Um julgamento que abala o país
Sheikh Hasina foi condenada à morte nesta segunda-feira (17) por crimes contra a humanidade ligados à repressão aos protestos estudantis de 2024, que acabaram derrubando seu governo. O julgamento ocorreu no Tribunal Penal Internacional de Bangladesh — uma corte doméstica criada para julgar crimes de guerra — e terminou com aplausos dentro da sala.
Segundo os juízes, ficou “cristalino” que Hasina incitou partidários, ordenou execuções e deixou de impedir abusos cometidos pelas forças de segurança. O tribunal estima que cerca de 1.400 manifestantes foram mortos e até 25 mil ficaram feridos durante semanas de confrontos.
A ex-premiê nega todas as acusações. Ela vive em exílio na Índia desde agosto do ano passado, quando abandonou o país após a onda de protestos. Não esteve presente no julgamento.
A defesa critica o processo, alegando falta de garantias básicas e violação do devido processo legal. Os advogados levaram o caso ao Relator Especial da ONU sobre execuções extrajudiciais, reforçando que o julgamento teria motivação política.
Violência cresce às vésperas do veredito

A capital, Daca, entrou em clima de cerco horas antes da sentença. Coquetéis Molotov foram lançados de motocicletas no domingo (16), e o governo reforçou a segurança com veículos blindados, forças antimotim e equipes de ação rápida.
A tensão aumentou após o filho de Hasina afirmar à Reuters que apoiadores da Liga Awami — partido hoje proibido — poderiam bloquear as eleições de 2025 caso a suspensão não fosse revertida. Ele alertou que “provavelmente haverá violência em Bangladesh” se nada mudar.
Para analistas locais, a condenação de Hasina pode aprofundar o caos político e radicalizar ainda mais grupos pró-e contra-governo — um risco crítico às vésperas do pleito nacional.
De líder democrática a governante autoritária
Sheikh Hasina tem uma trajetória marcada por glória e tragédia. Filha de Sheikh Mujibur Rahman, líder da independência de Bangladesh, ela perdeu o pai, a mãe e três irmãos em um golpe militar em 1975. Viveu no exílio até 1981, quando retornou para liderar a Liga Awami.
Venceu as eleições pela primeira vez em 1996. Voltou ao poder em 2008 e governou até ser derrubada em 2024.
Durante seus longos anos no comando, Bangladesh viveu um dos períodos de maior crescimento econômico da história, mas também acumulou denúncias de corrupção, perseguição a opositores e controle da imprensa. Organizações de direitos humanos afirmam que seu governo usou leis de segurança cibernética para prender jornalistas, artistas e ativistas — alguns deles vítimas de detenção arbitrária e tortura.
A queda de Hasina veio após protestos estudantis contra cotas no funcionalismo, movimento que se espalhou pelo país e se transformou em uma revolta nacional. A repressão de 2024, considerada o estopim da crise, é o centro da condenação anunciada hoje.
Um país dividido entre passado e futuro
Após perder o poder, Hasina fugiu para Nova Délhi. O governo interino de Bangladesh já pediu formalmente sua extradição, mas a Índia não respondeu — e isso alimenta ainda mais especulações sobre o destino da ex-líder.
O gabinete de transição é comandado por Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz. Ele afirma que os julgamentos contra Hasina e antigos aliados são essenciais para restaurar a confiança pública e reconstruir instituições democráticas.
Já os apoiadores da ex-premiê denunciam perseguição política e dizem que o país caminha para uma “caça às bruxas”.
Com a Liga Awami proibida de atuar e parte da antiga elite política vivendo no exterior, Bangladesh enfrenta um dilema histórico: punir crimes do passado ou evitar uma nova espiral de violência.
O que esperar agora?
A condenação à morte de Sheikh Hasina marca o momento mais tenso da política de Bangladesh em décadas. Com eleições nacionais previstas para fevereiro, a pergunta que paira sobre o país é simples — mas extremamente perigosa: é possível realizar um pleito livre e pacífico em meio a tamanha polarização?
O destino da ex-premiê, a reação de seus apoiadores e o silêncio da Índia podem redesenhar o tabuleiro regional. As próximas semanas dirão se Bangladesh conseguirá atravessar esse período crítico sem mergulhar em uma nova onda de instabilidade — ou se a sentença desta segunda-feira será apenas o início de algo maior.
[Fonte: CNN Brasil]