Pular para o conteúdo
Ciência

Como serão os seres humanos do futuro? A ciência explica o que pode mudar na nossa evolução

Os seres humanos continuam evoluindo, mas não da mesma forma que no passado. Especialistas afirmam que fatores como genética, globalização e até a edição do DNA poderão transformar profundamente nossa espécie nas próximas milhares de gerações.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

É comum imaginar que a evolução humana terminou quando a medicina moderna passou a combater doenças, a produção de alimentos se tornou mais eficiente e as condições de vida melhoraram.

Mas, segundo os cientistas, isso está longe de ser verdade.

Os seres humanos continuam evoluindo. A diferença é que as pressões evolutivas atuais são muito diferentes das que moldaram nossos ancestrais.

Para Jason Hodgson, antropólogo e geneticista evolutivo da Universidade Anglia Ruskin, no Reino Unido, a evolução acontece de forma “inequívoca” ainda hoje.

Segundo ele, isso pode ser observado porque determinados genes estão se tornando mais frequentes em algumas populações ao longo das gerações.

Como essas mudanças levam milhares de anos, ninguém consegue perceber um processo evolutivo durante a própria vida.

A alimentação continua influenciando a evolução humana

Alimentação Diária
© Roman Odintsov

Um dos exemplos mais claros de evolução recente envolve a capacidade de digerir leite na vida adulta.

Segundo Briana Pobiner, paleoantropóloga do Museu Nacional de História Natural Smithsonian, atualmente cerca de um terço da população mundial consegue digerir lactose depois da infância.

Entre 5 mil e 10 mil anos atrás, quase ninguém possuía essa característica.

A mudança ocorreu quando diversas populações começaram a criar animais para produção de leite.

Durante períodos de escassez de alimentos, pessoas capazes de aproveitar esse alimento rico em proteínas e gorduras tinham maiores chances de sobreviver e transmitir seus genes aos descendentes.

Como consequência, essa característica se espalhou rapidamente em diferentes regiões do planeta.

Migrações também moldaram o corpo humano

Ao longo da história, o ambiente exerceu enorme influência sobre a evolução da nossa espécie.

Quando grupos humanos deixaram a África e passaram a ocupar regiões com diferentes climas, novas adaptações começaram a surgir.

Um exemplo clássico é a pele mais clara desenvolvida por populações que viviam em locais com menor incidência de radiação ultravioleta, favorecendo a produção de vitamina D.

Hoje, porém, a globalização alterou esse cenário.

As migrações e a mistura entre populações reduziram parte do isolamento geográfico que favorecia o surgimento de diferenças biológicas regionais.

Mesmo assim, outros fatores continuam influenciando a evolução.

A escolha dos parceiros também influencia os genes

Jogo Do Amor1
© Gustavo Fring – Pexels

Hodgson estuda um fenômeno conhecido como acasalamento seletivo, que ocorre quando indivíduos tendem a escolher parceiros com características semelhantes às suas.

Segundo ele, esse comportamento pode reforçar os efeitos da seleção natural.

Pesquisas mostram, por exemplo, que pessoas mais altas têm maior probabilidade de formar casais com indivíduos igualmente altos.

O mesmo pode ocorrer com características como:

  • peso corporal;
  • formato do rosto;
  • origem étnica;
  • outros traços físicos.

Essas escolhas sociais acabam influenciando a frequência de determinados genes nas populações ao longo do tempo.

A tecnologia pode assumir o controle da evolução

Nem todas as mudanças físicas afetam a evolução biológica.

Ganhar massa muscular na academia, usar aparelho ortodôntico ou realizar procedimentos estéticos altera a aparência de uma pessoa, mas não modifica os genes transmitidos aos filhos.

Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), foram realizados aproximadamente 38 milhões de procedimentos estéticos, cirúrgicos e não cirúrgicos, em todo o mundo em 2024 — um aumento de 40% em relação a 2020.

Para Thomas Mailund, ex-professor de bioinformática da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, isso significa que nossa aparência já nem sempre corresponde exatamente ao que nossos genes determinariam naturalmente.

Edição genética pode transformar o futuro da humanidade

Genes
© vchal via Shutterstock

Um dos avanços mais promissores é a tecnologia CRISPR, capaz de editar o DNA com alta precisão.

Conhecida como uma espécie de “tesoura molecular”, ela já é utilizada para tratar algumas doenças genéticas, especialmente certos distúrbios sanguíneos.

No futuro, caso a técnica se torne totalmente segura, os cientistas acreditam que ela poderá permitir a modificação deliberada de características hereditárias.

Se essas alterações forem realizadas em células reprodutivas — como óvulos e espermatozoides — elas poderão ser transmitidas às próximas gerações.

No entanto, essa possibilidade ainda levanta profundas questões éticas.

Entre elas estão:

  • a criação de “bebês sob medida”;
  • a escolha de características físicas;
  • a eliminação de determinadas condições genéticas;
  • o risco de aumentar preconceitos contra pessoas com deficiência.

Segundo Hodgson, atualmente existe praticamente um consenso científico de que esse tipo de edição genética em embriões humanos não deve ser realizado.

Mesmo assim, ele acredita que esse debate poderá mudar no futuro.

Em sua visão, daqui a milhares de anos talvez seja considerado antiético justamente deixar de eliminar doenças hereditárias quando isso for possível.

Os humanos poderão se tornar uma nova espécie?

Para Thomas Mailund, prever exatamente como serão os seres humanos do futuro é impossível, pois tudo depende das mudanças ambientais que ainda irão ocorrer.

Em escalas de tempo muito longas, porém, uma possibilidade existe.

Nossa espécie pode dar origem a uma nova espécie humana.

Há cerca de 1 milhão de anos, o planeta era habitado pelo Homo erectus.

Já o Homo sapiens surgiu apenas há aproximadamente 300 mil anos.

Segundo Mailund, se esperarmos outro milhão de anos, nossos descendentes poderão estar tão distantes de nós quanto o Homo erectus está atualmente.

Ele também levanta outra hipótese interessante.

Caso grupos humanos passem milhares de gerações vivendo em ambientes completamente diferentes, como a Lua ou Marte, o isolamento e as condições locais — especialmente a menor gravidade — poderão acelerar processos evolutivos distintos.

Ainda assim, isso só aconteceria se essas populações permanecessem separadas da Terra por um período extremamente longo.

No fim das contas, talvez a maior transformação da evolução humana não venha da natureza, mas da própria tecnologia.

Como resume Mailund, a grande questão do futuro talvez deixe de ser o que a biologia fará conosco e passe a ser o que nós escolheremos fazer com a nossa própria biologia.

 

[ Fonte: BBC ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados