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Ciência

O aquecimento dos oceanos já está alterando um dos maiores produtores de oxigênio do planeta

Um levantamento inédito baseado em seis décadas de dados revelou uma mudança silenciosa em um dos organismos mais importantes do planeta. As conclusões acendem um alerta para o futuro dos oceanos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Os oceanos escondem um dos maiores responsáveis pela manutenção da vida na Terra, embora poucas pessoas saibam disso. Invisível a olho nu, esse organismo participa da produção de uma enorme parcela do oxigênio que respiramos, sustenta praticamente toda a cadeia alimentar marinha e ajuda a retirar dióxido de carbono da atmosfera. Agora, um estudo de longo prazo mostra que esse sistema essencial está enfrentando um declínio preocupante em uma vasta região do Atlântico.

Sessenta anos de observações revelam um cenário sem áreas saudáveis

O fitoplâncton é formado por organismos microscópicos que vivem próximos à superfície do mar e realizam fotossíntese. Além de produzir cerca de metade do oxigênio presente na atmosfera, ele representa a base de quase todas as cadeias alimentares oceânicas.

Sem ele, o zooplâncton diminui. Como consequência, pequenos peixes encontram menos alimento, afetando espécies maiores, aves marinhas, mamíferos marinhos e todo o equilíbrio dos ecossistemas.

Outro papel fundamental do fitoplâncton está na captura de carbono. Durante seu ciclo de vida, esses organismos absorvem dióxido de carbono da atmosfera e parte desse carbono acaba sendo transportada para as profundezas do oceano quando eles morrem.

Foi justamente esse componente essencial da vida marinha que passou por uma das avaliações mais completas já realizadas.

Pesquisadores da Universidade de Plymouth reuniram dados coletados ao longo de seis décadas para analisar o estado ambiental dos habitats de plâncton no Atlântico Nordeste, abrangendo uma extensa faixa marítima que vai da costa de Portugal até a Noruega.

O estudo utilizou 23 conjuntos de dados produzidos por 13 instituições científicas europeias, além de imagens de satélite, tornando-se a primeira avaliação quantitativa integrada desse tipo para a região.

O resultado surpreendeu até os próprios pesquisadores.

Nenhuma das áreas analisadas alcançou a classificação de bom estado ambiental. Algumas regiões receberam avaliação considerada incerta por falta de informações suficientes, mas diversas zonas costeiras, incluindo a Península Ibérica, o Golfo da Biscaia e os mares Celtas, foram classificadas diretamente como ecossistemas em condições insatisfatórias.

As áreas de plataforma continental apresentaram os sinais mais evidentes de degradação, com redução da biomassa de fitoplâncton e diminuição na abundância de zooplâncton ao longo das últimas décadas.

Plâncton1
© Sergiu Iacob – Pexels

Aquecimento dos oceanos está alterando a base da vida marinha

Os pesquisadores identificaram uma combinação de fatores que ajuda a explicar essa transformação.

O primeiro deles é o aumento da temperatura da superfície do mar.

À medida que os oceanos aquecem, ocorre uma estratificação mais intensa da água, dificultando a mistura entre as camadas profundas e superficiais. Com isso, nutrientes essenciais permanecem retidos em regiões mais profundas, reduzindo a disponibilidade de alimento para o fitoplâncton que vive próximo à superfície.

Outro fator importante é a acidificação dos oceanos.

O excesso de dióxido de carbono absorvido pela água diminui o pH marinho e afeta especialmente espécies de plâncton que possuem estruturas calcárias, tornando mais difícil seu desenvolvimento.

A poluição por nitrogênio também aparece entre as principais causas.

Fertilizantes agrícolas e águas residuais transportam grandes quantidades desse nutriente para o oceano através dos rios. Embora o nitrogênio seja necessário para o crescimento do fitoplâncton, seu excesso favorece espécies oportunistas que acabam substituindo comunidades mais diversas e equilibradas.

Além disso, alterações nos padrões naturais de circulação e mistura das águas modificam a distribuição de luz e nutrientes, afetando diretamente o funcionamento dos ecossistemas pelágicos.

O estudo também chama atenção para outro problema menos visível.

Diversos programas de monitoramento científico responsáveis por acompanhar o plâncton há décadas enfrentam cortes de financiamento e correm risco de interrupção justamente no momento em que esses dados se tornam mais importantes para compreender as mudanças ambientais.

Os pesquisadores defendem que novas tecnologias, como análises de DNA ambiental (eDNA) e sistemas avançados de imageamento, sejam incorporadas ao monitoramento para ampliar a capacidade de identificar espécies e detectar alterações precoces nos ecossistemas.

Ainda assim, os cientistas deixam claro que nenhuma estratégia local será suficiente caso o aquecimento global continue avançando no ritmo atual.

Segundo os autores, reduzir as emissões globais de gases de efeito estufa continua sendo a medida mais importante para preservar os habitats do plâncton e proteger o equilíbrio ecológico dos oceanos nas próximas décadas.

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