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Como os homens podem ajudar a dividir a carga mental dentro de casa

Planejar refeições, lembrar compromissos dos filhos e antecipar problemas são tarefas invisíveis que ainda recaem principalmente sobre as mulheres. Especialistas explicam como dividir melhor essa responsabilidade.
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Tempo de leitura: 4 minutos

“Minha cabeça está sempre cheia”, conta Stacie Matthias, mãe de três filhos. Antes de dormir, ela costuma repassar mentalmente tudo o que ainda precisa fazer.

Essa sensação tem nome: carga mental. O conceito descreve o esforço de planejar, organizar, lembrar e antecipar as inúmeras tarefas necessárias para manter uma casa e uma família funcionando.

Isso inclui acompanhar mensagens da escola, marcar consultas médicas, verificar o que falta na geladeira, comprar uniformes e perceber o que precisa ser limpo. Em casais heterossexuais, pesquisas indicam que grande parte desse trabalho invisível ainda fica com as mulheres.

Um trabalho que continua mesmo quando ninguém percebe

Grupos De Whatsapp De Pais Podem Ajudar Na Escola — Mas Também Prejudicar A Autonomia Dos Filhos
© Annie Spratt – Unsplash

Uma pesquisa com 3 mil pais e mães americanos, conduzida por pesquisadores das universidades de Bath e Melbourne, descobriu que as mães assumiam 71% das tarefas domésticas que exigiam esforço mental.

São atividades como lembrar quando trocar lençóis e toalhas ou saber quais alimentos estão disponíveis para preparar as refeições.

Os homens apareciam com maior frequência em tarefas consideradas episódicas, realizadas apenas ocasionalmente, como lembrar quando levar o carro à oficina.

Leah Ruppaner, professora da Universidade de Melbourne, define a carga mental como invisível, persistente e praticamente sem limites. Afinal, uma pessoa pode deixar a louça suja em casa quando vai trabalhar, mas continua carregando mentalmente tudo o que precisa resolver.

O problema também aparece nos grupos escolares. Algumas mães relatam serem automaticamente adicionadas aos grupos de WhatsApp dos pais, enquanto seus parceiros sequer participam das conversas.

Não basta perguntar “o que eu posso fazer?”

Sophia, mãe de três filhos, conta que paga excursões e encomenda refeições escolares pelo aplicativo da escola. Seu marido, porém, nunca instalou o app.

Para ela, tarefas que parecem rápidas escondem várias etapas: perceber que algo precisa ser feito, planejar, antecipar problemas e finalmente executar.

Sam Berry, pai de dois filhos, admite que demorou para entender essa diferença. Após o nascimento do primeiro filho, acreditava que trocar fraldas, alimentar o bebê e perguntar à esposa como poderia ajudar já representavam uma divisão adequada.

Depois percebeu o problema: perguntar constantemente o que precisa ser feito mantém na outra pessoa a responsabilidade de gerenciar tudo.

A diferença está em assumir uma tarefa completa. Preparar o jantar, por exemplo, não significa apenas cozinhar. Também envolve verificar os alimentos disponíveis, decidir a refeição, comprar o que falta, preparar e organizar tudo.

Carga mental pode levar ao esgotamento

A psicóloga clínica Natasha Wallace explica que muitas mulheres chegam ao consultório não por causa de um único problema, mas pelo acúmulo de centenas de pequenas exigências.

Como muitas funcionam no piloto automático, nem sempre percebem a dimensão desse esforço cognitivo. Com o tempo, o estresse constante pode contribuir para insônia, irritabilidade, cansaço e dificuldade para tomar decisões.

Os efeitos também chegam ao trabalho.

Anita Cleare, especialista em parentalidade, afirma que reduzir a carga doméstica pode liberar energia e capacidade mental para a vida profissional. Caso contrário, algumas mulheres acabam diminuindo a jornada, desacelerando a carreira ou deixando o mercado de trabalho.

Como nasce o “progenitor padrão”

Parte dessa desigualdade pode começar logo após o nascimento dos filhos. Como as mulheres normalmente passam mais tempo afastadas do trabalho após o parto, elas frequentemente se tornam o “progenitor padrão”.

São elas que aprendem onde estão as coisas, conhecem horários, médicos, rotinas e necessidades da criança. Mesmo depois do retorno ao trabalho, familiares, escolas e outras instituições continuam recorrendo primeiro à mãe.

Papéis tradicionais também influenciam esse comportamento.

Zach Watson, especialista em divisão da carga mental, conta que durante os primeiros anos de casamento sua esposa quase sempre cozinhava. Quando ele se oferecia para preparar algo, perguntava o que ela queria comer. Só depois percebeu que até essa pergunta transferia novamente a decisão para ela.

Uma alternativa seria verificar primeiro o que existe em casa, pensar em opções e assumir a responsabilidade pela refeição.

Dividir responsabilidades do começo ao fim

Crianças Que Andam De Bicicleta Antes Dos 6 Anos Podem Desenvolver Melhor Uma Habilidade Importante
© Getty Images – Unsplash

Uma das estratégias sugeridas por especialistas é dividir não apenas tarefas isoladas, mas categorias inteiras.

Um dos parceiros pode assumir completamente os assuntos escolares, por exemplo, enquanto o outro fica responsável pelas refeições. Isso inclui planejar, acompanhar mensagens, lembrar prazos e resolver problemas sem depender de lembretes.

A divisão também não precisa necessariamente ser de 50% para cada pessoa. Jornadas de trabalho, habilidades e preferências são diferentes. O importante é que ambos considerem a distribuição justa e sustentável.

Calendários compartilhados também podem ajudar com aniversários, reuniões escolares, consultas e outros compromissos. Além disso, o casal pode conversar regularmente sobre quais responsabilidades estão pesando mais.

Para quem sempre controlou grande parte da rotina familiar, existe outro desafio: aceitar que o parceiro provavelmente fará algumas coisas de maneira diferente — e eventualmente cometerá erros.

No fim, compartilhar a carga mental exige mais do que ajudar quando alguém pede. Significa perceber sozinho o que precisa ser feito, tomar decisões e assumir responsabilidades do início ao fim. Só assim o trabalho invisível necessário para manter uma família funcionando deixa de ficar concentrado na cabeça de uma única pessoa.

 

[ Fonte: BBC ]

 

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