Durante quase todo o século XX, uma empresa demonstrava seu crescimento comprando máquinas, ampliando fábricas e adquirindo equipamentos. Quanto maior o investimento em estruturas físicas, maior parecia ser sua capacidade de produzir. Mas essa lógica está mudando rapidamente. Em diferentes países, companhias estão destinando parcelas cada vez maiores de seus orçamentos a recursos que não podem ser vistos ou tocados. E os números mostram que essa transformação já alcançou proporções impressionantes.
Uma mudança inesperada está fazendo os investimentos tradicionais perderem espaço
Durante décadas, economistas acompanharam o crescimento das empresas observando principalmente seus investimentos em máquinas, veículos, instalações industriais e equipamentos.
Esses recursos são conhecidos como ativos tangíveis, pois possuem existência física e podem ser utilizados diretamente na produção.
Entretanto, a digitalização da economia está modificando essa realidade.
Serviços de computação em nuvem, licenças de software, armazenamento de dados e ferramentas de inteligência artificial passaram a ocupar uma posição cada vez mais importante nos orçamentos corporativos.
Um exemplo expressivo dessa transformação aparece na Argentina.
Segundo um levantamento da consultoria Estudio Ferreres, baseado em informações do Banco Central argentino e do instituto oficial de estatísticas, as importações de serviços de informática, propriedade intelectual e outros serviços profissionais passaram de aproximadamente US$ 700 milhões, entre junho e agosto de 2023, para US$ 2,5 bilhões no mesmo período de 2026.
Isso representa um crescimento de aproximadamente 258% em apenas três anos.
No mesmo intervalo, as importações de máquinas e equipamentos aumentaram somente 4,7% em valores nominais, chegando a cerca de US$ 2,6 bilhões.
A diferença se torna ainda mais interessante quando os números são comparados ao tamanho da economia.
Em 2023, as compras de máquinas representavam aproximadamente quatro vezes o valor dos serviços tecnológicos analisados.
Em 2026, ambos os grupos passaram a corresponder a cerca de 1,3% do Produto Interno Bruto argentino.
É importante destacar que essas importações de serviços não equivalem automaticamente à formação de capital nas contas nacionais. Ainda assim, mostram uma mudança relevante na composição dos gastos empresariais.
O fenômeno não acontece apenas na Argentina
A transformação também aparece nas estatísticas internacionais.
Segundo um relatório divulgado em 2025 pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), os investimentos em ativos intangíveis cresceram aproximadamente 4,1% ao ano entre 2008 e 2024.
No mesmo período, os investimentos em ativos físicos avançaram apenas 1,1% anualmente.
Isso significa que os investimentos intangíveis cresceram quase quatro vezes mais rápido do que os tangíveis nas economias analisadas.
Em 1995, esses ativos representavam aproximadamente 10% do PIB dos países estudados.
Em 2024, essa participação havia alcançado 13,6%.
Enquanto isso, a parcela correspondente aos investimentos físicos recuou de cerca de 12% para 11%.
Os Estados Unidos lideram em valores absolutos, com aproximadamente US$ 4,7 trilhões investidos em ativos intangíveis.
Já a Suécia se destaca pela intensidade desses investimentos, equivalentes a cerca de 16% de sua economia.
Entre as categorias analisadas, software e dados apresentam um dos ritmos de crescimento mais acelerados, superando 7% ao ano na última década.
A expansão da inteligência artificial é apontada como um dos fatores que ajudam a explicar esse movimento.

A inteligência artificial criou uma contradição bilionária
Embora esteja incentivando empresas a contratar cada vez mais serviços digitais, a inteligência artificial também exige investimentos físicos gigantescos.
Centros de dados, servidores especializados, processadores gráficos e sistemas de refrigeração são essenciais para sustentar essa infraestrutura.
Segundo estimativas da consultoria Gartner, os gastos mundiais com tecnologia devem alcançar US$ 6,37 trilhões em 2026, crescimento de 14,2% em relação ao ano anterior.
Os sistemas para centros de dados e a infraestrutura de nuvem aparecem entre os segmentos de maior expansão.
A aparente contradição está na distribuição desses investimentos.
Enquanto grandes empresas de tecnologia compram servidores e constroem instalações, muitas outras companhias simplesmente contratam sua capacidade de processamento.
Em vez de adquirir computadores próprios para executar sistemas complexos, uma organização pode pagar mensalmente para utilizar recursos disponíveis na nuvem.
Assim, a infraestrutura física continua existindo, mas passa a ficar concentrada nas mãos de fornecedores especializados.
Até a maneira de medir o crescimento das empresas pode precisar mudar
Essa transformação representa um desafio para os indicadores econômicos tradicionais.
Imagine uma empresa que antes comprava servidores para armazenar seus dados e agora decide contratar um serviço de nuvem.
Ela pode continuar modernizando suas operações e aumentando sua capacidade tecnológica, mesmo sem adquirir novos equipamentos.
Entretanto, os pagamentos recorrentes por serviços nem sempre são registrados como investimento nas estatísticas econômicas.
Isso dificulta comparar diferentes modelos de negócio utilizando apenas indicadores tradicionais de formação de capital.
No Brasil, onde empresas também ampliam o uso de software por assinatura, computação em nuvem e inteligência artificial, essa discussão é especialmente relevante.
Ainda não existe consenso sobre quanto esses gastos contribuem para o aumento da produtividade.
Também seria incorreto concluir que máquinas e equipamentos perderam sua importância.
A principal mudança é que investir em tecnologia já não significa necessariamente comprar e possuir a infraestrutura utilizada.
Durante um século, o crescimento empresarial foi associado à aquisição de máquinas cada vez mais modernas.
Agora, parte crescente da capacidade produtiva depende de programas, dados e serviços hospedados em instalações que as próprias empresas talvez nunca visitem.
E essa pode ser uma das transformações econômicas mais importantes da era da inteligência artificial.