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COP30: crime organizado desafia proteção ambiental na Amazônia

Às vésperas da COP30, em Belém, cresce a preocupação com o papel do crime organizado na devastação da Amazônia. Grupos como o Comando Vermelho expandem suas operações em mineração ilegal, narcotráfico e extorsão, colocando em risco não apenas comunidades locais, mas também compromissos climáticos internacionais.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A COP30, prevista para ocorrer em Belém, coloca o Brasil no centro do debate global sobre mudanças climáticas. Porém, além das discussões diplomáticas, há um obstáculo concreto que ameaça o futuro da floresta: o crime organizado. Facções como o Comando Vermelho (CV) tornaram-se protagonistas de atividades que impulsionam a destruição ambiental, explorando a ausência do Estado, o avanço do garimpo ilegal e o narcotráfico. Entender essa dinâmica é crucial para compreender o desafio real da proteção da Amazônia.

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Um estudo da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), publicado em outubro, aponta que o narcotráfico, a mineração ilegal e a exploração de pessoas são hoje as principais ameaças para o meio ambiente e as populações amazônicas.
Segundo o relatório, o cenário que favorece o avanço do crime é complexo: envolve o aumento internacional do preço do ouro, a histórica baixa presença estatal em áreas remotas e a proximidade com fronteiras de países como Colômbia, Peru, Venezuela, Bolívia, Equador, Suriname e Guiana. Essa combinação permite fluxos ilícitos quase sem resistência, tanto de minérios quanto de armas e drogas.

Expansão de facções e alianças locais

Em dezembro de 2024, o FBSP já havia sinalizado o mesmo diagnóstico no estudo Cartografias da Violência na Amazônia 2024. O documento descreve um cenário “alarmante”, no qual a disputa territorial entre facções gera assassinatos, intimidação e controle de atividades econômicas.
A organização destaca que o crime organizado já não atua apenas nas margens da economia, mas ocupa cadeias de valor, incluindo transporte fluvial, comércio e garimpo. O resultado é a transformação da Amazônia em um território onde a lógica das facções substitui a do Estado.
Hoje, grupos do Sudeste como o Comando Vermelho operam em ao menos 260 municípios amazônicos. Em cerca de metade deles, segundo o FBSP, o domínio do CV é direto.

Belém sob pressão antes da COP30

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Belém, cidade-sede da conferência climática, também vive essa tensão. Reportagem do The Intercept Brasil revelou que, pouco antes da abertura da COP, o CV teria ordenado a suspensão de obras de ampliação de uma subestação elétrica responsável por abastecer parte da cidade.
O episódio levou o Ministério de Minas e Energia a solicitar reforço de segurança.
Moradores relatam que, em vários bairros, comerciantes pagam taxa de “proteção”, regras são divulgadas por WhatsApp e o silêncio é imposto sob ameaça.
Após a operação policial em uma favela do Rio de Janeiro, em 29 de outubro, que deixou mais de 120 mortos — muitos ligados ao CV — temia-se represálias na capital paraense.

Em resposta, o governo Lula autorizou o emprego das Forças Armadas na chamada operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) durante a COP30, modelo já usado em eventos como G20 e BRICS.

Da prisão à floresta: origem do Comando Vermelho

O Comando Vermelho surgiu durante a ditadura militar, quando presos políticos e criminosos comuns dividiram a penitenciária de Cândido Mendes, perto do Rio de Janeiro. A convivência gerou uma organização que, inicialmente, buscava proteção interna e melhores condições na cadeia.
Quatro décadas depois, o grupo se tornou uma das facções mais poderosas da América Latina, articulando tráfico internacional, garimpo clandestino e redes de lavagem financeira.

Após a operação no Rio, o Congresso instalou, em novembro, uma CPI para investigar a infiltração do crime organizado em instituições públicas e privadas.

O desafio ambiental é também um desafio de segurança

A destruição da Amazônia não é apenas efeito da exploração econômica predatória, mas resultado de estruturas criminosas consolidadas. Proteger a floresta implica reforçar presença estatal, garantir proteção a comunidades tradicionais e enfrentar, de forma coordenada, as redes que lucram com a devastação.
Sem isso, qualquer acordo climático pode se tornar apenas promessa no papel.

 

[ Fonte: DW ]

 

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