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Ciência

Cientistas descobrem como a Terra começou a “respirar”: fósforo nos oceanos pode ter sido a chave para o surgimento da vida

Pesquisadores australianos conseguiram reconstruir o processo que transformou a atmosfera do planeta há mais de 2 bilhões de anos. O estudo indica que o fósforo, um nutriente essencial, provocou a primeira grande liberação de oxigênio — e, com isso, abriu caminho para a vida complexa.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A atmosfera da Terra nem sempre foi rica em oxigênio. Durante bilhões de anos, o planeta foi um mundo inóspito, envolto por gases tóxicos e mares sem vida. Agora, um estudo conduzido por cientistas da Universidade da Austrália Ocidental revela como um elemento químico essencial, o fósforo, desencadeou a transformação que permitiu a respiração e o surgimento dos primeiros organismos complexos.

A descoberta que reescreve a história da oxigenação

O trabalho, liderado pelo Dr. Matthew Dodd, do Departamento de Terra e Oceanos da Universidade da Austrália Ocidental, conseguiu identificar o mecanismo que deu origem ao chamado Grande Evento de Oxidação (GOE) — o período em que a atmosfera terrestre passou a conter oxigênio em quantidade significativa.

De acordo com o estudo, publicado na revista Nature Geoscience, o fósforo chegou aos oceanos primitivos em pulsos, liberado pela erosão de rochas continentais jovens. Esse aporte desencadeou um surto de atividade fotossintética em microrganismos marinhos, que passaram a produzir oxigênio em escala global.

“Esses pulsos de fósforo impulsionaram a fotossíntese e aumentaram o sepultamento de carbono orgânico, permitindo que o oxigênio se acumulasse na atmosfera”, explicou o Dr. Dodd. “Foi nesse momento que a Terra, de certa forma, respirou fundo pela primeira vez.”

Recriando o passado com tecnologia

Para entender esse fenômeno, a equipe combinou um banco de dados global de rochas carbonatadas antigas com modelos climáticos computadorizados capazes de simular as condições oceânicas e atmosféricas da Terra há bilhões de anos.

As rochas analisadas continham fosfato associado a carbonatos, um marcador químico que indica a presença de fósforo dissolvido na água do mar. A partir dessas amostras, os cientistas mediram variações nos isótopos de carbono, que refletem a produtividade biológica e o acúmulo de oxigênio no ambiente.

Milhares de simulações mostraram que os aumentos repentinos de fósforo provocavam surtos de oxigenação e deixavam assinaturas isotópicas idênticas às encontradas nos registros geológicos. Assim, o estudo confirmou que o fósforo foi o gatilho químico e biológico que mudou o destino do planeta.

Quando o oxigênio virou “moeda da vida”

Segundo Dodd, o oxigênio é “a moeda forte da vida complexa”, e sua presença foi fundamental para que organismos multicelulares evoluíssem. Antes do GOE, a Terra era dominada por micróbios anaeróbicos, incapazes de sobreviver em ambientes oxigenados.

Com o aumento do fósforo e a expansão das cianobactérias fotossintéticas, o oxigênio começou a se acumular não apenas nos oceanos, mas também na atmosfera. Esse processo levou milhões de anos, mas acabou criando o equilíbrio químico que sustenta a vida até hoje.

“O fósforo foi o elo perdido que conectou oceanos, biologia e atmosfera”, resume o pesquisador. “Sem ele, nosso planeta provavelmente teria permanecido um mundo estéril, como Marte.”

O impacto da descoberta na busca por vida fora da Terra

O estudo não apenas ajuda a entender a história terrestre, mas também tem implicações para a astrobiologia — o campo que busca vida em outros planetas.

De acordo com o Dr. Dodd, os astrônomos costumam usar o oxigênio atmosférico como indicador de atividade biológica em exoplanetas, mas esse gás pode surgir também por processos não biológicos. “Nosso trabalho fornece um modelo biológico verificável para a criação e manutenção do oxigênio em mundos habitáveis”, afirmou o cientista.

Com isso, os pesquisadores esperam que futuras missões espaciais — como as do telescópio James Webb — possam identificar atmosferas semelhantes à da Terra primitiva e avaliar se nelas há sinais de vida baseada em fotossíntese.

A Terra antes e depois do Grande Evento de Oxidação

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© X-@RealTimeRating

O Grande Evento de Oxidação, ocorrido entre 2,43 e 2,06 bilhões de anos atrás, marcou uma virada irreversível: a partir dele, a atmosfera terrestre tornou-se permanentemente oxigenada. Essa mudança alterou a química dos oceanos, a formação das rochas e o próprio interior do planeta, preparando o terreno para o surgimento das células eucarióticas e, muito mais tarde, dos animais.

Para Dodd e sua equipe, compreender como o fósforo impulsionou essa transformação é entender o momento exato em que a Terra deixou de ser apenas um corpo rochoso para se tornar um mundo vivo.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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