O açúcar faz parte da alimentação e a glicose é uma importante fonte de energia para o organismo. O problema aparece quando o consumo excessivo, especialmente de açúcares livres e adicionados, contribui para grandes e frequentes oscilações da glicemia.
Esses picos podem estar associados a consequências que vão muito além daquela sensação de cansaço depois de uma refeição. Em longo prazo, uma alimentação desequilibrada pode favorecer resistência à insulina, diabetes tipo 2 e doenças cardiometabólicas.
Segundo Tim Spector, médico, epidemiologista e professor do King’s College London, outro ponto merece atenção: a possível relação entre alterações metabólicas, inflamação e saúde cerebral.
Picos de glicose podem estimular processos inflamatórios

Spector explica que picos repetidos e muito elevados de açúcar no sangue podem estimular respostas do sistema imunológico e favorecer processos inflamatórios.
O cientista relaciona esse mecanismo ao chamado eixo intestino-cérebro, sistema de comunicação bidirecional que envolve diferentes vias do organismo, incluindo o nervo vago.
O cérebro também possui suas próprias células imunológicas, como a micróglia, capazes de responder a sinais inflamatórios.
Para Spector, alterações persistentes nesses mecanismos podem fazer parte da relação observada entre saúde metabólica e diferentes problemas neurológicos ou psiquiátricos.
Isso não significa, porém, que comer açúcar ocasionalmente provoque diretamente doenças como Alzheimer, depressão ou esquizofrenia. Essas condições são complexas e envolvem múltiplos fatores genéticos, ambientais, metabólicos e comportamentais.
O alerta está principalmente no consumo excessivo e frequente dentro de um padrão alimentar pouco saudável.
Açúcar em excesso também está relacionado ao diabetes tipo 2
Outro problema importante é a relação entre consumo elevado de açúcares livres, excesso de calorias, ganho de peso e desenvolvimento de resistência à insulina.
Quando as células passam a responder menos à insulina, o organismo precisa produzir quantidades maiores do hormônio para controlar a glicose presente no sangue.
Com o tempo, esse processo pode contribuir para o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
Spector destaca que existe uma associação importante entre diabetes tipo 2 e maior risco de comprometimento cognitivo e demência. Isso reforça a necessidade de observar a saúde metabólica não apenas como uma questão relacionada ao peso ou ao coração, mas também ao envelhecimento cerebral.
Nem todo açúcar provoca o mesmo efeito no organismo

Existe ainda uma diferença fundamental entre consumir açúcar adicionado e ingerir alimentos integrais que naturalmente contêm açúcares.
Uma fruta, por exemplo, oferece fibras, água, vitaminas e diferentes compostos vegetais. A presença das fibras também influencia a velocidade com que os carboidratos são digeridos e absorvidos.
Uma bebida açucarada apresenta uma situação bastante diferente. Grandes quantidades de açúcar podem ser consumidas rapidamente e praticamente sem fibras, facilitando uma elevação mais rápida da glicemia.
Por isso, simplesmente tentar eliminar qualquer alimento que contenha açúcar não representa necessariamente uma alimentação mais saudável.
O objetivo não precisa ser eliminar completamente o açúcar
O alerta de Spector está mais relacionado à frequência e à quantidade do que à necessidade de transformar o açúcar em um ingrediente absolutamente proibido.
Reduzir refrigerantes, bebidas açucaradas, doces e produtos com grandes quantidades de açúcar adicionado pode diminuir significativamente o consumo diário sem exigir mudanças extremas.
Combinar carboidratos com alimentos ricos em fibras, proteínas e gorduras também pode modificar a resposta glicêmica de uma refeição.
A mensagem principal é que saúde metabólica e cerebral estão mais conectadas do que parecem.
Um doce ocasional dificilmente define sozinho o futuro da saúde de alguém. Mas uma alimentação baseada constantemente em grandes quantidades de açúcares livres e alimentos pouco nutritivos pode contribuir para alterações metabólicas e inflamatórias que, mantidas durante anos, podem ter consequências muito mais amplas para o organismo.
[ Fonte: Men´s Health ]