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Ciência

O que mudou na Terra há 1 milhão de anos e alterou o ritmo das eras glaciais

Durante milhões de anos, as eras glaciais seguiram um ritmo diferente do atual. Uma pista microscópica encontrada no fundo do oceano ajudou a revelar essa mudança.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O clima da Terra nunca foi completamente estável. Durante milhares de anos, enormes camadas de gelo avançaram e recuaram em ciclos que pareciam obedecer a um padrão. Mas, em algum momento da história do planeta, esse ritmo mudou de forma significativa. Agora, pesquisadores encontraram uma pista preservada no fundo do Atlântico que ajuda a explicar como uma pequena alteração conseguiu transformar o comportamento climático da Terra.

A pista estava escondida em algo quase invisível

Durante boa parte do passado recente do planeta, as grandes glaciações aconteciam aproximadamente a cada 40 mil anos. Esse ritmo estava relacionado às mudanças periódicas na órbita e na posição do eixo terrestre.

Porém, há cerca de 1 milhão de anos, algo mudou. Os períodos glaciais passaram a durar muito mais, aproximando-se de ciclos de 100 mil anos. Essa transformação, conhecida como Transição do Pleistoceno Médio, intrigava os cientistas porque não havia uma explicação simples para a mudança.

Uma equipe internacional liderada pela pesquisadora Maria F. Sanchez Goñi decidiu procurar respostas em um lugar improvável: sedimentos marinhos próximos à costa de Portugal.

Ali estavam preservados grãos de pólen fossilizados. Apesar de minúsculos, eles funcionam como registros do clima do passado. Diferentes tipos de vegetação indicam se determinado período era mais úmido, seco, quente ou frio.

Ao analisar esses restos entre aproximadamente 1,2 milhão e 650 mil anos atrás, os pesquisadores combinaram os dados com outros registros climáticos e simulações atmosféricas.

A reconstrução revelou que a transformação não aconteceu de repente. Houve uma sequência de mudanças na circulação atmosférica do hemisfério norte.

E uma delas chamou especialmente a atenção.

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© PIC Femke Ketelaar – Shutterstock

Uma mudança sutil alterou o caminho das tempestades

Entre aproximadamente 930 mil e 790 mil anos atrás, pequenas diferenças na quantidade de energia solar recebida durante as estações começaram a modificar a circulação atmosférica.

O resultado foi um deslocamento para o sul dos chamados westerlies, os ventos de oeste que influenciam fortemente o transporte de umidade e as tempestades no Atlântico Norte.

A alteração parecia pequena, mas suas consequências foram enormes.

Com as tempestades seguindo rotas diferentes, regiões da Europa, Ásia e América do Norte passaram a receber menos umidade durante determinados períodos. Os registros de pólen mostram a mudança: áreas que antes apresentavam vegetação associada a condições mais úmidas passaram a registrar espécies adaptadas à aridez.

Enquanto isso, algo ainda mais importante acontecia ao norte.

As grandes camadas de gelo da Escandinávia e do nordeste do Canadá começaram a encontrar condições mais favoráveis para crescer e sobreviver aos períodos de aquecimento. Elas deixaram de desaparecer completamente entre os ciclos.

Quando os padrões de radiação solar voltaram a favorecer ventos mais ao norte, as tempestades passaram a transportar novamente grandes quantidades de umidade para essas regiões geladas.

Só que agora havia muito mais gelo esperando pela neve.

Foi assim que o planeta passou a funcionar em ciclos maiores

As novas camadas de neve alimentaram os mantos de gelo, que cresceram cada vez mais. Seu enorme poder de refletir a luz solar e sua própria inércia térmica dificultaram o derretimento completo.

Aos poucos, o antigo ritmo de aproximadamente 40 mil anos perdeu força e deu lugar ao padrão próximo de 100 mil anos que caracteriza as grandes eras glaciais posteriores.

O mais interessante é que os pesquisadores não apontam para um único evento catastrófico como responsável pela mudança. O processo começou com alterações relativamente discretas na órbita terrestre — envolvendo fatores como excentricidade, inclinação do eixo e precessão.

Essas mudanças modificaram a distribuição sazonal da energia solar. Os ventos responderam, as chuvas mudaram de trajetória e as camadas de gelo encontraram condições diferentes para crescer.

Depois, o próprio gelo passou a reforçar o processo.

O oceano, o dióxido de carbono, a circulação atmosférica e até a poeira mineral transportada pelos ventos participaram dessa complexa reação em cadeia.

Isso também ajuda a responder à pergunta sobre quando será a próxima era glacial: em condições naturais, ela não estaria prestes a começar. Os ciclos orbitais operam em escalas de dezenas de milhares de anos, e o sistema climático atual também está sendo profundamente influenciado pelo aumento das concentrações de gases de efeito estufa provocado pelas atividades humanas.

A grande descoberta, portanto, não é apenas saber que a Terra possui um “relógio” climático. É entender que esse relógio pode mudar quando diferentes peças do sistema — órbita, ventos, oceanos, gelo e atmosfera — começam a interagir de uma maneira diferente.

E a evidência que permitiu reconstruir essa transformação estava escondida em partículas microscópicas depositadas no fundo do Atlântico há centenas de milhares de anos.

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