A ameaça invisível da acidificação oceânica
Os dentes dos tubarões são algumas das armas mais afiadas da natureza. Porém, um estudo publicado na revista Frontiers in Marine Science revela que eles estão perdendo resistência diante da acidificação dos oceanos — um processo acelerado pelas mudanças climáticas.
A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Heinrich Heine de Düsseldorf (Alemanha), mostra que a redução do pH da água deixa os dentes mais frágeis, com maior propensão a quebras, rachaduras e corrosão.
Atualmente, o pH médio dos oceanos está em 8,1, mas os modelos climáticos projetam que, até 2300, ele poderá cair para 7,3, tornando a água quase dez vezes mais ácida do que hoje.
Como o estudo foi conduzido
New Research: Simulated ocean acidification affects shark tooth morphology https://t.co/gKiUW1fezT #FrontiersIn #MarineScience
— Frontiers – Marine Science (@FrontMarineSci) August 27, 2025
Para entender os impactos da acidificação, os pesquisadores analisaram dentes de tubarões-de-recife-de-ponta-negra, espécie que nada com a boca aberta para respirar. Foram coletados 52 dentes descartados de um aquário, divididos em dois grupos:
- 16 dentes intactos foram expostos a diferentes níveis de pH por oito semanas;
- 36 dentes adicionais foram usados para medir a circunferência antes e depois do experimento.
Os resultados foram claros: em comparação com os dentes mantidos em água com pH de 8,1, os expostos a um pH mais baixo apresentaram danos estruturais significativos, incluindo fissuras, buracos, corrosão das raízes e degradação microscópica da superfície.
“Observamos danos visíveis, como rachaduras e aumento da corrosão, além de uma redução na integridade estrutural”, afirmou Sebastian Fraune, coautor do estudo.
O que acontece com tubarões vivos

Vale destacar que o estudo utilizou dentes mineralizados não vivos, o que significa que processos naturais de reparação não foram avaliados. Em tubarões vivos, a situação pode ser mais complexa: como eles renovam os dentes com frequência, poderiam substituir os danificados.
No entanto, os cientistas alertam que, em um ambiente mais ácido, esse processo de remineralização teria um custo energético maior — o que poderia impactar diretamente a saúde e a sobrevivência dos animais, principalmente em espécies com ciclos de reposição mais lentos.
Consequências para os ecossistemas marinhos
Os pesquisadores também chamam atenção para o efeito cascata da acidificação sobre os ecossistemas oceânicos. Predadores como os tubarões dependem de dentes fortes para caçar e se alimentar; se a eficiência deles cair, toda a cadeia alimentar pode ser afetada.
Manter o pH dos oceanos próximo dos níveis atuais, defendem os cientistas, é essencial para preservar a integridade física desses animais e evitar consequências graves para a biodiversidade marinha.
“Os efeitos das mudanças climáticas se propagam por toda a cadeia alimentar e os ecossistemas”, alerta Maximilian Baum, um dos autores do estudo.
O estudo revela que a acidificação dos oceanos já está enfraquecendo os dentes dos tubarões, deixando-os mais suscetíveis a rachaduras e degradação. Se as tendências atuais continuarem, a sobrevivência desses predadores e o equilíbrio dos ecossistemas marinhos podem estar seriamente ameaçados.
[ Fonte: DW ]