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Tecnologia

Cientistas criam motor quântico que produz trabalho e refrigera ao mesmo tempo sem violar as leis da física

Pesquisadores demonstraram um motor quântico capaz de gerar trabalho e resfriar simultaneamente. O experimento, publicado na Physical Review Letters, não cria energia do nada, mas revela como fenômenos exclusivamente quânticos podem ampliar os limites da termodinâmica tradicional.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante séculos, motores e refrigeradores foram considerados máquinas com funções opostas. Enquanto um motor transforma calor em trabalho, uma geladeira consome energia para retirar calor de uma região fria e transferi-lo para outra mais quente. Agora, um estudo mostra que, no mundo quântico, um único dispositivo pode desempenhar as duas funções ao mesmo tempo sem desrespeitar nenhuma lei da física.

Um motor e uma geladeira na mesma máquina

Experimento confirma teoria de 20 anos sobre entrelaçamento quântico e aproxima computadores quânticos modulares
© Imagem gerada por inteligência artificial – Gizmodo BR

A pesquisa parte de uma pergunta aparentemente impossível: seria possível construir uma máquina que retire calor de uma fonte fria e, simultaneamente, produza trabalho útil?

Na física clássica, a resposta parece negativa.

Um motor térmico aproveita o fluxo natural do calor, que sempre passa de uma região mais quente para outra mais fria, convertendo parte dessa energia em trabalho.

Já uma geladeira faz exatamente o contrário. Ela força o calor a seguir o caminho inverso, transportando energia térmica de um ambiente frio para outro mais quente. Para isso, precisa consumir energia externa.

Por isso, imaginar um equipamento que realize as duas tarefas ao mesmo tempo parece contrariar a própria termodinâmica.

O segredo está em um fenômeno exclusivo da mecânica quântica

Os pesquisadores utilizaram uma simulação óptica baseada no ciclo de Otto quântico, equivalente ao princípio de funcionamento dos motores de combustão, mas adaptado ao universo quântico.

O diferencial do experimento está em um conceito conhecido como ordem causal indefinida.

Na vida cotidiana, dois acontecimentos sempre seguem uma sequência bem definida. Primeiro ocorre um evento e depois o outro.

Na mecânica quântica, porém, existe a possibilidade de que ambas as sequências coexistam simultaneamente em um estado de superposição.

Isso significa que dois processos podem acontecer em ordens diferentes ao mesmo tempo, até que uma medição determine o resultado final.

É justamente esse comportamento que permite à máquina apresentar propriedades impossíveis para sistemas clássicos.

Como o experimento foi realizado

Para demonstrar o conceito, os cientistas utilizaram fótons, as partículas que compõem a luz.

A polarização dos fótons representava o estado térmico de um qubit, enquanto o caminho percorrido por cada partícula definia a ordem em que ela atravessava dois processos distintos.

Um interferômetro dividia o feixe de luz em dois trajetos.

Em um deles, o fóton passava primeiro por um processo e depois pelo outro. No segundo caminho, a sequência era invertida.

Quando ambos os trajetos voltavam a se encontrar, as duas possibilidades permaneciam em superposição, como se as duas ordens tivessem acontecido simultaneamente.

Somente após a medição do qubit de controle surgia o resultado definitivo.

Em determinadas condições, essa configuração fazia com que o calor fluísse de uma maneira que seria impossível em uma máquina convencional.

O motor consegue resfriar e gerar trabalho ao mesmo tempo

Computadores Quânticos4
© Adventtr – Getty Images

Os pesquisadores incorporaram esse comportamento a um ciclo de Otto modificado.

Durante uma etapa do processo, o qubit absorvia calor de uma fonte mais fria, mesmo estando temporariamente em uma condição de temperatura efetiva superior.

Em seguida, outra parte da energia era convertida em trabalho útil antes que o sistema devolvesse calor ao reservatório quente e retornasse ao estado inicial.

Ao final de cada ciclo, o dispositivo conseguia retirar calor da fonte fria, transferir parte dessa energia para a fonte quente e transformar outra parte em trabalho mecânico.

Na prática, ele funcionava simultaneamente como motor térmico e sistema de refrigeração.

Por que isso não viola a segunda lei da termodinâmica

À primeira vista, o experimento parece contrariar uma das leis mais importantes da física.

A segunda lei da termodinâmica afirma que o calor flui espontaneamente do corpo mais quente para o mais frio e que inverter esse processo exige gasto de energia.

No entanto, os pesquisadores mostram que esse princípio continua válido.

A chave está na informação obtida durante a medição do qubit de controle.

Somente alguns resultados específicos produzem o comportamento desejado. Para identificá-los, é necessário registrar a informação, armazená-la temporariamente e, depois, apagá-la para reiniciar o experimento.

Segundo o princípio de Landauer, apagar informação possui um custo energético inevitável.

Assim, a máquina não gera energia gratuitamente. Ela utiliza um recurso adicional que a termodinâmica clássica normalmente não considera: o valor físico da informação quântica.

Quando esse custo também entra na conta, toda a conservação de energia permanece perfeitamente preservada.

O que essa descoberta realmente significa

O estudo não representa a criação de uma geladeira revolucionária nem de uma fonte inesgotável de energia.

Trata-se de uma demonstração experimental realizada com fótons e componentes ópticos em ambiente de laboratório.

Sua importância está em ampliar a compreensão da termodinâmica quântica.

Enquanto a termodinâmica tradicional considera apenas calor, temperatura e trabalho, a versão quântica mostra que coerência, informação, medições e até mesmo a ordem temporal dos processos também podem funcionar como recursos físicos.

O trabalho demonstra que, no universo quântico, não apenas o que acontece importa, mas também a maneira como os acontecimentos são organizados.

Embora ainda esteja muito distante de aplicações comerciais, o experimento representa um passo importante para compreender como futuras máquinas quânticas poderão explorar propriedades inexistentes na física clássica e abrir novos caminhos para tecnologias de computação, comunicação e processamento de energia.

 

[ Fonte: Muy Interesante ]

 

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