Algo incomum está acontecendo nas águas do Pacífico equatorial. Uma região que normalmente permanece sob a influência dos ventos alísios começou a acumular calor em uma velocidade que vem sendo acompanhada de perto pelos cientistas. O fenômeno não é novo, mas os números registrados em 2026 colocaram uma pergunta cada vez mais difícil de ignorar: estamos diante de um episódio excepcional?
O Pacífico começou a enviar um sinal difícil de ignorar
El Niño é a fase quente do padrão climático conhecido como El Niño-Oscilação Sul (ENOS). Ele aparece quando os ventos alísios que normalmente empurram as águas superficiais quentes do Pacífico em direção à Ásia enfraquecem.
Com isso, uma quantidade maior de água quente permanece concentrada no centro e no leste do Pacífico equatorial. O excesso de calor não fica restrito ao oceano: ele altera padrões de pressão, ventos e precipitação que podem repercutir em regiões muito distantes.
O indicador mais utilizado para acompanhar a intensidade do fenômeno é o índice Niño 3.4, que compara a temperatura da superfície do mar em uma área específica com a média histórica.
Em maio, a anomalia estava em aproximadamente 1,5 °C. Em julho, chegou a 2 °C. Já em meados de agosto, os valores variavam entre 2,2 °C e 2,6 °C acima do normal. Em algumas áreas abaixo da superfície, a diferença chegou a ultrapassar 8 °C durante julho e o início de agosto.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) calcula uma probabilidade próxima de 100% de que as condições de El Niño continuem até fevereiro de 2027.

O detalhe que pode colocar este episódio entre os mais extremos
A preocupação aumenta quando os números atuais são comparados com os episódios mais intensos já observados. Os eventos de 1997-1998 e 2015-2016 registraram picos de aproximadamente 2,4 °C a 2,6 °C de anomalia.
Agora, alguns modelos climáticos projetam que o episódio de 2026 possa alcançar entre 3,6 °C e 4 °C em seu pico, previsto para ocorrer por volta de novembro. Se essas estimativas se confirmarem, o fenômeno ultrapassaria com folga os dois grandes eventos usados como referência.
Mas existe uma ressalva importante: um El Niño mais intenso não significa necessariamente que todas as regiões sofrerão impactos mais severos. A resposta do clima depende da localização e da maneira como a circulação atmosférica redistribui o calor acumulado no oceano.
É justamente por isso que os efeitos podem ser tão diferentes. Austrália, Indonésia e partes do sul da Ásia tendem a enfrentar condições mais secas, enquanto a costa oeste da América do Sul e o sul dos Estados Unidos podem receber mais chuva.
Outros fenômenos também entram na equação, como o Dipolo do Oceano Índico e as temperaturas acima da média no Atlântico. A combinação torna as previsões regionais ainda mais complexas.
De um extremo ao outro, e com impacto na temperatura global
El Niño não significa apenas uma mudança na distribuição das chuvas. O oceano também libera parte do calor acumulado para a atmosfera, um processo que costuma contribuir para elevar a temperatura média global no ano seguinte.
Por isso, pesquisadores do Met Office avaliam que 2027 poderá superar 2024 como o ano mais quente já registrado. O planeta também pode voltar a ultrapassar temporariamente a marca de 1,5 °C de aquecimento em relação ao período pré-industrial.
Enquanto isso, alguns governos já se preparam para possíveis consequências. No Reino Unido, autoridades estudam medidas para orientar a população a manter reservas de água e alimentos diante do risco de períodos com tempestades mais intensas e interrupções de serviços.
O ponto central é que não existe um único “clima de El Niño”. O fenômeno reorganiza a circulação atmosférica e pode produzir secas em uma parte do planeta enquanto favorece enchentes em outra.
E é justamente essa combinação que torna os próximos meses tão importantes. O Pacífico já acumula um nível extraordinário de calor, os modelos apontam para um pico ainda maior e a OMM espera que o episódio continue até o início de 2027. O que acontecerá em cada região dependerá de como esse gigantesco reservatório de energia oceânica será redistribuído pela atmosfera.