Pular para o conteúdo
Tecnologia

Proteínas alternativas podem revolucionar o clima — e o prato do brasileiro

A crise climática está acelerando, o planeta está esquentando e o sistema alimentar global está longe de acompanhar as soluções necessárias. Mas uma resposta promissora já está no horizonte — e pode estar no seu prato mais cedo do que imagina. As proteínas alternativas surgem como uma das armas mais eficientes para enfrentar o aquecimento global e reduzir as emissões na cadeia de alimentos. Agora, com a COP30 acontecendo no Brasil, o tema finalmente ganhou o palco que merece.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Entenda por que o sistema alimentar falha no combate ao clima

Um dado resume o problema: sistemas alimentares são responsáveis por 33% das emissões globais, mas recebem apenas 3% dos investimentos climáticos. É uma equação tão desproporcional que compromete qualquer chance de avanço.

Mobilidade e energia seguem recebendo as grandes fatias de capital, enquanto o setor de alimentos continua praticamente estagnado. A COP30, em Belém (PA), surge como um momento estratégico para corrigir esse desequilíbrio e debater soluções reais — entre elas, o avanço das proteínas alternativas e a construção de sistemas alimentares mais resilientes.

Gustavo Guadagnini, diretor do Good Food Institute (GFI) Brasil, alerta:

“Precisamos produzir mais comida com menos recursos, sem repetir modelos que já sabemos que impulsionam desastres climáticos.”

O gargalo da produção animal e por que precisamos diversificar

Proteínas alternativas podem revolucionar o clima — e o prato do brasileiro
© Pexels

A pecuária é, hoje, uma das áreas mais intensas em emissões. Apesar disso, segue ocupando terreno e investimento de forma desproporcional. Pesquisas citadas pelo GFI mostram que 85% das terras aráveis do planeta estão dedicadas à pecuária — e esse esforço todo entrega apenas 17% das calorias consumidas no mundo.

Não se trata de eliminar produtos de origem animal, mas sim de diversificar o sistema alimentar para aliviar a pressão sobre o planeta e reduzir emissões de gases de efeito estufa (GEE).

Isso inclui criar cadeias mais eficientes, resistentes às mudanças climáticas e capazes de atender à demanda global crescente sem devastar solos, rios e florestas.

Descubra como as proteínas alternativas funcionam na prática

As proteínas alternativas são um campo vibrante, de rápido crescimento, que envolve três tecnologias principais:

  1. Plant-based (à base de plantas)

A rota mais conhecida pelo consumidor. Usa leguminosas como soja, feijão e ervilha para criar produtos que imitam sabor, textura e aparência dos alimentos de origem animal.

  1. Fermentação

Usa microrganismos — fungos, algas e bactérias — para produzir proteínas com alto teor nutricional e baixo impacto ambiental. É uma das áreas mais promissoras no curto prazo.

  1. Carne cultivada

É carne real, mas produzida em biorreatores a partir de células animais. Reproduz o mesmo processo biológico que ocorre no corpo de um animal, só que sem a necessidade de pecuária intensiva.

Para o consumidor, isso significa maior oferta, menor impacto e alimentos com menos resíduos ambientais. Para o planeta, significa acelerar a transição para sistemas alimentares compatíveis com o clima.

Alerta: o potencial climático dessas proteínas é gigantesco

Estudos internacionais colocam as proteínas alternativas entre as soluções de maior impacto imediato para reduzir emissões. O Banco Mundial afirma que elas são a segunda intervenção mais promissora no setor agroalimentar.

Veja como esse impacto se traduz em números:

Até 6,1 bilhões de toneladas de CO₂ podem deixar de ser emitidas por ano.

Isso equivale a reflorestar uma área maior que Amazonas + Pará + Mato Grosso + Minas Gerais + Bahia juntos.

Se apenas 11% do consumo global de carnes for substituído até 2035, podemos evitar 850 milhões de toneladas de CO₂ — o equivalente a descarbonizar toda a aviação mundial.

Ou seja: a crise climática não será controlada sem mexer no prato. E proteínas alternativas são uma das poucas soluções capazes de escalar rápido.

Financiamento: o ponto fraco da transição

Apesar do potencial, falta dinheiro — muito dinheiro.

Um relatório do CSIS estima que seriam necessários US$ 10,1 bilhões por ano para destravar pesquisa, inovação e escala industrial.

Desse valor:

  • US$ 5,7 bilhões iriam para incentivar empresas privadas.
  • US$ 4,4 bilhões seriam destinados a pesquisa e desenvolvimento.

Comparando com outros setores, o contraste impressiona:

A Volkswagen planeja investir €120 bilhões em carros elétricos. A GM promete US$ 35 bilhões para veículos elétricos e autônomos.

Enquanto isso, as proteínas alternativas seguem com recursos mínimos — mesmo sendo decisivas para reduzir emissões e tornar o sistema alimentar sustentável.

Como a COP vem mudando o debate global

A COP27, realizada no Egito, foi a primeira a incluir sistemas alimentares como tema oficial. Foi um marco: pela primeira vez, mitigação e adaptação climática passaram a ser discutidas dentro da agricultura.

Na COP28, mais de 160 países, incluindo o Brasil, reconheceram oficialmente que a agricultura precisa estar no centro das ações climáticas — e que os países devem incluir metas específicas para o setor em suas NDCs.

Mas ainda falta avançar em dois pontos essenciais:

  • Regulamentação clara para o setor de proteínas alternativas
  • Financiamento robusto para tecnologia, escala industrial e acessibilidade

Enquanto isso não acontece, o setor avança, mas muito aquém do potencial que poderia entregar.

Veja como o Brasil pode liderar essa transformação

Com a COP30 no país, o Brasil tem a chance de assumir a liderança global do tema. Mas, segundo Guadagnini, isso só acontecerá se fizermos isso de forma estratégica — desenvolvendo tecnologia própria, usando ingredientes locais e fortalecendo centros de pesquisa brasileiros.

O país já tem:

  • Embrapa
  • Ital
  • Universidades de excelência
  • A maior biodiversidade do planeta

Não faz sentido depender de ingredientes importados, como a ervilha usada em hambúrgueres vegetais estrangeiros. O Brasil pode — e deve — usar suas próprias espécies e subprodutos.

Um exemplo é a fibra de caju, desenvolvida em parceria entre GFI e Embrapa. O bagaço, geralmente descartado, é limpo, desidratado, moído e transformado em um ingrediente versátil que pode imitar carne vegetal e outros alimentos.

Além de reduzir impactos ambientais, a tecnologia gera renda sustentável para agricultores familiares do Nordeste, onde o cajueiro-anão é resistente à seca e se adapta ao clima da região.

As proteínas alternativas deixaram de ser tendência e viraram necessidade climática. Com potencial para reduzir emissões, fortalecer economias locais e criar sistemas alimentares mais resilientes, elas podem redefinir o futuro da alimentação — e o Brasil tem tudo para liderar essa revolução. Agora, com os holofotes da COP30 voltados para Belém, fica a pergunta: vamos aproveitar essa chance histórica ou continuar repetindo um modelo que já sabemos que não funciona?

[Fonte: CNN Brasil]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados