Uma infecção bacteriana comum pode ter consequências mais amplas do que os cientistas conheciam. Pesquisadores de Hong Kong encontraram uma associação entre a Helicobacter pylori e o câncer colorretal. A bactéria, uma das principais causas de úlceras e câncer de estômago, apareceu relacionada a um risco maior desses tumores. Segundo as estimativas do estudo, aproximadamente um em cada cinco casos no mundo poderia estar ligado à exposição ao microrganismo.
Uma bactéria comum com consequências conhecidas
A H. pylori encontra no estômago humano um ambiente favorável para viver. Mais da metade da população mundial já teve contato com essa infecção em algum momento, embora muitas pessoas nunca apresentem sintomas.
Quando persiste, a bactéria pode provocar inflamação e favorecer o desenvolvimento de úlceras, lesões que comprometem o revestimento do estômago. A relação entre a infecção crônica e o aumento do risco de câncer gástrico já está bem estabelecida.
A Organização Mundial da Saúde reconhece a H. pylori como um agente cancerígeno. Entretanto, a possível participação da bactéria no câncer colorretal ainda envolve mais incertezas.
Pesquisas anteriores já haviam sugerido uma associação. O novo trabalho procurou dimensionar quantos casos poderiam estar relacionados à infecção, reunindo informações de diferentes populações.
A análise reuniu dados de 48,7 milhões de pessoas
No estudo, publicado na revista eGastroenterology, os autores analisaram 43 pesquisas que, juntas, envolveram aproximadamente 48,7 milhões de pessoas.
Os trabalhos tinham objetivos distintos. Alguns investigavam a frequência da infecção por H. pylori em determinadas populações. Outros avaliavam a associação entre a presença da bactéria e o desenvolvimento de câncer colorretal.
Ao combinar os resultados, os pesquisadores encontraram uma associação com risco 59% maior de desenvolver a doença entre pessoas infectadas. Esse aumento é relativo: não significa que 59% dos portadores da bactéria terão câncer.
A equipe também estimou que 22% dos casos de câncer colorretal no mundo poderiam estar relacionados à exposição à H. pylori. O número representa uma estimativa estatística e não demonstra que a bactéria tenha causado individualmente cada um desses tumores.
Os resultados mudam conforme os estudos considerados
Os próprios autores destacam que os valores dependem dos dados utilizados. Quando restringiram a análise a um conjunto mais específico de pesquisas, a parcela potencialmente atribuível à bactéria caiu de 22% para 12%.
Essa diferença mostra que ainda existe incerteza sobre o tamanho da associação. Além disso, o risco relacionado à infecção variou entre países.
O câncer também costuma envolver múltiplos fatores. Portanto, identificar uma associação com a H. pylori não permite atribuir à bactéria toda a responsabilidade pelo surgimento da doença.
A questão central permanece aberta: qual é a participação efetiva da infecção no desenvolvimento desses tumores e quanto desse risco poderia ser evitado?
Tratar a infecção poderia ajudar na prevenção?
A possibilidade interessa aos pesquisadores porque a infecção crônica por H. pylori pode ser identificada por exames e tratada com antibióticos.
Estudos já mostraram que programas de identificação e tratamento em regiões de alto risco podem reduzir futuros casos de câncer de estômago. Uma pesquisa publicada na Gastroenterology está entre os trabalhos que investigaram esses benefícios.
Entretanto, ainda não está demonstrado que a mesma estratégia diminua a incidência de câncer colorretal. Para responder a essa pergunta, os autores defendem estudos de alta qualidade, com acompanhamento prolongado dos participantes.
Os resultados poderão orientar novas estratégias de prevenção, especialmente em regiões onde a bactéria é frequente e os recursos são limitados. Por enquanto, o trabalho amplia a preocupação com uma infecção conhecida e indica uma relação que precisa ser investigada com mais precisão.