Você está diante da televisão e aparentemente nada aconteceu. Não há monstro, assassino ou criatura escondida na tela. Mesmo assim, alguma coisa faz seu corpo perceber que o perigo está próximo. O coração acelera e surge aquela desconfortável vontade de se preparar para o pior. O cinema de terror aperfeiçoou esse efeito durante décadas, mas a explicação para ele não está apenas na direção ou no roteiro. Ela também passa pela maneira como nosso cérebro evoluiu.
O medo pode chegar antes da imagem

Alguns dos momentos mais famosos do cinema de terror seriam completamente diferentes sem suas trilhas sonoras.
Psicose transformou instrumentos de corda agudos em uma espécie de aviso universal de que algo terrível está prestes a acontecer. Tubarão conseguiu algo ainda mais curioso: bastaram poucas notas repetidas para ensinar milhões de espectadores a associar aquela sequência sonora à aproximação de uma ameaça.
Já O Exorcista explorou uma combinação de silêncios, ruídos e sons inesperados para produzir tensão mesmo quando aparentemente nada assustador estava acontecendo na tela.
Não é coincidência.
Diretores, compositores e designers de som descobriram que determinadas frequências, distorções e mudanças bruscas conseguem provocar desconforto quase instantaneamente.
O curioso é que parte desse mecanismo não nasceu no cinema. Ele é muito mais antigo.
Certos sons utilizados nas produções compartilham características acústicas com gritos humanos e vocalizações de alerta produzidas por animais. São ruídos que, ao longo da evolução, poderiam indicar uma ameaça nas proximidades.
O filme apenas descobriu como apertar esse antigo botão de emergência.
Há um tipo específico de som que nosso cérebro parece detestar
Pesquisadores estudam há anos os chamados sons não lineares. Eles aparecem quando um sistema vocal é levado ao limite e começa a produzir ruídos ásperos, distorcidos e imprevisíveis.
Um grito de medo é um ótimo exemplo.

Quando alguém grita intensamente, a voz deixa de apresentar a regularidade de uma conversa normal. Surgem irregularidades e uma espécie de aspereza acústica capaz de transmitir urgência mesmo quando não sabemos por que aquela pessoa está gritando.
Em 2010, pesquisadores liderados por Daniel Blumstein, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), analisaram trilhas sonoras de filmes pertencentes a diferentes gêneros.
O resultado revelou algo particularmente interessante no terror: essas produções apresentavam uma presença elevada de gritos ruidosos e recursos acústicos com características semelhantes às vocalizações de alarme encontradas na natureza.
Mas um filme não precisa colocar alguém gritando durante duas horas.
Instrumentos musicais e efeitos sonoros conseguem reproduzir características parecidas utilizando distorções, frequências conflitantes e mudanças inesperadas.
Outra pesquisa encontrou justamente essa chamada “rugosidade” dos gritos humanos em músicas desenvolvidas especificamente para provocar medo.
É por isso que determinadas trilhas parecem fisicamente desagradáveis.
Seu cérebro não espera descobrir se o perigo é verdadeiro
Do ponto de vista evolutivo, reagir rapidamente a um ruído estranho poderia significar a diferença entre escapar e se tornar vítima de uma ameaça.
Imagine nossos ancestrais ouvindo um grito repentino vindo de algum ponto próximo.
Parar para analisar cuidadosamente cada frequência daquele som provavelmente não seria uma estratégia muito eficiente. Primeiro era necessário entrar em alerta. Depois seria possível descobrir o que estava acontecendo.
Parte desse mecanismo continua funcionando dentro de uma sala de cinema.
Sons ásperos, alterações repentinas e frequências imprevisíveis podem elevar nossa ativação emocional e influenciar a maneira como interpretamos aquilo que estamos ouvindo. Experimentos mostraram que músicas inicialmente neutras passam a ser percebidas de maneira mais negativa ou inquietante quando recebem ruídos ou alterações bruscas de frequência.
É nesse ponto que imagem e áudio começam a trabalhar juntos.
Um corredor vazio talvez não seja assustador por conta própria. Uma porta entreaberta também não. Mas coloque uma trilha estranha ao fundo e faça um personagem caminhar lentamente naquela direção.
De repente, seu cérebro começa a procurar uma ameaça que ainda nem apareceu.
O monstro pode continuar escondido. Seu corpo já recebeu o aviso.
Às vezes, o som mais assustador é justamente nenhum

Existe ainda outro truque que o cinema de terror domina muito bem: retirar praticamente tudo.
Pouco antes de uma cena importante, muitos diretores diminuem a música, eliminam sons ambientais e criam alguns segundos de aparente tranquilidade.
Esse silêncio não necessariamente acalma.
Ele cria expectativa.
Quando o ambiente sonoro fica subitamente vazio, o espectador começa a prestar mais atenção. E qualquer ruído que apareça depois ganha uma intensidade muito maior.
É exatamente esse contraste que ajuda a explicar a eficiência dos famosos jumpscares.
Primeiro vem a calma. Depois, uma mudança abrupta de volume acompanhada por uma imagem inesperada. O corpo reage ao impacto antes mesmo de termos tempo suficiente para compreender conscientemente aquilo que apareceu na tela.
Talvez exista uma maneira simples de perceber o tamanho dessa influência.
Assista a uma cena assustadora sem áudio.
O corredor continua escuro. A criatura continua aparecendo. A porta continua abrindo lentamente. Mas algo importante desaparece.
A imagem mostra onde está o perigo. O som é frequentemente responsável por convencer seu cérebro de que ele está chegando.
[Fonte: Sensacine]