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Ciência

Durante quase 1 bilhão de anos, o dia na Terra teve apenas 19 horas — e isso pode ter moldado a atmosfera e a própria vida

Por cerca de um bilhão de anos, a Terra girou rápido demais para ter dias como os atuais. Novos estudos indicam que a duração do dia ficou “presa” em torno de 19 horas, resultado de um raro equilíbrio entre forças lunares e atmosféricas — com possíveis impactos profundos na evolução do oxigênio e da vida.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Estamos acostumados a pensar no dia terrestre como algo estável, mas isso está longe de ser verdade. A duração do dia muda lentamente ao longo do tempo geológico, e novas evidências mostram que, no passado remoto, essa mudança não foi contínua. Durante uma enorme faixa da história do planeta, o relógio da Terra parece ter parado — e isso pode ter tido consequências decisivas para a biosfera.

Um planeta com o dia “travado” em 19 horas

Rotação Da Terra2
© A. Smith – N. Mandhusudhan

Os livros didáticos explicam o básico: a gravidade da Lua puxa os oceanos, gera marés e, com a fricção, rouba um pouco da energia de rotação da Terra. O efeito é lento, mas constante. Com o passar dos milhões de anos, os dias vão ficando cada vez mais longos.

O que um novo estudo revela é que essa história não foi tão linear assim. Um grupo liderado pelo geofísico Ross Mitchell reuniu dezenas de estimativas da duração do dia ao longo dos últimos 2,5 bilhões de anos. Para isso, os pesquisadores analisaram rochas sedimentares muito específicas, capazes de registrar ritmos ligados às marés e aos ciclos orbitais da Terra no momento em que se formaram.

Ao compilar todos esses dados, o padrão esperado — uma curva suave de aumento progressivo do dia — simplesmente não apareceu. Em vez disso, entre cerca de 2 bilhões e 1 bilhão de anos atrás, os registros convergem repetidamente para o mesmo valor: aproximadamente 19 horas por dia.

Segundo Mitchell, a duração do dia deixou de crescer e “ficou plana” durante esse intervalo, um período conhecido entre os geólogos como o “bilhão entediante”, por sua aparente estabilidade climática e biológica.

Quando a atmosfera entra no jogo

A explicação para esse fenômeno vai além das marés oceânicas. O Sol não aquece apenas a superfície: ele também aquece a atmosfera superior, gerando ondas de pressão que circulam o planeta. São as chamadas marés atmosféricas, menos conhecidas, mas igualmente reais.

Essas ondas exercem um pequeno torque sobre a rotação da Terra. E aqui entra o ponto crucial: se a duração do dia coincide com a frequência natural dessas oscilações atmosféricas, ocorre um fenômeno de ressonância — parecido com empurrar um balanço sempre no instante certo.

Nesse cenário, as marés atmosféricas podem acelerar ligeiramente a rotação do planeta, atuando no sentido oposto ao freio imposto pela Lua nos oceanos. Durante o Proterozoico Médio, tudo indica que essas duas forças se equilibraram. O resultado foi um empate cósmico: a Terra nem acelerava, nem desacelerava. O dia ficou estacionado em torno de 19 horas por quase um bilhão de anos.

Dias curtos e o oxigênio sob controle

Esse “congelamento” da rotação coincidiu com uma fase crucial da história da vida. Naquela época, o oxigênio da Terra era produzido quase exclusivamente por microrganismos fotossintéticos, como as cianobactérias, que formavam extensos tapetes microbianos em mares rasos.

Esses organismos produziam oxigênio durante o dia e consumiam parte dele à noite. Experimentos modernos com sistemas semelhantes mostram que, quando os dias são curtos demais, quase todo o oxigênio gerado acaba sendo reabsorvido. À medida que o dia se alonga, sobra mais tempo de luz e uma fração maior do oxigênio consegue escapar para a água e a atmosfera.

Dias de 19 horas parecem ter sido um meio-termo: longos o suficiente para permitir um ganho líquido de oxigênio, mas não a ponto de provocar grandes aumentos. Isso combina bem com os registros geoquímicos, que indicam níveis moderados e estáveis de oxigênio durante esse período, antes das grandes elevações que abriram caminho para formas de vida mais complexas.

A rotação da Terra ainda está mudando

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© NASA

Tudo isso aconteceu há bilhões de anos, mas o planeta continua girando de forma imperfeita. Hoje, relógios atômicos mostram que a duração do dia varia alguns milésimos de segundo de um ano para o outro, influenciada por ventos, correntes oceânicas e até movimentos do metal líquido no núcleo da Terra.

Entre 1962 e 2012, por exemplo, foi identificado um ciclo de cerca de 5,9 anos na velocidade de rotação, ligado a alterações bruscas no campo magnético, conhecidas como choques geomagnéticos. E agora entra em cena um fator bem atual: o aquecimento global. O derretimento de geleiras desloca grandes massas de água em direção ao equador, o que desacelera ligeiramente a rotação do planeta.

As estimativas indicam que, até o fim deste século, esse efeito pode rivalizar — ou até superar — a influência das marés lunares no alongamento do dia. Não é algo que percebamos no cotidiano, mas faz diferença para sistemas de navegação, telecomunicações e para a definição oficial do tempo.

No fim das contas, a Terra guarda sua história não só nas rochas, mas também em cada fração de segundo que ganhamos ou perdemos. O estudo original, “Mid-Proterozoic day length stalled by tidal resonance”, foi publicado na revista Nature Geoscience — e mostra como a rotação do planeta e a respiração da biosfera sempre estiveram mais ligadas do que imaginávamos.

 

[ Fonte: Ecoticias ]

 

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