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Ciência

Eles colocam pacientes com câncer nus dentro de sacos plásticos e os expõem a um gás derivado de água sanitária: a falsa cura que preocupa especialistas

Uma clínica em Londres promove um tratamento alternativo que utiliza dióxido de cloro em pacientes com câncer avançado. Sem respaldo científico e considerado potencialmente perigoso por especialistas, o método ganhou espaço em comunidades que rejeitam a medicina baseada em evidências e alimentam promessas de cura sem comprovação.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O tratamento do câncer avançou de forma extraordinária nas últimas décadas. Novas terapias, diagnósticos mais precisos e medicamentos inovadores transformaram doenças antes consideradas praticamente fatais em condições cada vez mais controláveis. Ainda assim, a complexidade do câncer continua alimentando a busca por soluções milagrosas.

É nesse cenário que prosperam terapias alternativas sem qualquer comprovação científica. Algumas prometem resultados extraordinários, mas acabam oferecendo apenas falsas esperanças. Um dos exemplos mais controversos surgiu recentemente em Londres, onde pacientes com câncer são submetidos a um procedimento que envolve dióxido de cloro, uma substância associada a produtos industriais de limpeza e branqueamento.

O tratamento que não possui comprovação científica

A prática ocorre em uma clínica localizada no sul de Londres. O procedimento consiste em colocar pacientes nus dentro de uma grande bolsa plástica, deixando apenas a cabeça para fora. Em seguida, o corpo é exposto ao dióxido de cloro em forma gasosa.

Os defensores da técnica afirmam que o gás seria capaz de provocar alterações químicas nas células cancerígenas, levando à destruição dos tumores. A teoria sustenta que o processo geraria um ambiente hostil para o câncer por meio do chamado estresse oxidativo.

No entanto, especialistas são categóricos ao afirmar que não existe qualquer evidência científica confiável que demonstre a eficácia desse método contra o câncer.

Segundo Caroline Geraghty, enfermeira especialista da organização britânica Cancer Research UK, não há estudos clínicos robustos que sustentem as alegações feitas pelos promotores da terapia.

A origem da ideia

O tratamento é baseado nas teorias divulgadas por Andreas Kalcker, autor de livros que promovem o uso do dióxido de cloro para diferentes problemas de saúde.

Kalcker popularizou um método chamado “Protocolo G”, apresentado como uma alternativa para tratar diversas doenças. Suas ideias ganharam visibilidade principalmente após a pandemia de Covid-19, período em que diferentes tratamentos sem comprovação passaram a circular amplamente em redes sociais e grupos de medicina alternativa.

Desde então, formou-se uma comunidade internacional de seguidores que atribui ao dióxido de cloro propriedades terapêuticas para condições que vão do câncer ao HIV e ao autismo.

Essas alegações, porém, não são reconhecidas pela comunidade científica nem por órgãos reguladores de saúde.

Os riscos para pacientes vulneráveis

Além da ausência de eficácia comprovada, médicos alertam para os potenciais riscos associados ao uso do dióxido de cloro.

A substância pode provocar irritações, lesões nos tecidos e outras complicações dependendo da forma de exposição e da quantidade utilizada. Curiosamente, até mesmo alguns dos promotores da técnica reconhecem que o procedimento não está livre de perigos.

Mas os especialistas destacam que o principal dano pode ser indireto.

Pacientes diagnosticados com câncer frequentemente enfrentam situações de extrema fragilidade emocional. Diante da incerteza e do medo, promessas de cura rápida ou revolucionária podem parecer atraentes, especialmente quando os tratamentos convencionais apresentam limitações.

O problema surge quando essas pessoas abandonam terapias comprovadas ou atrasam intervenções médicas eficazes para seguir alternativas sem respaldo científico.

A força das comunidades digitais

A expansão dessas práticas está diretamente ligada ao crescimento das redes sociais e de comunidades online dedicadas à divulgação de teorias médicas alternativas.

Podcasts, grupos privados e plataformas digitais permitem que informações sem validação científica sejam compartilhadas rapidamente entre milhares de pessoas.

Especialistas em saúde pública observam com preocupação esse fenômeno, principalmente porque ele contribui para aumentar a desconfiança em relação a instituições médicas, pesquisadores e agências reguladoras.

O desafio da desinformação médica

Para cientistas e profissionais da saúde, casos como esse vão muito além de uma simples curiosidade.

Eles ilustram como a desinformação pode transformar tratamentos sem eficácia comprovada em negócios lucrativos, capazes de atrair seguidores e influenciar decisões médicas importantes.

Enquanto a ciência continua buscando novas formas de prevenir e tratar o câncer, os especialistas reforçam uma mensagem simples: qualquer terapia que prometa resultados extraordinários deve apresentar evidências extraordinárias.

Até o momento, não existe nenhum estudo confiável que demonstre que o dióxido de cloro seja capaz de tratar ou curar o câncer. E, para os médicos, essa continua sendo a informação mais importante que os pacientes precisam conhecer.

 

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