O Peru vive mais um terremoto político. Com 122 votos a favor e apenas oito contrários, o Congresso destituiu a presidenta Dina Boluarte, encerrando de forma abrupta um mandato marcado por impopularidade, denúncias de corrupção e crises sucessivas. Em seu lugar, o presidente do Legislativo, José Jerí, assumiu interinamente o poder, enquanto o país se prepara para novas eleições em 2026.
Uma queda relâmpago no Congresso
O plenário do Congresso peruano aprovou na noite de quinta-feira (9) quatro moções de vacância que declararam a “incapacidade moral permanente” da presidenta. A decisão superou com folga o mínimo de 87 votos necessários para afastá-la. Dina Boluarte, que não compareceu à sessão para se defender, foi removida após uma votação de apenas algumas horas — um desfecho relâmpago mesmo para os padrões políticos de Lima.
José Jerí, presidente do Congresso e membro da direita peruana, foi empossado imediatamente como chefe de Estado interino. Com isso, o Peru repete um roteiro que se tornou quase rotina: desde 2018, quatro presidentes foram destituídos antes de concluir seus mandatos.
Da vice de Castillo à presidenta mais impopular da América Latina
Advogada de 63 anos e natural de Apurímac, Dina Boluarte chegou ao poder em dezembro de 2022, após a destituição e prisão de Pedro Castillo, de quem era vice. Seu governo começou prometendo estabilidade, mas rapidamente perdeu apoio popular e político. Sem partido, sem bancada e cercada por aliados circunstanciais da direita conservadora, Boluarte viu sua aprovação despencar a apenas 3% — o índice mais baixo da região.
Apelidada por opositores de “presidenta dos relógios” após o escândalo do Rolexgate, ela acumulou denúncias de enriquecimento ilícito, corrupção e abuso de poder. Mesmo assim, conseguiu permanecer quase três anos no cargo graças ao apoio temporário de partidos como Fuerza Popular, de Keiko Fujimori.
O ataque que precipitou a queda
O estopim político veio após um ataque a tiros durante um show do popular grupo de cumbia Agua Marina, realizado em um clube militar de Lima. Quatro músicos e um vendedor ficaram feridos, provocando indignação nas redes sociais e intensificando as críticas à incapacidade do governo de conter a criminalidade crescente.
A tragédia serviu como catalisador para a união dos blocos parlamentares — inclusive os que antes sustentavam o governo. Em menos de uma semana, as quatro moções de destituição foram fundidas em uma só e levadas a votação.
Investigações, escândalos e cirurgias secretas
Durante seu mandato, a Procuradoria abriu múltiplas investigações contra Boluarte. Ela é acusada de homicídio e até genocídio pela repressão violenta às manifestações entre 2022 e 2023, que deixaram mais de 50 mortos. Também é investigada por supostamente favorecer a fuga de Vladimir Cerrón, líder do partido marxista Peru Libre, e por não ter informado ao Congresso sobre uma série de cirurgias estéticas realizadas em segredo.
A lista de controvérsias inclui ainda encontros suspeitos com a ex-procuradora Patricia Benavides, acusada de chefiar uma rede de corrupção dentro do Ministério Público. Embora o Tribunal Constitucional tenha suspendido as investigações até o fim de seu mandato, a destituição agora elimina a imunidade que a protegia.
Um país preso no mesmo ciclo
A saída de Dina Boluarte reforça o padrão de instabilidade que assombra o Peru. Desde Pedro Pablo Kuczynski, em 2018, nenhum presidente conseguiu terminar o mandato. O país enfrenta um ciclo crônico de crise política, com instituições frágeis e uma população exausta de promessas frustradas.
Com o Congresso no comando interino e eleições marcadas para 2026, o Peru entra em mais uma fase de incerteza — entre a esperança de renovação e o temor de que a história volte a se repetir.
[ Fonte: DW ]