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Ciência

Eles estão por toda parte, sustentam a vida na Terra e agora correm risco de desaparecer

Mesmo invisíveis à primeira vista, os fungos são indispensáveis para o equilíbrio do planeta. Reciclam nutrientes, alimentam ecossistemas e ajudam a combater as mudanças climáticas. Mas milhares de espécies estão ameaçadas — e os humanos talvez sejam os únicos capazes de protegê-los antes que seja tarde.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Pouco lembrados e muitas vezes mal compreendidos, os fungos exercem funções vitais para a manutenção da vida no planeta. Recentemente, mais de mil espécies foram incluídas na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), acendendo um alerta global. Enquanto enfrentam poluição, desmatamento e mudanças climáticas, cientistas reforçam a urgência de incluir os fungos nas estratégias de conservação.

Um reino essencial, mas ameaçado

Eles estão por toda parte, sustentam a vida na Terra e agora correm risco de desaparecer
© Pexels

O reino Fungi é o segundo maior da Terra, atrás apenas do reino Animalia. Apesar disso, os fungos raramente ganham destaque nas pautas ambientais. Muitos os associam apenas a mofo ou cogumelos, mas eles são protagonistas silenciosos na sustentação dos ecossistemas.

Segundo a ecóloga Lynne Boddy, da Universidade de Cardiff, os fungos estão entre os seres vivos mais sensíveis à poluição — sobretudo à provocada por fertilizantes e combustíveis fósseis. Além disso, o desmatamento e a urbanização acelerada estão entre os fatores que contribuem para o desaparecimento de inúmeras espécies.

O problema é que, diferentemente dos pandas ou golfinhos, os fungos não despertam empatia. Isso dificulta o engajamento da sociedade em sua proteção, mesmo com seu papel crucial para a vida na Terra.

Por que a vida depende dos fungos

Fungos micorrízicos, por exemplo, formam alianças simbióticas com as raízes de até 90% das plantas, ajudando na absorção de água, nutrientes e até na troca de informações entre vegetais. Além disso, são fundamentais na decomposição de matéria orgânica, reciclando nutrientes e evitando o acúmulo de resíduos naturais.

“Sem os fungos, estaríamos soterrados por folhas e madeira em decomposição”, afirma Gregory Mueller, cientista-chefe do Jardim Botânico de Chicago e líder do programa de fungos da IUCN.

Eles também têm papel decisivo no sequestro de carbono. Fungos micorrízicos armazenam até um terço das emissões anuais globais de combustíveis fósseis no solo — um serviço ambiental invisível, mas poderoso no combate ao aquecimento global.

Contudo, o aumento da temperatura média e a mudança nos padrões de precipitação têm alterado ecossistemas como as florestas nubladas do Brasil, interferindo na hidratação das plantas e, por consequência, no ciclo de vida dos fungos associados a elas.

Consequências para a saúde, agricultura e clima

O impacto da perda dos fungos vai além da ecologia. Sem eles, as árvores cresceriam mais fracas e teriam maior dificuldade para resistir a doenças e secas, comprometendo colheitas e florestas inteiras. A segurança alimentar ficaria ameaçada, especialmente em um mundo com população crescente e clima instável.

Na medicina, fungos são essenciais: cerca de 40% dos medicamentos modernos têm origem vegetal, e muitos desses compostos dependem da interação entre plantas e fungos. O desaparecimento dessas relações simbióticas colocaria em risco o desenvolvimento de novos tratamentos, inclusive para doenças neurodegenerativas como Alzheimer e Parkinson.

“Sem os fungos no solo, é provável que a vida como conhecemos não existisse”, explica Aishwarya Veerabahu, cientista da Universidade de Wisconsin-Madison.

O que pode ser feito para protegê-los

Apenas em 2021 a IUCN passou a tratar os fungos com a mesma importância da flora e fauna em suas políticas de conservação. Desde então, cientistas intensificaram os esforços para mapear espécies ameaçadas e propor estratégias específicas.

Apesar de já terem sido identificadas cerca de 155 mil espécies, estima-se que existam mais de 2 milhões ainda não descobertas — e muitas podem desaparecer antes mesmo de serem estudadas.

Entre as soluções sugeridas estão mudanças no manejo de florestas e pastagens, como evitar a retirada excessiva de madeira e limitar o uso de fertilizantes. A permanência de detritos orgânicos nas matas, por exemplo, ajuda a manter ambientes propícios à sobrevivência dos fungos.

“Conservar sem considerar os fungos é uma abordagem incompleta”, alerta Mueller. “Eles são a cola invisível que mantém tudo funcionando.”

Mais do que um reino biológico discreto, os fungos sustentam a vida na Terra — e seu desaparecimento colocaria em risco a biodiversidade, o equilíbrio climático e o próprio futuro da humanidade.

[Fonte: DW]

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