O uso criminoso da inteligência artificial parecia relativamente previsível: melhorar um e-mail de phishing, procurar informações sobre uma vítima ou ajudar a escrever determinado código. Essa fase pode estar ficando para trás. Um novo relatório do Google mostra criminosos e grupos de espionagem adotando sistemas muito mais autônomos, capazes de encadear tarefas, corrigir erros e acelerar operações inteiras. Em um dos casos observados, menos de seis horas foram suficientes.
O Google percebeu que os criminosos deixaram de apenas “perguntar” à IA
O alerta aparece no novo AI Threat Tracker 2026, relatório publicado pelo Google Threat Intelligence Group (GTIG).
A principal mudança identificada é relativamente fácil de entender.
Até recentemente, criminosos utilizavam modelos de linguagem principalmente como assistentes. Faziam uma pergunta, recebiam uma resposta e continuavam o ataque manualmente.
Agora, o Google observa uma transição de simples prompts para fluxos de trabalho com IA agêntica e automação.
Esses sistemas conseguem executar várias tarefas consecutivamente com muito menos intervenção humana.
Podem pesquisar um alvo, analisar informações, adaptar ferramentas, solucionar problemas encontrados durante uma invasão e continuar trabalhando.
Isso não significa que uma inteligência artificial esteja escolhendo sozinha quem atacar.
Humanos ainda estabelecem objetivos e controlam etapas importantes. Mas o intervalo entre uma decisão tomada pelo criminoso e a execução das diferentes tarefas pode diminuir drasticamente.
John Hultquist, analista-chefe do GTIG, resumiu o cenário de maneira contundente: neste momento, é razoável assumir que praticamente todos os tipos de agentes maliciosos já estão utilizando IA de alguma forma.
E um dos casos investigados mostra por que isso preocupa tanto os especialistas.
Um ataque que poderia levar muito mais tempo aconteceu em menos de seis horas

Durante o segundo trimestre de 2026, pesquisadores do Google acompanharam uma operação particularmente reveladora.
Depois de comprometer um recurso na nuvem, os invasores utilizaram um sistema com múltiplos agentes de IA para planejar, construir e executar uma campanha de roubo de credenciais em massa.
Todo o processo ocorreu em menos de seis horas.
A IA ajudou a automatizar atividades como varredura de sistemas, solução de problemas encontrados durante a operação e rotação de endereços IP.
Essa velocidade é importante porque segurança cibernética também é uma corrida contra o relógio.
Quando uma empresa detecta comportamento suspeito, precisa investigar, compreender o que está acontecendo e bloquear a atividade.
Se o atacante consegue automatizar grande parte desse processo, a janela disponível para a defesa diminui.
É justamente essa compressão do tempo que o Google considera uma das consequências mais relevantes da IA agêntica.
Os criminosos não precisam necessariamente descobrir vulnerabilidades completamente novas.
A tecnologia pode simplesmente permitir que façam mais rapidamente, em maior escala e com menos trabalho humano aquilo que hackers já faziam antes.
Até grupos menores podem ganhar capacidades antes reservadas aos mais sofisticados
Existe outra consequência importante.
Operações cibernéticas avançadas tradicionalmente exigem equipes especializadas, conhecimento técnico elevado e infraestrutura considerável.
A inteligência artificial começa a reduzir parte dessa barreira.
O Google identificou grupos ligados a espionagem utilizando modelos de linguagem para pesquisar alvos e solucionar dificuldades encontradas durante invasões. Também detectou tentativas de desenvolver sistemas automatizados de testes de segurança utilizando o Gemini.
Outras empresas chegaram a conclusões semelhantes.
Em relatório divulgado em setembro, a Anthropic afirmou que operações maliciosas observadas nos últimos meses utilizaram IA não apenas como assistente, mas também para executar ou coordenar reconhecimento, exploração e extração de dados. A empresa considera que estruturas antes associadas a operações sofisticadas estão se difundindo entre diferentes tipos de criminosos.
Isso pode mudar a lógica do cibercrime.
Um grupo pequeno não precisa se transformar magicamente em uma equipe de elite. Basta conseguir automatizar tarefas repetitivas e acelerar etapas técnicas para aumentar significativamente sua capacidade operacional.
Mas os próprios sistemas de inteligência artificial também estão virando alvos.
A IA virou arma — e também se tornou algo valioso para roubar
O relatório do Google destaca ataques contra modelos proprietários e infraestruturas relacionadas à inteligência artificial em setores como saúde, governo e mídia.
Entre os objetivos estão roubar credenciais de APIs, propriedade intelectual e recursos computacionais. Em alguns casos, criminosos sequestram ambientes de nuvem para executar cargas de IA sem pagar pelos recursos utilizados.
Existe ainda uma nova superfície de ataque criada pelos próprios agentes.
O grupo UNC6780, por exemplo, utilizou diferentes técnicas para enganar assistentes de programação e scanners de segurança baseados em modelos de linguagem durante ataques à cadeia de fornecimento de software aberto.
Isso cria uma situação peculiar.
Empresas adotam inteligência artificial para aumentar produtividade e melhorar suas defesas. Criminosos utilizam IA para atacar essas empresas. Ao mesmo tempo, passam a procurar vulnerabilidades nos próprios sistemas inteligentes implantados para ajudar funcionários e equipes de segurança.
É uma corrida na qual ambos os lados utilizam tecnologias semelhantes.
O maior perigo talvez seja a velocidade, não uma IA hacker completamente autônoma
O cenário descrito pelo Google não significa que já existam inteligências artificiais independentes percorrendo a internet e decidindo espontaneamente quais empresas atacar.
Essa distinção é fundamental.
Nos casos observados, seres humanos continuam participando das operações. O que mudou é a quantidade de trabalho que pode ser transferida para agentes e sistemas automatizados.
E isso talvez seja suficientemente preocupante.
Durante anos, uma das vantagens das equipes de segurança foi saber que determinados ataques exigiam tempo, especialistas e coordenação.
A inteligência artificial pode reduzir justamente essas limitações.
Um criminoso continua precisando escolher o alvo.
Mas, depois disso, uma máquina pode ajudar a pesquisar, testar, adaptar, corrigir e executar tarefas em uma velocidade impossível para uma única pessoa.
É por isso que o novo alerta do Google não depende de imaginar uma superinteligência maligna controlando computadores sozinha.
A ameaça já é muito mais concreta: os mesmos sistemas que tornam trabalhadores mais rápidos e produtivos também podem tornar criminosos mais rápidos e produtivos — e seis horas podem ser suficientes para mostrar o tamanho dessa diferença.
[Fonte: Marca]