Viajar até o centro da Via Láctea em apenas dez anos parece pura ficção científica. Afinal, essa região da nossa galáxia está localizada a cerca de 26 mil anos-luz da Terra. No entanto, segundo o astrofísico Avi Loeb, da Universidade de Harvard, esse objetivo poderia ser alcançado se uma nave espacial conseguisse acelerar continuamente a 1g — a mesma aceleração produzida pela gravidade terrestre.
O maior obstáculo não seria o tempo da viagem, mas sim a quantidade colossal de energia necessária para levar uma espaçonave a velocidades próximas à da luz. Em um novo artigo, Loeb explica por que os foguetes convencionais jamais conseguiriam cumprir essa missão e apresenta uma alternativa baseada em velas de luz impulsionadas por um gigantesco transmissor de rádio.
O combustível é o principal obstáculo para viagens interestelares

Segundo Loeb, uma nave que acelerasse continuamente a 1g permitiria que os astronautas chegassem ao centro da Via Láctea em aproximadamente uma década, considerando os efeitos relativísticos previstos pela teoria da relatividade especial.
O problema está na energia necessária para atingir velocidades próximas à velocidade da luz.
A famosa equação de Albert Einstein, E = mc², mostra que massa e energia são equivalentes. Isso significa que acelerar um objeto maciço até velocidades relativísticas exige quantidades extraordinárias de energia.
Como exemplo, o pesquisador calcula que um astronauta com massa de 100 quilos precisaria de uma quantidade de energia equivalente a cerca de 4 gigatoneladas de TNT para se aproximar da velocidade da luz. Trata-se de um valor comparável à energia armazenada em todo o arsenal nuclear existente no planeta.
Nem foguetes químicos nem motores nucleares seriam suficientes
Os combustíveis utilizados atualmente na exploração espacial estão muito longe de oferecer esse desempenho.
Os propelentes químicos apresentam eficiência extremamente baixa quando comparados à energia exigida por uma missão relativística.
Mesmo motores baseados em fissão ou fusão nuclear também seriam insuficientes.
Segundo os cálculos apresentados por Loeb, um foguete movido por fusão nuclear precisaria transportar uma quantidade mínima de combustível equivalente a aproximadamente um décimo da massa da Terra apenas para acelerar um único astronauta até velocidades próximas à da luz.
No caso de motores químicos ou de fissão nuclear, a massa necessária seria ainda maior, tornando a proposta completamente inviável.
A antimatéria funcionaria, mas o custo é proibitivo

Em teoria, existe um combustível capaz de fornecer a energia necessária.
A aniquilação entre matéria e antimatéria converte praticamente toda a massa em energia, oferecendo a eficiência máxima prevista pela equação de Einstein.
O problema é a produção desse material.
Segundo Loeb, fabricar apenas um grama de antimatéria custaria mais de um quatrilhão de dólares, valor que torna essa solução inviável com a tecnologia e os recursos disponíveis atualmente.
Uma vela de luz pode ser a solução
Como alternativa, Loeb propõe eliminar completamente a necessidade de transportar combustível.
A ideia é utilizar uma vela extremamente leve, impulsionada por um feixe de energia emitido a partir da própria Terra.
O conceito ganhou notoriedade com o projeto Breakthrough Starshot, iniciativa científica da qual Loeb participou como presidente do conselho consultivo.
O plano previa acelerar uma minúscula sonda de apenas um grama utilizando um laser de 100 gigawatts durante alguns minutos.
A aceleração alcançaria cerca de 100 mil vezes a gravidade terrestre, intensidade impossível de ser suportada por seres humanos.
Um transmissor do tamanho da Terra poderia levar astronautas às estrelas

Para transportar pessoas, seria necessário reduzir drasticamente a aceleração.
Em um estudo publicado em 2017 junto com o pesquisador Manasvi Lingam, Loeb propôs utilizar um gigantesco transmissor de rádio com dimensões comparáveis às da Terra.
Segundo os cálculos da dupla, esse sistema captaria toda a energia solar que incide sobre o planeta e a concentraria sobre uma vela de aproximadamente 100 metros de comprimento, equivalente ao tamanho de um campo de futebol.
Essa vela poderia impulsionar uma carga útil de cerca de um milhão de toneladas — suficiente para transportar uma grande nave com muitos astronautas — mantendo uma aceleração constante de 1g até atingir velocidades próximas à da luz.
A tecnologia também pode explicar um mistério cósmico
Além de possibilitar viagens interestelares, a proposta apresenta uma consequência curiosa.
Os pesquisadores sugerem que parte da energia emitida por esse gigantesco transmissor escaparia para o espaço na forma de intensos pulsos de rádio.
Esses sinais seriam semelhantes às chamadas rajadas rápidas de rádio, ou Fast Radio Bursts (FRBs), fenômenos extremamente energéticos detectados em galáxias distantes e cuja origem ainda é motivo de intenso debate na astronomia.
Hoje, a principal hipótese associa as FRBs a estrelas de nêutrons jovens altamente magnetizadas, conhecidas como magnetares.
Loeb, porém, levanta uma possibilidade muito mais especulativa.
Segundo ele, uma fração dessas explosões de rádio poderia ser produzida por civilizações tecnologicamente avançadas utilizando sistemas semelhantes para impulsionar enormes velas de luz em viagens interestelares.
Embora essa hipótese permaneça sem evidências, sua confirmação teria um impacto profundo sobre nossa compreensão do Universo, demonstrando que a humanidade talvez não seja a civilização mais avançada do ponto de vista cosmológico.
[ Fonte: El Confidencial ]