Marte continua guardando segredos, mesmo quando suas rochas chegam até a Terra. Um estudo publicado na revista científica Geochemical Perspectives Letters revelou uma descoberta que surpreendeu especialistas em geologia planetária: a identificação de grãos de granada dentro de um meteorito marciano.
Embora o mineral seja relativamente comum na Terra, esta é a primeira vez que ele é encontrado em uma amostra conhecida de Marte. O achado pode fornecer informações valiosas sobre os processos geológicos que moldaram o planeta ao longo de seus 4,5 bilhões de anos de história.
Um mineral conhecido na Terra, mas inédito em Marte

A granada é um grupo de minerais amplamente conhecido por seu uso em joias desde a Antiguidade. Egípcios, romanos e aristocratas da era vitoriana utilizavam suas variedades mais coloridas como pedras preciosas.
Mas, para os geólogos, sua importância vai muito além da estética.
Esse mineral funciona como uma espécie de registro natural das condições de temperatura, pressão e transformação que uma rocha enfrentou ao longo do tempo. Por isso, a presença de granada costuma revelar detalhes importantes sobre a formação da crosta e do interior de um planeta.
Foi exatamente esse potencial científico que chamou a atenção dos pesquisadores ao analisarem um minúsculo fragmento de rocha marciana.
Menor que uma semente de papoula
Os grãos de granada foram encontrados em uma amostra extremamente pequena, medindo apenas 0,8 por 0,5 milímetro.
Apesar do tamanho quase microscópico, os pesquisadores acreditam que o material funciona como uma verdadeira cápsula do tempo geológica, preservando informações sobre eventos que ocorreram em Marte há bilhões de anos.
Segundo Tanya Kizovski, professora de Ciências da Terra da Brock University, no Canadá, e autora principal do estudo, a descoberta foi particularmente interessante porque a granada costuma estar associada a processos metamórficos.
Na Terra, rochas metamórficas surgem quando materiais preexistentes são submetidos a temperaturas elevadas, grandes pressões ou circulação de fluidos extremamente quentes, alterando completamente sua estrutura mineralógica.
Não é a granada vermelha das joalherias
A amostra analisada faz parte do meteorito marciano NWA 8171, atualmente preservado nas coleções do Royal Ontario Museum, no Canadá.
Mas quem imagina uma pedra vermelha brilhante semelhante às utilizadas em anéis e colares pode se surpreender.
A variedade encontrada é chamada andradita, um tipo de granada rica em ferro que normalmente apresenta coloração verde-amarelada.
Esse detalhe quase fez os cientistas ignorarem a descoberta.
Inicialmente, os pesquisadores acreditavam que o mineral fosse piroxênio, uma substância muito comum em meteoritos. Apenas após uma análise mais detalhada perceberam que sua composição química não correspondia ao esperado.
Foi então que a equipe decidiu investigar a amostra novamente, identificando a presença da granada marciana.
Ela nasceu em Marte ou veio de outro lugar?

Essa é uma das perguntas mais importantes que o estudo ainda busca responder.
Os cientistas ainda não sabem se a granada se formou diretamente na crosta marciana ou se chegou ao planeta por meio do impacto de outro meteorito.
Segundo Kizovski, existem várias possibilidades.
O calor e a pressão necessários para formar esse mineral podem ter sido gerados pelo impacto de grandes asteroides na superfície de Marte, pela ascensão de magma através da crosta ou por uma combinação desses processos.
Determinar sua origem ajudaria os pesquisadores a compreender melhor os eventos geológicos que ocorreram no planeta durante seus primeiros bilhões de anos.
O problema: a análise pode destruir a amostra
Para solucionar o mistério, os cientistas pretendem estudar as assinaturas isotópicas presentes no mineral, especialmente os isótopos de oxigênio.
Essas análises poderiam indicar com precisão se a rocha realmente se formou em Marte ou se veio de um corpo celeste diferente.
No entanto, existe um obstáculo importante.
Os testes exigem a destruição de parte da amostra. Como o NWA 8171 pode ser a única rocha marciana conhecida contendo granada, os pesquisadores têm evitado realizar procedimentos invasivos que comprometam o material.
Uma nova peça no quebra-cabeça marciano
Para James Darling, professor de Ciências da Terra e Planetárias da University of Portsmouth e coautor do estudo, a descoberta adiciona uma nova dimensão à compreensão da geologia marciana.
Segundo ele, a presença da granada sugere que Marte pode ter experimentado processos geológicos mais complexos do que se imaginava anteriormente.
Os pesquisadores acreditam que futuras análises poderão revelar como esse mineral se formou e o que ele pode contar sobre os ambientes antigos do planeta vermelho.
Se as expectativas se confirmarem, esses minúsculos grãos poderão ajudar a reescrever capítulos importantes da história geológica de Marte e oferecer novas pistas sobre a evolução de um dos mundos mais fascinantes do Sistema Solar.
[ Fonte: DW ]