Uma alface capaz de fabricar uma proteína encontrada nos músculos de animais parece coisa de ficção científica. Mas pesquisadores do Imperial College London conseguiram fazer isso em laboratório. Com técnicas de engenharia genética, a equipe modificou plantas para produzir mioglobina. O avanço pode contribuir para alimentos vegetais com características mais próximas às da carne, embora ainda existam obstáculos antes de qualquer aplicação comercial.
Publicado em agosto de 2026 na revista Frontiers in Plant Science, o trabalho apresenta uma possibilidade para a fabricação de ingredientes. A pesquisa permanece em fase experimental, com processos que ainda precisam de aperfeiçoamento.
Como uma alface passou a produzir uma proteína animal

A investigação se concentrou na mioglobina, responsável por armazenar oxigênio nos músculos dos vertebrados. Essa proteína também contribui para a coloração característica da carne.
Sua estrutura contém um componente chamado hemo, que incorpora ferro. Ele participa das propriedades de cor e sabor que fabricantes procuram reproduzir em hambúrgueres vegetais e outros produtos semelhantes.
Para fazer as plantas produzirem mioglobina, os pesquisadores introduziram informações genéticas nos cloroplastos, estruturas celulares responsáveis pela fotossíntese.
A equipe utilizou um procedimento conhecido como bombardeamento de partículas para incorporar o gene da mioglobina suína em células de alface e tabaco. As plantas modificadas produziram a proteína e continuaram seu desenvolvimento: cresceram, floresceram e geraram sementes.
Essas sementes transmitiram a modificação genética, demonstrando que a capacidade de produzir mioglobina poderia permanecer nas gerações seguintes. Os cientistas também testaram a produção de mioglobina bovina em uma alga verde.
Quanto de mioglobina as plantas conseguiram fabricar?
Os resultados mostraram que as plantas produziam quantidades mensuráveis da proteína. Na alface, a equipe obteve aproximadamente 810 miligramas de mioglobina por quilograma de matéria seca.
No tabaco, a produção chegou a cerca de 800 miligramas por quilograma. A referência à matéria seca é importante: esses valores não correspondem a um quilograma de folhas frescas.
O método baseado nos cloroplastos apresentou resultados melhores que outras formas de modificação genética avaliadas nas plantas de tabaco. Entretanto, a concentração ainda difere significativamente daquela encontrada naturalmente no músculo animal.
A quantidade produzida também não é o único desafio. Os pesquisadores precisam melhorar a incorporação do hemo, componente essencial para algumas das características desejadas da mioglobina.
Nas análises, aproximadamente 35% da mioglobina purificada do tabaco continha hemo. Essa proporção ficou abaixo da obtida por meio de produção bacteriana.
Portanto, fabricar a proteína representa um avanço, mas ainda será necessário aperfeiçoar o processo para considerar seu uso comercial na alimentação.
As folhas poderiam fornecer ingredientes para hambúrgueres vegetais

A principal aplicação estudada envolve usar as plantas como pequenas fábricas biológicas. A mioglobina poderia ser extraída das folhas, purificada e incorporada a outros alimentos.
Entre as possibilidades estão hambúrgueres vegetais e produtos desenvolvidos para reproduzir determinadas características da carne. O interesse está na proteína produzida, sem depender do consumo direto da alface modificada em uma salada.
Atualmente, a indústria já obtém algumas proteínas utilizando microrganismos geneticamente modificados, cultivados em grandes biorreatores. O experimento apresenta uma alternativa baseada em cultivos vegetais.
Ainda não há demonstração de que essa abordagem seja mais econômica ou sustentável em escala industrial. A equipe também precisará avaliar segurança alimentar, processos de fabricação e exigências regulatórias.
Por enquanto, o resultado constitui uma prova de conceito: uma planta comestível conseguiu produzir uma proteína animal de maneira estável. O caminho até os supermercados continua longo, mas o experimento amplia as possibilidades da biotecnologia vegetal na produção de ingredientes alimentícios.