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Ciência

Depois dos 40, estes hábitos podem mudar a forma como o cérebro envelhece

Esquecimentos e dificuldade de concentração podem surgir com a idade, mas algumas mudanças na rotina parecem ter efeitos muito mais profundos no cérebro do que se imaginava.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Esquecer por que entrou em um cômodo, perder o fio de uma conversa ou demorar mais para se concentrar são situações comuns na meia-idade. Embora possam causar preocupação, elas não significam necessariamente que o cérebro esteja condenado a perder capacidade de forma inevitável. Pesquisas mostram que esse órgão mantém uma característica surpreendente durante a vida adulta: a capacidade de se adaptar. E algumas escolhas cotidianas podem influenciar esse processo.

O cérebro adulto ainda consegue se adaptar

Essa possibilidade está ligada à neuroplasticidade, capacidade que permite ao cérebro aprender, reorganizar conexões e modificar determinadas estruturas e funções ao longo da vida. Ela não desaparece simplesmente porque uma pessoa deixou a juventude para trás.

A neuroplasticidade pode ocorrer de diferentes maneiras. Em alguns casos, envolve mudanças físicas nas conexões entre neurônios. Em outros, determinadas regiões podem assumir ou redistribuir funções quando outras são prejudicadas.

Isso não significa que qualquer dano cerebral possa ser revertido ou que uma mudança de hábito produza uma recuperação completa. O tipo, a intensidade e a duração do problema fazem diferença. Ainda assim, algumas pesquisas indicam que determinadas alterações positivas podem começar em poucas semanas e continuar ao longo de meses.

O consumo de álcool é um dos exemplos mais estudados. Pesquisas associam o consumo elevado e prolongado a alterações no cérebro, incluindo redução do volume do hipocampo, estrutura fundamental para processos relacionados à memória.

O dado mais interessante aparece quando os pesquisadores observam o que acontece depois que o consumo é interrompido. Estudos indicam que alguns mecanismos de recuperação podem começar relativamente cedo e continuar durante seis a 12 meses ou até mais.

Uma revisão envolvendo pessoas com transtorno por uso de álcool encontrou, após sete meses de abstinência, aumento significativo da espessura cortical em 25 das 34 regiões analisadas.

É importante, porém, fazer uma ressalva: pessoas com dependência alcoólica não devem interromper o consumo abruptamente sem orientação profissional, pois a abstinência pode apresentar riscos.

Exercício não trabalha apenas os músculos

A atividade física aparece como outro fator potencialmente importante para preservar e estimular a saúde cerebral.

Em um estudo com 120 adultos mais velhos e sedentários, os participantes foram divididos entre um grupo que praticava exercícios aeróbicos e outro que realizava alongamentos e exercícios de tonificação. Depois de um ano, o grupo aeróbico apresentou aumento de aproximadamente 2% no volume do hipocampo.

Os pesquisadores estimaram que essa mudança poderia representar uma recuperação equivalente a cerca de um ou dois anos de redução relacionada ao envelhecimento.

Uma possível explicação envolve o aumento do fluxo sanguíneo provocado pelos exercícios cardiovasculares. Com maior circulação, o cérebro recebe mais oxigênio e nutrientes.

Mas não é preciso limitar essa estratégia à caminhada, corrida ou bicicleta. Estudos também associam o treinamento de força regular a níveis mais elevados de BDNF, proteína envolvida em processos de neuroplasticidade. Também foram observadas relações com conectividade funcional e determinados aspectos da memória.

A mensagem é interessante: movimentar o corpo pode ter efeitos que vão muito além da saúde cardiovascular ou da manutenção da massa muscular.

Aprender algo difícil pode ser outro estímulo

Manter o cérebro intelectualmente ativo é outra estratégia estudada por pesquisadores. Aprender um novo idioma, começar a tocar um instrumento ou desenvolver uma habilidade desconhecida exige atenção, memória e adaptação constante.

Uma recomendação apresentada por especialistas é dedicar cerca de 20 a 30 minutos, três ou quatro vezes por semana, a uma atividade que ainda não seja dominada. O objetivo não é simplesmente passar o tempo, mas colocar o cérebro diante de um desafio real.

Pesquisas já observaram mudanças em regiões relacionadas à memória depois de períodos relativamente curtos de aprendizagem intensa. Um estudo com estudantes de Medicina, por exemplo, identificou alterações no volume de uma área do hipocampo entre avaliações realizadas antes e depois de uma fase de preparação para provas.

Isso sugere que o cérebro pode responder fisicamente à experiência de aprender, mesmo na idade adulta.

Parar de fumar pode desacelerar algumas perdas

O cigarro também está relacionado a alterações cerebrais. O tabagismo afeta os vasos sanguíneos responsáveis por levar oxigênio e nutrientes ao cérebro e está associado a inflamação e estresse oxidativo.

Análises de dados do UK Biobank encontraram uma forte associação entre o histórico de fumar diariamente e menor volume cerebral. Porém, abandonar o hábito pode alterar essa trajetória.

Pesquisas indicam que alguns efeitos neuroquímicos relacionados ao tabagismo crônico podem começar a se aproximar dos níveis observados em não fumantes durante as semanas e meses posteriores à interrupção.

Um estudo publicado em 2025, envolvendo mais de 9.000 fumantes com 40 anos ou mais, também encontrou uma diferença importante: pessoas que haviam parado de fumar apresentaram uma redução mais lenta da memória e da fluência verbal nos anos seguintes em comparação com aquelas que continuaram fumando.

A alimentação também entra nessa equação

A dieta completa o conjunto de hábitos investigados. Entre os padrões que despertam interesse está a dieta MIND, que combina características das dietas mediterrânea e DASH.

O modelo prioriza verduras, frutas vermelhas, cereais integrais, leguminosas, castanhas e peixes ricos em gordura, enquanto recomenda limitar carne vermelha e alimentos ultraprocessados.

Em um ensaio com 37 mulheres com obesidade, três meses seguindo esse padrão foram associados a melhorias em memória, reconhecimento verbal e atenção. Os pesquisadores também observaram aumento no volume de uma região do lobo frontal relacionada à linguagem e ao controle dos impulsos.

Nenhum desses resultados significa que seja possível simplesmente “rejuvenescer” o cérebro. A ciência é mais cautelosa. O que os estudos sugerem é que o cérebro adulto continua capaz de responder ao ambiente e aos hábitos.

O cérebro pode mudar de rumo na meia-idade, ao menos parcialmente. Exercitar-se, aprender novas habilidades, abandonar o cigarro, moderar ou interromper o consumo de álcool quando indicado e adotar uma alimentação de melhor qualidade podem favorecer processos associados à plasticidade e à preservação cerebral.

A grande descoberta talvez não seja a existência de uma fórmula para recuperar um cérebro jovem, mas algo mais realista: algumas escolhas feitas hoje ainda podem influenciar a trajetória desse órgão nos próximos anos.

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