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Ciência

Por que tantas mulheres só descobrem o autismo anos depois

Um levantamento com milhões de pessoas desafia uma ideia antiga sobre o autismo. Os dados revelam um padrão inesperado nos diagnósticos ao longo da vida e levantam novas perguntas sobre como identificamos o transtorno.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, uma explicação simples dominou livros, consultórios e estatísticas: o autismo seria muito mais comum em meninos do que em meninas. Essa diferença parecia tão clara que raramente era questionada. Mas um novo estudo, baseado em uma das maiores bases de dados já analisadas, sugere que a realidade pode ser bem mais complexa — e que o problema talvez não esteja na incidência do transtorno, mas na forma como ele é reconhecido.

Os números que começaram a desmontar um consenso

Por que tantas mulheres só descobrem o autismo anos depois
© Pexels

A ideia de que o autismo afeta majoritariamente meninos sempre se apoiou em proporções amplamente divulgadas, que chegaram a apontar quatro diagnósticos masculinos para cada feminino. No entanto, uma análise recente com mais de 2,7 milhões de pessoas acompanhadas desde o nascimento até a vida adulta começou a mostrar fissuras nesse consenso.

Na primeira infância, especialmente antes dos 10 anos, a diferença entre os sexos ainda aparece de forma clara. Nessa fase, os meninos são diagnosticados com mais frequência, mantendo uma proporção próxima de três para um. Mas esse cenário muda com o passar do tempo. À medida que crianças crescem e entram na adolescência, o número de diagnósticos entre meninas aumenta de forma consistente.

O dado mais surpreendente surge na transição para a vida adulta. Por volta dos 20 anos, a distância entre homens e mulheres praticamente desaparece. Em outras palavras, o que parecia uma diferença biológica expressiva começa a se mostrar, possivelmente, como um efeito do tempo e do acesso ao diagnóstico — e não da prevalência real do transtorno.

Diagnóstico tardio e um viés histórico

Um dos pontos centrais do estudo é a idade em que o autismo costuma ser identificado. Enquanto muitos meninos recebem o diagnóstico ainda na infância, meninas tendem a ser reconhecidas apenas na adolescência ou até mais tarde. Essa defasagem levanta uma pergunta antiga entre especialistas: por que elas demoram mais a ser diagnosticadas?

Parte da resposta pode estar nos próprios critérios clínicos. Historicamente, as descrições e instrumentos usados para identificar o transtorno do espectro autista foram construídos com base em padrões observados principalmente em meninos. Isso significa que manifestações mais comuns em meninas podem passar despercebidas ou ser interpretadas de outra forma.

Além disso, estudos apontam que meninas com formas mais leves do transtorno desenvolvem estratégias de adaptação social desde cedo. Elas aprendem a imitar comportamentos, aprimorar a comunicação não verbal e “camuflar” dificuldades para se encaixar em expectativas sociais. Esse fenômeno, conhecido como camuflagem, dificulta ainda mais o reconhecimento clínico.

O papel da cultura e das expectativas sociais

Os papéis de gênero também entram nessa equação. Desde cedo, espera-se que meninas sejam mais sociáveis, empáticas e cuidadoras. Essas expectativas moldam comportamentos — inclusive em crianças dentro do espectro autista. O resultado é que sinais sutis podem ser interpretados como traços de personalidade, e não como indícios de um transtorno do neurodesenvolvimento.

Isso ajuda a explicar por que muitos diagnósticos femininos só acontecem na adolescência ou na vida adulta, quando as demandas sociais aumentam e as estratégias de camuflagem deixam de ser suficientes. Nesse momento, dificuldades acumuladas podem se manifestar como ansiedade, depressão ou outros problemas de saúde mental, levando à busca tardia por ajuda.

Especialistas ressaltam que isso não significa que o autismo seja raro em meninas, mas que ele pode se apresentar de maneira diferente — e, por isso, escapar aos modelos tradicionais de detecção.

O que muda ao entender o autismo como espectro

Ao longo do século XX, o autismo deixou de ser visto como uma condição única e passou a ser compreendido como um espectro, com diferentes níveis de suporte e impacto na vida cotidiana. Há pessoas com comprometimentos profundos, que necessitam de apoio constante, e outras que conseguem levar uma vida independente, ainda que enfrentem desafios invisíveis.

Essa diversidade torna o diagnóstico ainda mais complexo. Não existe um exame biológico definitivo para identificar o autismo. A avaliação é clínica, baseada em observação, histórico e comportamento. Isso abre espaço para subjetividades, vieses e atrasos — especialmente em casos menos evidentes.

Identificar o transtorno, mesmo tardiamente, pode ter um impacto profundo. Para muitas pessoas adultas, o diagnóstico traz alívio, compreensão e uma nova leitura de experiências passadas. Estudos como este não apenas ajustam estatísticas, mas ajudam a repensar como a sociedade enxerga, reconhece e acolhe a neurodiversidade.

[Fonte: El Pais]

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