A China acaba de alcançar mais uma etapa importante em uma das maiores apostas científicas de sua história. Em Hefei, na província de Anhui, pesquisadores avançam na montagem do BEST, um gigantesco dispositivo experimental projetado para reproduzir na Terra o mesmo processo energético que mantém o Sol brilhando.
O objetivo é ambicioso. Em vez de apenas produzir e controlar plasma extremamente quente durante experimentos, o país pretende demonstrar ganho líquido de energia de fusão e geração de eletricidade por volta de 2030.
Caso consiga, será um passo importante na longa corrida para transformar a fusão nuclear em uma fonte prática de energia.
Um reator capaz de trabalhar acima de 100 milhões de graus
🇨🇳⚡️ O reator de fusão nuclear da China, o Tokamak BEST ou "Segundo Sol", que está em construção em Hefei, instalou com sucesso um componente-chave, a base Dewar.
Um marco crucial rumo à primeira usina de energia elétrica por fusão nuclear do mundo.pic.twitter.com/jHlUWirMUY
— Análise Geopolítica (@AnaliseGeopol) October 2, 2025
BEST significa Burning Plasma Experimental Superconducting Tokamak. A instalação está sendo desenvolvida pelo Instituto de Física de Plasma da Academia Chinesa de Ciências (ASIPP).
Assim como outros tokamaks, o dispositivo utiliza poderosos campos magnéticos para confinar um plasma extremamente quente dentro de uma câmara em formato semelhante ao de uma rosquinha.
A Academia Chinesa de Ciências explica que o plasma poderá superar 100 milhões de graus Celsius.
Nenhum material poderia simplesmente tocar esse plasma sem ser destruído. Por isso, enormes ímãs supercondutores produzem campos magnéticos capazes de mantê-lo afastado das paredes internas.
A diferença de temperatura dentro da instalação é impressionante. Enquanto o plasma ultrapassa 100 milhões de graus, alguns dos ímãs precisam operar a aproximadamente -269 °C.
A construção entrou em sua fase mais delicada
O projeto avançou significativamente nos últimos meses.
A base do enorme criostato — estrutura responsável por proporcionar o ambiente de alto vácuo e isolamento necessário aos ímãs — já foi instalada. A peça pesa mais de 400 toneladas, possui aproximadamente 18 metros de diâmetro e cinco metros de altura.
Mais recentemente, componentes fundamentais começaram a ser montados em uma estrutura formada por diferentes camadas concêntricas.
A expectativa oficial é concluir a construção do BEST até o final de 2027.
Isso não significa, porém, que uma usina comercial de fusão chinesa estará fornecendo eletricidade para milhões de residências imediatamente depois.
O BEST continua sendo uma instalação experimental.
A meta de 2030 é ainda mais ambiciosa
A etapa realmente importante deverá acontecer alguns anos depois.
Segundo a Academia Chinesa de Ciências, o projeto pretende demonstrar ganho líquido de energia de fusão e geração de eletricidade por volta de 2030.
A meta chegou a ser descrita pelos pesquisadores como o momento de acender a primeira “lâmpada alimentada por fusão nuclear”.
O plano científico desenvolvido pelo ASIPP em colaboração com o EUROfusion estabelece que o BEST deverá estudar plasmas de deutério e trítio e trabalhar com ganho de fusão superior a Q > 5.
Esse número é importante.
O chamado fator Q compara a potência produzida pelas reações de fusão com a potência fornecida diretamente ao plasma para sustentá-las. Ultrapassar determinados níveis de ganho de maneira controlada e reproduzível é um dos grandes desafios para tornar a tecnologia viável.
Não é o mesmo “Sol artificial” que já bateu recordes

Existe ainda uma confusão frequente quando se fala dos projetos chineses.
A China opera há anos o EAST, Experimental Advanced Superconducting Tokamak, que também costuma ser chamado de “Sol artificial” e já estabeleceu diferentes recordes de duração e temperatura do plasma.
BEST é outro dispositivo.
Ele aproveita décadas de experiência acumulada com o EAST, mas foi projetado para avançar para uma nova etapa: trabalhar com plasma de deutério-trítio em condições relevantes para futuras instalações de geração de energia.
Além deles, a China desenvolve tecnologias dentro do CRAFT, uma grande infraestrutura destinada a testar componentes necessários aos futuros reatores de fusão.
O Instituto de Física de Plasma da Academia Chinesa de Ciências também trabalha no conceito do CFETR, um futuro reator experimental ainda maior pensado para aproximar a tecnologia da produção comercial de eletricidade.
Por que a fusão nuclear é tão desejada
As atuais usinas nucleares utilizam fissão: átomos pesados, como urânio, são divididos para liberar energia.
A fusão funciona de maneira diferente. Núcleos atômicos leves se combinam para formar elementos mais pesados e liberam enormes quantidades de energia durante o processo.
É basicamente o mecanismo que alimenta estrelas como o Sol.
Na Terra, uma das estratégias mais estudadas utiliza deutério e trítio, dois isótopos do hidrogênio.
A promessa é enorme: produzir grandes quantidades de energia sem emitir dióxido de carbono durante a geração, com combustíveis potencialmente abundantes e sem o mesmo tipo de reação em cadeia utilizado nas atuais usinas de fissão.
O problema é conseguir manter as condições extremas necessárias durante tempo suficiente e transformar a energia produzida em eletricidade de maneira economicamente viável.
2030 será um teste, não o começo da energia ilimitada

Mesmo que o BEST cumpra todas as metas, a fusão comercial ainda terá obstáculos enormes pela frente.
Será necessário demonstrar operação contínua, resistência dos materiais ao bombardeio de nêutrons, produção e gerenciamento de trítio, manutenção dos componentes e custos competitivos com outras fontes de energia.
Por isso, falar em “energia ilimitada em 2030” seria exagerado.
O que a China pretende demonstrar é algo mais específico — mas ainda extraordinariamente importante: que um dispositivo de fusão pode avançar além dos experimentos de física de plasma e começar a mostrar como essa energia poderia ser transformada em eletricidade.
Se o cronograma funcionar, o fim desta década poderá marcar justamente essa transição: do esforço para manter um pequeno Sol aceso dentro de um laboratório para a tentativa de aproveitar sua energia fora dele.