Pular para o conteúdo
Ciência

Cientistas descobrem por que as eras glaciais passaram a acontecer a cada 100 mil anos

Uma pesquisa internacional publicada na Nature Communications pode ter resolvido um dos grandes mistérios da paleoclimatologia. Pequenas mudanças na quantidade de radiação solar foram suficientes para deslocar os ventos do Atlântico Norte e alterar o ritmo das eras glaciais da Terra.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Durante muito tempo, os cientistas souberam que algo importante aconteceu há cerca de 1 milhão de anos. Antes disso, os grandes períodos glaciais se repetiam aproximadamente a cada 40 mil anos. Depois, passaram a seguir ciclos muito mais longos, próximos de 100 mil anos.

Esse período ficou conhecido como Transição do Pleistoceno Médio e ocorreu entre aproximadamente 1,2 milhão e 650 mil anos atrás.

O problema era explicar exatamente o que provocou essa mudança.

Agora, uma equipe internacional liderada pela pesquisadora Maria F. Sanchez Goñi reconstruiu com grande nível de detalhe a evolução das chuvas de inverno e da circulação atmosférica no Atlântico Norte durante esse intervalo.

Para isso, os cientistas analisaram grãos de pólen fossilizados encontrados em sedimentos marinhos próximos à costa de Portugal. Depois, combinaram essas informações com modelos climáticos avançados e outros registros paleoclimáticos do Hemisfério Norte.

O resultado revelou uma sequência de mudanças atmosféricas capaz de explicar a alteração do ritmo das glaciações.

Os ventos do Atlântico Norte começaram a mudar de posição

Mapas Digitais1
© Prediction and Research Moored Array in the Tropical Atlantic

Na primeira fase analisada pelos pesquisadores, fortes variações sazonais na quantidade de energia solar mantinham os ventos predominantes do oeste, conhecidos como westerlies, em regiões relativamente mais ao norte.

Isso favorecia invernos úmidos no sul da Europa e limitava o crescimento das grandes massas de gelo.

A situação começou a mudar entre aproximadamente 930 mil e 790 mil anos atrás.

Nesse período, as variações sazonais da insolação ficaram menos intensas. Como consequência, a corrente de jato e os ventos associados migraram para o sul.

As tempestades de inverno também mudaram de trajetória e passaram a atingir menos o Mediterrâneo.

O resultado foi uma redução importante das chuvas em grandes regiões da Europa, da Ásia e da América do Norte.

Menos neve ajudou grandes geleiras a se estabilizarem

Pode parecer contraditório, mas a redução das precipitações em determinadas regiões ajudou as grandes massas de gelo do norte a crescer.

Com menos neve acumulada nas latitudes médias, as enormes geleiras localizadas principalmente na Escandinávia e no nordeste do Canadá conseguiram engrossar e permanecer estáveis por períodos maiores.

Os modelos climáticos indicam que essas condições favoreceram a formação de calotas glaciais mais espessas e persistentes.

Essas grandes massas de gelo passaram a armazenar enormes quantidades de água e também modificaram a quantidade de luz solar refletida pela superfície terrestre.

Isso criou novas condições capazes de reforçar ainda mais o resfriamento.

Uma nova mudança nos ventos alimentou as geleiras

Depois de aproximadamente 790 mil anos atrás, as variações na insolação voltaram a aumentar.

Com isso, os ventos do oeste migraram novamente em direção ao norte.

Dessa vez, porém, eles encontraram grandes mantos de gelo que já estavam estabelecidos.

Os ventos passaram a transportar mais umidade sobre o continente europeu, aumentando as nevascas durante o inverno e alimentando essas enormes estruturas de gelo.

Segundo os pesquisadores, a combinação entre esse novo fornecimento de umidade e a própria inércia térmica das geleiras ajudou a consolidar ciclos glaciais muito mais longos.

Foi assim que o intervalo de aproximadamente 100 mil anos se tornou dominante.

Pequenas mudanças na órbita da Terra tiveram consequências gigantescas

Os pesquisadores destacam que essa transformação não aconteceu devido a um colapso repentino do sistema climático.

Ela ocorreu gradualmente e foi impulsionada por pequenas alterações na órbita terrestre.

A excentricidade da órbita, a inclinação do eixo e a precessão modificam a quantidade e a distribuição da radiação solar que diferentes regiões do planeta recebem ao longo do ano.

Embora essas mudanças sejam pequenas em termos de energia total, elas podem alterar significativamente a circulação atmosférica.

As simulações mostraram que os ventos do Atlântico Norte são particularmente sensíveis às variações da radiação solar durante o verão nas altas latitudes do Hemisfério Norte.

Até pequenas reduções de insolação podem deslocar as trajetórias das tempestades para outras latitudes.

O efeito foi muito além das geleiras

Gelo Da Groenlândia1
© Alberto Restifo – Unsplash

As mudanças nos ventos também alteraram a circulação dos oceanos e a troca de calor entre o mar e a atmosfera.

Além disso, influenciaram a concentração de dióxido de carbono e modificaram a forma como partículas de poeira eram transportadas de regiões da África, Ásia e América do Norte.

Todos esses elementos passaram a interagir.

Gelo, poeira atmosférica, gases de efeito estufa, oceanos e ventos formaram uma série de mecanismos de retroalimentação que reorganizaram profundamente o clima terrestre.

A pesquisa mostra que os ventos do oeste tiveram um papel muito maior na história climática do planeta do que se imaginava.

O estudo também reforça uma ideia importante: mudanças aparentemente pequenas na distribuição da energia solar podem provocar consequências enormes quando afetam simultaneamente a atmosfera, os oceanos e as grandes massas de gelo.

No caso da Terra, essa combinação foi suficiente para mudar o relógio das eras glaciais e estabelecer ciclos que passaram de cerca de 40 mil para aproximadamente 100 mil anos.

 

[ Fonte: La Brújula Verde ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados