas hipóteses possui respaldo científico.
Por que o LHC ficará desligado até 2030?

Em 29 de junho de 2026, o CERN iniciou oficialmente a chamada Long Shutdown 3 (LS3), uma parada técnica prevista para durar cerca de quatro anos.
Durante esse período, engenheiros substituirão equipamentos, realizarão manutenção em toda a infraestrutura e instalarão os componentes do High-Luminosity LHC, versão que permitirá aumentar significativamente o número de colisões entre partículas.
Com essa atualização, os pesquisadores esperam obter dados muito mais precisos sobre fenômenos já conhecidos, como o bóson de Higgs, além de ampliar as chances de observar processos extremamente raros previstos pela física.
Segundo o CERN, o novo acelerador poderá produzir aproximadamente 380 milhões de bósons de Higgs ao longo de sua vida útil, número muito superior aos cerca de 55 milhões registrados desde o início das operações do LHC, em 2008.
A reativação dos sistemas deverá começar gradualmente em 2028, com retorno completo das operações previsto para 2030.
O LHC pode criar um buraco negro que destrua a Terra?
Essa é uma das teorias mais antigas envolvendo o acelerador de partículas.
Segundo físicos especializados na área, mesmo que fosse possível produzir um buraco negro microscópico — hipótese que continua sendo puramente teórica — ele desapareceria praticamente instantaneamente por meio de um fenômeno conhecido como radiação de Hawking.
O físico Steven Goldfarb, integrante do experimento ATLAS e professor da Universidade de Melbourne, já explicou que um objeto desse tipo existiria por apenas uma fração infinitesimal de segundo.
Outros estudos teóricos, incluindo pesquisas dos físicos Matthew Choptuik e Frans Pretorius, chegam à mesma conclusão: qualquer buraco negro eventualmente criado em colisões de partículas seria microscópico, extremamente instável e evaporaria antes de interagir com qualquer matéria ao seu redor.
O acelerador pode abrir portais para outras dimensões?
Outra alegação recorrente afirma que o CERN teria desenvolvido tecnologia capaz de abrir portais interdimensionais ou permitir a entrada de seres extraterrestres.
Essa narrativa ganhou força após declarações sem evidências da pesquisadora suíça Astrid Stuckelberger, que afirmou ter ouvido de cientistas do CERN sobre a existência de um portal sob as instalações.
O laboratório europeu negou essas declarações e informou que Stuckelberger nunca manteve vínculo profissional com a instituição.
Além disso, o CERN afirma de forma categórica que o LHC não possui qualquer capacidade de abrir portais para outras dimensões.
O físico Dejan Stojkovic, da Universidade de Buffalo, também explicou que, mesmo em cenários puramente hipotéticos, um experimento desse tipo exigiria um acelerador de partículas com dimensões comparáveis às do próprio universo — algo muito além das capacidades tecnológicas atuais.
Existe relação entre o LHC e desastres naturais?
Nos últimos dias, publicações nas redes sociais passaram a relacionar a nova parada do acelerador com o terremoto registrado na Venezuela em 24 de junho.
Essa associação segue o mesmo padrão de outras teorias que, no passado, tentaram vincular o funcionamento do LHC à pandemia de COVID-19, ao Brexit ou às eleições presidenciais nos Estados Unidos.
Segundo o CERN, não existe qualquer evidência científica de que as operações do acelerador tenham influência sobre fenômenos geológicos, climáticos ou eventos históricos.
O laboratório lembra ainda que colisões de partículas com energias iguais ou superiores às produzidas pelo LHC acontecem naturalmente o tempo todo por meio dos raios cósmicos que atingem a atmosfera terrestre e diversas regiões do universo.
De acordo com a instituição, o cosmos realiza continuamente milhões de trilhões de colisões semelhantes às produzidas pelo acelerador a cada segundo. Se esse processo representasse algum risco para a Terra, estrelas, planetas e galáxias simplesmente não existiriam.
Modernização busca ampliar descobertas científicas

Longe das teorias conspiratórias, a pausa até 2030 representa um dos projetos mais ambiciosos da história do CERN.
O High-Luminosity LHC permitirá observar fenômenos com um nível de precisão sem precedentes, oferecendo novas oportunidades para investigar a estrutura fundamental da matéria, compreender melhor o bóson de Higgs e buscar evidências de fenômenos que ainda escapam aos modelos atuais da física.
Para os pesquisadores, trata-se de mais um passo na tentativa de responder algumas das maiores perguntas sobre o funcionamento do universo — sem buracos negros apocalípticos, portais secretos ou conspirações globais.
[ Fonte: Chequeado ]