A disputa eleitoral nos Estados Unidos ganhou um participante que não precisa votar, dormir ou sequer existir fisicamente: a inteligência artificial. Nas eleições legislativas de 3 de novembro de 2026, ferramentas capazes de criar vídeos realistas, administrar perfis falsos e produzir mensagens em escala ampliaram as preocupações com a desinformação. O desafio não está apenas em convencer eleitores com conteúdos enganosos, mas também em comprometer a confiança nas instituições responsáveis pelo processo democrático.
Robôs inteligentes podem transformar campanhas de desinformação
Durante anos, os chamados bots foram utilizados para compartilhar mensagens automaticamente, aumentar artificialmente a popularidade de publicações e simular apoio político nas redes sociais.
Agora, a inteligência artificial generativa permite criar sistemas mais sofisticados.
Em vez de simplesmente repetir mensagens, agentes automatizados podem produzir textos diferentes, adaptar argumentos e responder a outros usuários.
Essas ferramentas também conseguem gerar imagens, áudios e vídeos que imitam pessoas reais.
Uma análise publicada pelo jornal espanhol El País, em outubro de 2026, destacou que agentes autônomos podem tornar operações de influência política mais rápidas e difíceis de identificar.
O risco é que pequenos grupos consigam produzir grandes quantidades de conteúdo enganoso sem precisar manter estruturas humanas numerosas.
Entretanto, a capacidade tecnológica de criar campanhas de manipulação não significa que elas consigam necessariamente alterar o resultado de uma eleição.
Vídeos falsos já apareceram na campanha americana
As eleições legislativas americanas, conhecidas como midterms, renovam toda a Câmara dos Representantes e parte do Senado.
Na campanha de 2026, vídeos produzidos ou modificados por inteligência artificial passaram a integrar estratégias de comunicação política.
Uma investigação publicada pela emissora pública espanhola RTVE identificou anúncios que utilizavam imagens sintéticas de candidatos e autoridades.
Entre os exemplos estava um vídeo divulgado na disputa pelo Senado do Texas, no qual declarações reais de um candidato foram reunidas fora de contexto com auxílio de IA.
Outras peças utilizaram simulações e sátiras envolvendo figuras políticas.
Embora conteúdos satíricos não sejam necessariamente desinformação, a ausência de identificação clara pode dificultar a distinção entre uma gravação autêntica e uma criação artificial.
O problema se agrava quando imagens fabricadas são apresentadas como provas de acontecimentos que nunca ocorreram.
Pesquisa mostra que 77% dos eleitores estão preocupados

A preocupação com o uso político da inteligência artificial ultrapassa as diferenças partidárias.
Uma pesquisa realizada pelo Morning Consult para o Bipartisan Policy Center, entre 2 e 4 de setembro de 2026, entrevistou 3.144 eleitores registrados nos Estados Unidos.
O levantamento mostrou que 77% estavam muito ou relativamente preocupados com a possibilidade de a IA ser utilizada para espalhar desinformação ou manipular a opinião pública.
Entre eleitores democratas, o percentual chegou a 78%. Entre republicanos, ficou em 75%.
Os resultados indicam que os riscos associados à tecnologia são reconhecidos por pessoas com diferentes preferências políticas.
Chatbots também podem fornecer informações eleitorais erradas
Além dos vídeos falsos e das contas automatizadas, existe outro problema: respostas incorretas fornecidas por assistentes de inteligência artificial.
Uma investigação do Institute for Strategic Dialogue, realizada em junho de 2026, avaliou seis modelos de IA em 2.400 consultas sobre eleições americanas.
Os pesquisadores identificaram respostas incorretas, incompletas ou desatualizadas em aproximadamente 29% das perguntas gerais feitas em inglês.
O desempenho foi ainda pior quando as perguntas foram realizadas em espanhol, com uma queda média de 16 pontos percentuais na precisão.
Entre os erros estavam informações equivocadas sobre datas, documentos e procedimentos eleitorais.
Essas falhas podem prejudicar eleitores que utilizam chatbots para descobrir onde votar ou quais requisitos precisam cumprir.
Ao mesmo tempo, os modelos avaliados geralmente conseguiram identificar e rejeitar afirmações eleitorais falsas apresentadas durante os testes.
Isso demonstra que a tecnologia também pode ajudar a combater a desinformação, desde que suas respostas sejam verificadas.
A inteligência artificial realmente consegue mudar resultados eleitorais?
Essa é uma das questões mais importantes para os pesquisadores.
Um estudo do Centre for Emerging Technology and Security, ligado ao Alan Turing Institute, analisou operações de influência envolvendo inteligência artificial nas eleições europeias de 2024.
Os pesquisadores não encontraram evidências de que os conteúdos identificados tenham alterado significativamente os resultados eleitorais.
Em muitos casos, as mensagens alcançaram principalmente pessoas que já compartilhavam as posições políticas apresentadas.
Isso não elimina os riscos, mas mostra que é necessário distinguir alcance digital de influência efetiva sobre o voto.
A inteligência artificial pode facilitar a produção de desinformação sem necessariamente conseguir convencer grandes parcelas da população.
O que está em jogo para a democracia?
O desafio das eleições de 2026 vai além de detectar vídeos falsos.
As autoridades também precisam proteger sistemas eleitorais, oferecer informações confiáveis e garantir que os cidadãos consigam identificar conteúdos manipulados.
Plataformas digitais enfrentam pressões para aumentar a transparência de suas ferramentas, enquanto pesquisadores defendem mecanismos de verificação e identificação de materiais sintéticos.
Para os eleitores, uma medida importante é confirmar informações sobre votação em canais oficiais, especialmente quando mensagens circulam sem identificação de origem.
A principal preocupação não é que robôs passem a votar, mas que sistemas automatizados consigam influenciar o ambiente informativo no qual milhões de pessoas tomam decisões políticas.
O avanço da inteligência artificial torna esse debate relevante não apenas para os Estados Unidos, mas também para o Brasil e outros países que dependem cada vez mais das plataformas digitais para discutir política.