O contraste é gritante. O Brasil é líder mundial na reciclagem de latas de alumínio, com 97% de reaproveitamento em 2024. Mas quando o assunto é plástico, papel e vidro, a taxa despenca: apenas 4% do lixo total é reciclado, bem abaixo da média global de 16%.
O governo tenta mudar esse cenário. Um novo decreto federal, publicado no Diário Oficial em 21 de outubro, estabeleceu metas nacionais de reciclagem: chegar a 32% até 2026 e a 50% até 2040. Para as embalagens reutilizadas em novos produtos, a meta é subir de 22% para 40% no mesmo período.
As novas regras apertam o cerco sobre um setor bilionário — e sobre marcas que movimentam milhões de toneladas de embalagens todos os anos.
Coca-Cola, Natura e Boticário na corrida pela economia circular

As quatro gigantes ouvidas pela Exame estão apostando alto em logística reversa — o processo que recolhe embalagens após o consumo e as devolve à cadeia produtiva. Os programas vão desde apoio a cooperativas de catadores até parcerias com recicladoras no Nordeste e na Amazônia.
A Natura, por exemplo, é veterana no assunto: lançou seus primeiros refis em 1983 e agora quer se tornar 100% regenerativa até 2050. A meta inclui que todas as embalagens sejam reutilizáveis, refiláveis, recicláveis ou compostáveis até 2030. Parte desse trabalho vem de projetos que recolhem resíduos de rios amazônicos e os transformam em novos frascos.
Já a Coca-Cola Brasil aposta na expansão de fábricas de reciclagem próprias e na integração com cooperativas regionais. O Boticário investe em parcerias com startups e em soluções de rastreabilidade para garantir que cada embalagem tenha destino certo. A Unilever, por sua vez, foca na redução do uso de plástico virgem, substituindo parte do material por alternativas recicladas.
O grande paradoxo: o plástico reciclado custa mais caro
Apesar dos avanços, todas essas iniciativas enfrentam o mesmo obstáculo: a resina reciclada ainda é mais cara que o plástico virgem. Essa distorção ocorre por causa da baixa escala, da falta de infraestrutura de coleta e do alto custo logístico.
O resultado é um paradoxo: reciclar é bom para o planeta, mas ruim para o caixa — a menos que novas políticas públicas e incentivos fiscais tornem o processo competitivo.
Um novo capítulo rumo à COP30
Com a COP30 marcada para 2025 em Belém (PA), o Brasil quer mostrar que pode ser referência em inovação sustentável. E, desta vez, a mudança vem com um diferencial importante: colocar os catadores no centro da estratégia nacional.
Mais do que uma meta de reciclagem, o país tenta provar que é possível unir impacto ambiental, inclusão social e lucro. A corrida começou — e quem ficar para trás pode ver seu modelo de negócios se tornar coisa do passado.
[Fonte: Exame]