O Amazonas vive uma sucessão de emergências que revela como problemas ambientais e de saúde pública podem se transformar em crises humanitárias. Desde 2021, o estado enfrentou falta de oxigênio em hospitais, a maior cheia já registrada do Rio Negro, secas históricas e incêndios florestais que comprometeram a qualidade do ar. Em 2026, a estiagem voltou a isolar comunidades e dificultar o atendimento médico, enquanto a fumaça das queimadas atingiu Manaus e outras cidades.
2021: falta de oxigênio levou hospitais de Manaus ao colapso

Em janeiro de 2021, durante a segunda onda da pandemia de Covid-19, Manaus enfrentou uma das crises sanitárias mais graves da história recente do Brasil.
A demanda diária por oxigênio medicinal chegou a 76,5 mil metros cúbicos, enquanto a capacidade de produção local era de apenas 28,2 mil metros cúbicos.
O desabastecimento comprometeu o atendimento hospitalar e obrigou a transferência de mais de 500 pacientes para outros estados.
Cinco anos depois, o Ministério Público Federal apresentou documentos indicando que autoridades já tinham conhecimento de problemas no abastecimento antes do colapso.
O órgão também mantém uma ação judicial que pede R$ 4 bilhões em indenizações e medidas de reparação. As responsabilidades permanecem em discussão judicial.
2021: Rio Negro atingiu a maior cheia de sua história
Poucos meses depois da crise hospitalar, o Amazonas enfrentou outra emergência.
Em junho de 2021, o Rio Negro alcançou 30,02 metros em Manaus, estabelecendo o maior nível desde o início das medições oficiais, em 1902.
A enchente afetou mais de 455 mil pessoas em todo o estado.
Na capital, ruas do Centro Histórico ficaram alagadas, estabelecimentos comerciais precisaram adaptar suas atividades e aproximadamente 13 quilômetros de passarelas de madeira foram construídos para permitir a circulação de pedestres.
A cheia também comprometeu moradias, transporte e atividades econômicas de comunidades ribeirinhas.
2023 e 2024: secas históricas mudaram a paisagem amazônica
Depois das enchentes, o Amazonas passou a enfrentar o extremo oposto.
Em outubro de 2023, o Rio Negro caiu para 13,59 metros em Manaus, estabelecendo um recorde de seca naquele momento.
A estiagem atingiu os 62 municípios amazonenses e afetou mais de 600 mil pessoas.
Comunidades ficaram isoladas, embarcações tiveram dificuldades para navegar e escolas precisaram suspender atividades.
A situação piorou em 2024, quando o rio chegou a apenas 12,11 metros, superando o recorde anterior.
Segundo dados estaduais, mais de 800 mil pessoas foram afetadas e os prejuízos econômicos ultrapassaram R$ 600 milhões.
A sequência de estiagens também intensificou a preocupação com o abastecimento de água, alimentos e medicamentos.
Queimadas transformaram o ar em um problema de saúde pública

A vegetação ressecada e as condições climáticas desfavoráveis contribuíram para a propagação dos incêndios florestais.
Em 2024, o Amazonas registrou mais de 25 mil focos de queimadas, o maior número em 26 anos, segundo dados atribuídos ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
A fumaça voltou a atingir intensamente Manaus em 2026.
Entre setembro e outubro, a poluição provocou suspensão de aulas, cancelamento de atividades externas e aumento da procura por atendimento médico.
Dados divulgados em outubro apontaram 874 atendimentos relacionados à exposição à fumaça entre os dias 1º e 21 daquele mês, contra 178 durante todo o mês de setembro.
As partículas finas presentes na fumaça podem penetrar profundamente nos pulmões e agravar doenças respiratórias e cardiovasculares.
Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças preexistentes estão entre os grupos mais vulneráveis.
Em outubro de 2026, o Ministério da Saúde informou que monitorava a situação de 12 municípios que necessitavam de apoio na assistência à população.
2026: mais de 600 comunidades ficaram isoladas pela estiagem
A nova seca trouxe consequências que ultrapassam os problemas ambientais.
Em outubro de 2026, o governo do Amazonas decretou situação de emergência em saúde pública por 180 dias diante das dificuldades de acesso a comunidades do interior.
Mais de 600 localidades ficaram isoladas ou tiveram a mobilidade severamente comprometida.
Acidentes fluviais também provocaram a perda de medicamentos e cilindros de oxigênio medicinal, aumentando os riscos para pacientes que dependem de atendimento contínuo.
A redução do nível dos rios dificulta o transporte de profissionais de saúde, alimentos e equipamentos essenciais.
Para tentar antecipar essas situações, a Secretaria de Estado de Saúde havia lançado, em junho, um plano de contingência para emergências relacionadas à seca, incluindo monitoramento, vigilância epidemiológica e estratégias de abastecimento.
Por que as crises estão se tornando tão preocupantes?
O Amazonas sempre apresentou ciclos naturais de cheia e vazante. Entretanto, a intensidade dos eventos recentes evidencia uma combinação perigosa de variabilidade climática, aquecimento global, desmatamento, incêndios e vulnerabilidades sociais.
Fenômenos como o El Niño podem alterar o regime de chuvas e agravar períodos de estiagem. Já a perda de vegetação e o uso inadequado do fogo aumentam os riscos ambientais.
Os impactos são especialmente graves porque os rios funcionam como estradas para grande parte da população do interior.
Quando a navegação é interrompida, o acesso a serviços básicos também fica comprometido.
A sucessão de emergências mostra que o desafio do Amazonas não é apenas enfrentar cada desastre isoladamente, mas construir sistemas de saúde, transporte e abastecimento capazes de resistir a eventos extremos cada vez mais difíceis de administrar.