A criação gentil está estragando as crianças? O debate ganhou força depois de episódios envolvendo filhos que aparentemente não aceitam limites e pais que parecem negociar absolutamente tudo. Para alguns críticos, seria o resultado de uma geração educada sem autoridade.
O problema é que isso não corresponde exatamente ao conceito de gentle parenting. Em sua essência, a abordagem combina duas coisas: acolhimento emocional e limites claros. Esse modelo se aproxima do que a psicologia chama de parentalidade autoritativa, associada há décadas a melhores resultados no desenvolvimento infantil.
A confusão começa quando respeitar as emoções da criança passa a ser interpretado como permitir que ela faça tudo o que quiser.
Crianças precisam de carinho, mas também de limites
Décadas de pesquisas sobre desenvolvimento infantil indicam que crianças se beneficiam de ambientes que combinam alta responsividade emocional com estrutura e regras previsíveis.
Isso significa reconhecer sentimentos sem necessariamente aceitar qualquer comportamento.
Uma criança pode estar com medo de colocar o cinto de segurança, por exemplo. O adulto pode reconhecer esse medo e ajudá-la a enfrentá-lo. Mas a regra continua existindo: viajar sem cinto não é uma opção.
Limites relacionados à segurança não devem se transformar em negociações intermináveis.
O mesmo princípio pode ser aplicado a horários, rotinas e comportamentos. Quando uma criança muito pequena passa a decidir quando vai dormir ou quais regras familiares serão cumpridas, a aparente liberdade pode acabar produzindo insegurança.
O que significa “emprestar a calma” para uma criança
Um conceito importante nesse modelo é a chamada corregulação.
O sistema nervoso de crianças pequenas ainda está em desenvolvimento. Durante uma crise emocional intensa, elas podem não conseguir recuperar o controle sozinhas.
É aí que entra o adulto.
Em vez de responder com gritos ou tentar racionalizar imediatamente a situação, o cuidador procura manter a própria calma enquanto estabelece os limites necessários.
A criança experimenta uma emoção intensa, encontra um adulto que reconhece esse sentimento sem permitir comportamentos inadequados e, aos poucos, aprende a retornar ao equilíbrio.
Com o tempo, esse processo ajuda no desenvolvimento da autorregulação.
Pesquisas sobre estilos parentais começaram há décadas
Nos anos 1960, a psicóloga Diana Baumrind realizou estudos que ajudaram a estabelecer diferentes estilos de criação.
De um lado estava o modelo autoritário, caracterizado por regras rígidas e pouca abertura emocional. Do outro, o permissivo, no qual existem poucas regras ou consequências consistentes.
Entre os dois aparece a parentalidade autoritativa: pais emocionalmente disponíveis, mas que mantêm limites claros.
Esse equilíbrio tem sido associado a melhores resultados emocionais, sociais e cognitivos nas crianças.
Pesquisas do psicólogo John Gottman também reforçaram a importância do chamado treinamento emocional. A estratégia envolve ajudar crianças a identificar emoções, reconhecer seus sentimentos e encontrar maneiras de lidar com situações difíceis sem abandonar regras justas.
Gentle parenting não significa criação permissiva
Para alguns especialistas em comportamento infantil, boa parte das críticas atuais à criação gentil está direcionada, na realidade, a outra coisa: a parentalidade permissiva.
O problema aparece quando os adultos evitam qualquer conflito, transformam todas as regras em negociação e interpretam a autoridade parental como algo necessariamente negativo.
Nesse cenário, algumas crianças podem chegar à escola esperando que professores e outros adultos negociem constantemente regras e limites.
Ao mesmo tempo, tentar administrar cada emoção da criança perfeitamente também pode colocar uma pressão enorme sobre os pais.
Especialistas em saúde pública já alertaram para níveis elevados de esgotamento parental, um problema que pode ser agravado por expectativas irreais sobre como mães e pais deveriam agir em todas as situações.
Pais não precisam ser perfeitos
É justamente nesse ponto que uma ideia antiga da psicologia volta a fazer sentido.
O psicanalista Donald Winnicott popularizou o conceito do “pai ou mãe suficientemente bom”. A proposta reconhece algo simples: cuidadores cometem erros.
Pais podem perder a paciência, interpretar uma situação de maneira errada ou tomar uma decisão que depois gostariam de mudar.
Mais importante do que buscar uma perfeição impossível é reparar essas rupturas e manter uma relação segura e previsível.
Por isso, afirmar que a criação gentil está “estragando uma geração” simplifica demais o problema.
A evidência disponível não sugere que oferecer empatia e acolhimento emocional torne crianças incapazes de enfrentar frustrações. Pelo contrário: o equilíbrio entre afeto e limites consistentes está associado a um desenvolvimento mais saudável.
A questão central não é escolher entre autoridade ou empatia. Crianças precisam das duas coisas.
Elas precisam saber que suas emoções são importantes, mas também que existem limites que os adultos são responsáveis por estabelecer.