O que uma inundação na América do Sul, o risco de incêndios na Ásia e a ameaça de escassez de alimentos na África têm em comum? Todos fazem parte de um cenário climático influenciado pelo fortalecimento de El Niño. Nesta semana de outubro, seus efeitos ganharam destaque em diferentes regiões, enquanto novas previsões indicam que o fenômeno ainda pode atingir uma intensidade excepcional antes do fim de 2026.
O Pacífico está mais quente e os cientistas fazem um alerta
O fenômeno El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial ficam anormalmente aquecidas, alterando a circulação atmosférica e influenciando a distribuição das chuvas e das temperaturas em várias regiões do planeta.
Embora seja um processo natural, sua intensidade varia de um episódio para outro.
Em 8 de outubro, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) informou que El Niño continuava se fortalecendo. Algumas áreas do Pacífico oriental registravam temperaturas superficiais mais de 4 °C acima da média.
Segundo o boletim oficial do Centro de Previsão Climática da NOAA, existe uma probabilidade superior a 83% de que o fenômeno permaneça forte ou muito forte até o trimestre de janeiro a março de 2027.
Os meteorologistas também consideram possível que o episódio alcance uma intensidade histórica, embora ainda exista incerteza sobre seu pico exato.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê que o aquecimento do Pacífico continue influenciando os padrões climáticos globais, com impactos sobre temperaturas, precipitações e atividades econômicas.
América do Sul enfrenta enchentes e chuvas excepcionais

Entre os acontecimentos mais visíveis desta semana estão as fortes chuvas que atingiram áreas da Argentina, do Chile e de outros países sul-americanos.
Na fronteira entre Brasil e Argentina, o aumento da vazão do Rio Iguaçu levou ao fechamento temporário do acesso turístico às Cataratas do Iguaçu, no lado argentino, em 13 de outubro.
O volume de água ultrapassou 12 mil metros cúbicos por segundo, aproximadamente seis vezes a vazão média. O aumento foi associado às precipitações intensas na bacia hidrográfica, em um contexto climático influenciado por El Niño.
No Chile, uma tempestade excepcional atingiu Santiago em 13 de outubro, com chuvas torrenciais, granizo e um tornado de pequena intensidade. Mais de 20 mil pessoas ficaram sem eletricidade.
Especialistas apontaram que o aquecimento global e as condições atmosféricas associadas a El Niño podem contribuir para episódios de precipitação intensa, embora a atribuição de cada tempestade exija análises específicas.
No Brasil, o fenômeno costuma favorecer chuvas acima da média em partes da Região Sul, elevando o risco de enchentes e problemas para a agricultura. Entretanto, seus efeitos variam conforme a estação e a atuação de outros sistemas meteorológicos.
África e Ásia enfrentam riscos diferentes
Enquanto algumas regiões recebem chuva em excesso, outras enfrentam condições favoráveis à seca.
O relatório de riscos climáticos da FEWS NET, referente ao período de 8 a 14 de outubro, identificou chuvas intensas e inundações em partes da África central e setentrional, da Ásia Central e das Américas.
Ao mesmo tempo, condições prolongadas de seca continuam afetando determinadas regiões, comprometendo a disponibilidade de água e as atividades agrícolas.
No Sudeste Asiático, episódios fortes de El Niño costumam favorecer condições mais secas em partes da Indonésia, aumentando a preocupação com incêndios florestais e fumaça.
Esses riscos também têm consequências econômicas. A redução das chuvas pode afetar plantações, reservatórios e geração hidrelétrica, enquanto enchentes danificam estradas, moradias e áreas produtivas.
O Programa Mundial de Alimentos alerta que eventos climáticos extremos associados ao fenômeno podem agravar a insegurança alimentar, sobretudo em comunidades que dependem da agricultura de subsistência.
É importante distinguir os impactos já registrados das ameaças previstas para os próximos meses: nem todos os eventos extremos observados nesta semana podem ser atribuídos diretamente a El Niño.
O que pode acontecer nos próximos meses?
As previsões indicam que El Niño continuará influenciando o clima mundial até 2027, mesmo depois de atingir sua intensidade máxima.
Entre as principais preocupações estão o aumento das temperaturas globais, mudanças nos regimes de chuva e possíveis prejuízos à produção agrícola.
O fenômeno também pode afetar os preços internacionais dos alimentos, dependendo da intensidade das perdas nas lavouras e das condições de transporte e abastecimento.
Entretanto, um El Niño muito forte não significa que todos os países enfrentarão desastres. Seus efeitos dependem de fatores regionais e da interação com outros fenômenos atmosféricos.
A combinação com o aquecimento global acrescenta outra preocupação: temperaturas médias mais elevadas podem intensificar determinados extremos climáticos.
Por isso, a evolução do fenômeno continuará sendo acompanhada por instituições meteorológicas internacionais. O desafio será transformar as previsões em medidas preventivas capazes de reduzir os danos às populações mais vulneráveis.