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Tecnologia

A IA pode criar novos empregos e ainda assim deixar milhões de trabalhadores sem conseguir chegar até eles

O futuro do trabalho esconde um paradoxo: novas vagas podem surgir justamente onde faltam profissionais preparados, enquanto trabalhadores de outros setores descobrem que suas habilidades já não abrem as mesmas portas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Grande parte do debate sobre inteligência artificial gira em torno de uma pergunta aparentemente simples: quantos empregos desaparecerão e quantos serão criados? Mas existe outra possibilidade muito mais complicada. E se as vagas realmente surgirem, mas estiverem nos lugares errados para quem precisa delas? Novas projeções sobre o mercado americano mostram que tecnologia, envelhecimento populacional e qualificação profissional podem avançar em direções diferentes, criando uma espécie de quebra-cabeça laboral.

Os Estados Unidos podem perder milhões de trabalhadores antes de 2040

A IA pode criar novos empregos e ainda assim deixar milhões de trabalhadores sem conseguir chegar até eles
© Pexels

O problema começa antes mesmo de considerar aquilo que a inteligência artificial será capaz de fazer.

Com os níveis atuais de imigração, projeções do Indeed Hiring Lab indicam que a força de trabalho dos Estados Unidos poderá encolher cerca de 1,2 milhão de pessoas até 2040.

Antes disso, porém, o impacto poderá ser ainda mais pronunciado.

Até 2032, a redução poderia chegar a aproximadamente 5,9 milhões de trabalhadores, ou 3,7% da força de trabalho, principalmente devido ao envelhecimento da população e às aposentadorias.

Seria tentador imaginar que a inteligência artificial preencheria automaticamente esse vazio.

Afinal, se existem menos pessoas disponíveis para trabalhar e máquinas conseguem assumir uma quantidade crescente de tarefas, os dois fenômenos poderiam simplesmente se compensar.

O problema é que eles não estão acontecendo necessariamente nos mesmos lugares.

Os setores mais expostos ao impacto da IA incluem informação, atividades financeiras e serviços profissionais e empresariais.

Já algumas das maiores necessidades de trabalhadores deverão aparecer em áreas bastante diferentes.

E essa incompatibilidade muda completamente a discussão.

A IA avança onde talvez não esteja a maior escassez de pessoas

A IA pode criar novos empregos e ainda assim deixar milhões de trabalhadores sem conseguir chegar até eles
© Pexels

Construção, saúde e administração pública estão entre os setores nos quais se projeta uma necessidade importante de mão de obra.

São justamente áreas em que a inteligência artificial pode oferecer menos capacidade de substituição direta.

Uma IA consegue analisar documentos médicos, por exemplo, mas isso não significa que possa assumir todas as tarefas físicas e humanas realizadas por um enfermeiro.

Da mesma forma, sistemas generativos podem auxiliar arquitetos e engenheiros, mas não substituem automaticamente os trabalhadores necessários para construir uma casa.

Surge então um cenário curioso.

Enquanto determinados empregos administrativos e profissionais podem ter cada vez mais tarefas automatizadas, outras áreas continuam procurando pessoas.

Na teoria, bastaria deslocar trabalhadores de um setor para outro.

Na prática, mudar de profissão é muito mais complicado do que mover uma peça sobre um tabuleiro.

A grande pergunta passa a ser: quanto daquilo que uma pessoa já sabe fazer pode ser aproveitado em outra ocupação?

Algumas habilidades atravessam profissões, outras exigem anos de preparação

Existem competências que aparecem em diferentes setores.

Comunicação e gestão empresarial são bons exemplos.

Segundo os dados citados pelo Indeed Hiring Lab, habilidades básicas relacionadas às operações comerciais aparecem em mais de 70% das ofertas de emprego nos Estados Unidos.

Isso significa que trabalhadores podem carregar parte de sua experiência quando mudam de profissão.

A própria expansão da IA já mostra que as fronteiras estão ficando menos rígidas.

Nos Estados Unidos, 63% das vagas relacionadas à inteligência artificial estão fora das ocupações tecnológicas tradicionais.

Entre seis países analisados, cinco apresentam pelo menos metade dessas vagas fora do núcleo clássico da tecnologia.

Mas existe um obstáculo importante.

Nem toda competência pode simplesmente ser transferida.

Trabalhar na área de saúde, por exemplo, frequentemente exige formação específica, certificações profissionais e experiência que não podem ser adquiridas apenas utilizando um chatbot.

Ao mesmo tempo, as empresas estão pedindo mais dos candidatos.

As vagas já estão exigindo duas habilidades a mais que antes da pandemia

A oferta média de emprego atualmente solicita duas competências adicionais em comparação com o período anterior à pandemia.

Também cresce o número de vagas fora do setor tecnológico que exigem pelo menos uma habilidade técnica.

Isso cria duas realidades bastante diferentes.

Para trabalhadores que possuem acesso a treinamento e conseguem atualizar rapidamente suas competências, a transformação pode abrir novas possibilidades.

Para quem não possui tempo, dinheiro ou acesso à capacitação, a mesma mudança pode elevar ainda mais a barreira de entrada.

É aí que surge um dos paradoxos mais interessantes da inteligência artificial.

A própria tecnologia que contribui para modificar as exigências profissionais também poderia ajudar trabalhadores a atravessar essa transição.

Sistemas de IA podem analisar competências existentes, encontrar semelhanças com outras profissões e indicar quais conhecimentos precisam ser adquiridos para mudar de área.

Também podem funcionar como ferramentas de aprendizado durante a reconversão profissional.

Mas isso está longe de resolver todo o problema.

Mesmo com a IA ajudando, a conta ainda não fecha

Segundo as projeções apresentadas, mesmo em um cenário no qual a inteligência artificial complemente trabalhadores, aumente a produtividade e contribua para gerar novas oportunidades, esses efeitos compensariam apenas cerca de 11% das perdas de mão de obra associadas às mudanças demográficas consideradas no estudo.

Esse número revela por que discutir apenas quantos empregos a IA vai destruir pode ser insuficiente.

Talvez existam vagas.

Talvez existam trabalhadores procurando oportunidades.

E, ainda assim, os dois lados podem simplesmente não conseguir se encontrar.

Um profissional administrativo não se transforma instantaneamente em enfermeiro. Um trabalhador de marketing não pode assumir amanhã uma vaga especializada na construção civil. E alguém com décadas de experiência pode enfrentar dificuldades para competir por funções que passaram a exigir competências digitais que não existiam quando iniciou sua carreira.

Por isso, o futuro do emprego pode depender tanto de educação, treinamento, mobilidade profissional e reconhecimento de habilidades transferíveis quanto da própria inteligência artificial.

O paradoxo é poderoso.

Durante anos, a pergunta foi se as máquinas deixariam pessoas sem emprego.

O cenário que começa a surgir é diferente e talvez mais difícil de resolver: podemos chegar a uma economia cheia de vagas e, ao mesmo tempo, cheia de trabalhadores que não possuem o caminho necessário para ocupá-las.

[Fonte: Notipress]

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