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Ciência

Em 1987, cientistas capturaram o último condor selvagem para salvar a espécie. Quase 40 anos depois, o desafio continua

O condor-da-califórnia escapou da extinção graças a um programa de reprodução em cativeiro. Mas novas pesquisas mostram que salvar uma espécie exige muito mais do que aumentar sua população.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Em abril de 1987, biólogos tomaram uma decisão extrema: capturar o último condor-da-califórnia que ainda vivia em liberdade. Naquele momento, restavam apenas 27 indivíduos da espécie em todo o planeta. Quase quatro décadas depois, centenas dessas aves voltaram a ocupar os céus da América do Norte. Entretanto, a recuperação revelou um problema que vai muito além dos números: como garantir que uma espécie continue sobrevivendo sem depender permanentemente da intervenção humana?

A decisão radical que impediu uma extinção

Em 1987, cientistas capturaram o último condor selvagem para salvar a espécie. Quase 40 anos depois, o desafio continua
© Pexels

O condor-da-califórnia (Gymnogyps californianus) é uma das maiores aves voadoras da América do Norte, com envergadura que pode chegar a quase três metros.

Durante milhares de anos, a espécie ocupou extensas regiões do continente. Entretanto, a caça, a destruição de habitats e o envenenamento provocaram uma redução drástica de sua população.

Em 19 de abril de 1987, o último indivíduo selvagem foi capturado e levado para um programa de reprodução em cativeiro.

Segundo o Departamento de Pesca e Vida Selvagem da Califórnia, todos os 27 condores restantes passaram a viver em instalações especializadas.

A medida foi controversa. Retirar os últimos animais da natureza significava admitir que a espécie já não conseguia sobreviver sozinha.

Mas também representava sua última oportunidade.

O programa envolveu zoológicos, pesquisadores e órgãos ambientais. Os cientistas desenvolveram técnicas de incubação artificial, reprodução assistida e criação de filhotes para reconstruir a população.

De 27 aves para centenas de condores

Em 1987, cientistas capturaram o último condor selvagem para salvar a espécie. Quase 40 anos depois, o desafio continua
© Pexels

O primeiro filhote nasceu em cativeiro em 1988. Quatro anos depois, os pesquisadores começaram a devolver os animais à natureza.

As reintroduções ocorreram em diferentes regiões dos Estados Unidos e do México, incluindo Califórnia, Arizona, Utah e Baixa Califórnia.

O esforço produziu resultados expressivos.

Em 2008, pela primeira vez desde o início do programa, havia mais condores vivendo em liberdade do que em cativeiro.

O Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos mantém um programa permanente de monitoramento e recuperação da espécie.

O relatório referente a 2025 confirma que a população ultrapassou a marca de 600 indivíduos, um avanço extraordinário em comparação com a situação de 1987.

Entretanto, o aumento populacional não significa que o condor esteja definitivamente fora de perigo.

O inimigo invisível que continua matando as aves

Um dos maiores perigos para o condor-da-califórnia é o envenenamento por chumbo.

Como essas aves se alimentam de carcaças, podem ingerir fragmentos de munição presentes em animais mortos por caçadores.

O chumbo provoca danos neurológicos, compromete órgãos vitais e pode levar à morte.

De acordo com o relatório oficial de conservação de 2025, 161 condores morreram comprovadamente por intoxicação por chumbo entre 1992 e 2025, o equivalente à metade das mortes com causa conhecida.

Um estudo publicado em 2026 na revista Animal Conservation identificou evidências de aumento do risco anual de morte por chumbo desde o início das reintroduções.

A gripe aviária também representa uma ameaça. Em 2023, um surto provocou a morte de 21 condores na população do Arizona e de Utah.

Salvar uma espécie é suficiente para proteger a biodiversidade?

A recuperação do condor levanta uma questão fundamental: o que significa realmente salvar uma espécie?

Em 2022, países reunidos na Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade aprovaram o Marco Global de Kunming-Montreal.

O acordo estabelece metas como conservar pelo menos 30% das áreas terrestres e marinhas até 2030 e mobilizar US$ 200 bilhões anuais para a biodiversidade.

O documento da Convenção sobre Diversidade Biológica também reconhece a importância dos territórios indígenas e da participação das comunidades locais nas decisões ambientais.

O caso do condor mostra que programas de reprodução podem impedir uma extinção imediata, mas não resolvem necessariamente as ameaças que levaram uma espécie ao colapso.

Sem ambientes seguros, financiamento contínuo e redução dos impactos humanos, animais reintroduzidos podem continuar dependentes de cuidados permanentes.

A verdadeira recuperação não acontece apenas quando uma espécie volta a existir em números maiores, mas quando consegue sobreviver e se reproduzir na natureza de maneira sustentável.

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